Hora de ponta no metro de nova
iorque. Um homem bonito e uma mulher
tocam um no outro. Pedem desculpa
e trocam de olhares. Ele sai na estação, mas
em vez de virar costas, vai à janela e diz-lhe as palavras «Missed connections».

Sem fazer ideia do que era, quando chegou
a casa foi direta ao computador e descobriu
uma série de anúncios de pessoas que
tinham vivido uma experiência como a
sua.

Ele continua por encontrar, mas ela
é Sophie Blackall, ilustradora e autora do
livro «Missed Connections Love Last & Found»,
onde ilustra estes encontros fugazes que
nos põem a pensar em desconhecidos.

A descoberta

«Tu tinhas uma guitarra, eu tinha um
chapéu azul. Trocámos olhares e sorrisos
na plataforma de metro. Queria ler o New
Yorker mas não me conseguia concentrar.
Tu apanhaste o Q e eu fiquei à espera do
B. Eras lindo. Provavelmente não vais ler
isto, mas tinha de tentar». Este foi o primeiro
post de muitos que Sophie Blackall
leu naquele dia.

«Num espaço de oito
segundos, experienciei o amor, a perda e
o arrependimento. Detive a respiração e
continuei a clicar nos posts. Esqueci-me
completamente do rapaz bonito do metro
no meio de toda a emoção», conta.
Este episódio deu origem a um blog missedconnectionsny.
blogspot.com e,
mais recentemente, ao livro acima citado.

Adesão surpreendente

«Quando comecei o projeto, queria tentar
fazer um desenho por dia e o blog foi a
forma de me disciplinar, pois sabia que
havia pessoas à espera, mas não estava
preparada para tal adesão», explica. Começou
a receber emails de todo o lado,
entre os quais Portugal, com pessoas a pedirem-
lhe ajuda para encontrar os amores
perdidos.

Hoje, continua a pesquisar novas
histórias e está sempre atenta ao que a rodeia. «No metro, no supermercado e, às
vezes, vejo estes momentos a acontecer»,
afirma. Não considera o blog um ponto
de encontro, mas pensa que «a maioria das
pessoas acha o Missed Connections promissor
e romântico e lá no fundo todos desejamos
ser a pessoa desaparecida», refere
Sophie Blackall. Já houve pessoas que se
reencontraram, outras nem por isso, mas
a ilustradora acha que quem a «contacta
acredita sempre que pode encontrar o(a)
tal desconhecido(a)».

Amor à primeira vista

A ilustradora diz que numa relação é
preciso muito mais do que o amor à
primeira vista. «Em alguns casos conhecer
uma pessoa mais intimamente pode
matar o amor à primeira vista. Clichés
à parte, é maravilhoso ter alguém que
traz uma chávena de chá quando estamos
constipados. Alguns de nós encontram
essa pessoa à primeira, mas os restantes
têm de esperar por uma segunda oportunidade», diz.

No entanto, como realça,
não se pode desistir. «Só temos uma vida
e passamos por ela muito rapidamente.
Os momentos de intimidade com estranhos
são desvios menores que raramente
exploramos, mas esses momentos fazem-nos sentir vivos. A ilustradora sabe que
estes encontros «não são um fenómeno
exclusivo de Nova Iorque», mas
considera que «são o produto perfeito
desta cidade: pessoas à procura
de intimidade na multidão».

Veja na página seguinte: O projeto português

Em Portugal

Influenciado por esta cultura norte-americana, onde não há o preconceito das
pessoas se conhecerem através de outras
plataformas, e movido pela quantidade
de e-mails que recebia diariamente de
pessoas a queixarem-se da sua situação
amorosa, o jornalista e blogger Ricardo
Martins Pereira criou uma iniciativa no
seu blog, que
visa também promover o encontro de pessoas.

«Como gosto de fazer coisas que não
se fazem em Portugal e o meu blog é sobre
amor e relacionamentos, decidi criar o In
the Mood for Love», explica.

Para participar,
basta enviar um email com as características
que procura numa pessoa, um perfil e
fotografias, que podem ou não ser publicados,
e o blogger faz de intermediário.

Relacionamentos sérios

Para o jornalista, a grande diferença da sua
iniciativa em relação a outros sites de encontros
é que «esta não é uma plataforma
para encontrar alguém para ter sexo.
A ideia é juntar pessoas que estão desencontradas
do amor e querem ter um
relacionamento». Não se considera um
casamenteiro dos tempos modernos, o seu
objetivo é que as pessoas entendam o amor.

«Faço isso desde o início do blog. A partilha
de ideias e de experiência faz com que as
pessoas se sintam menos sozinhas e se identifiquem
com os problemas dos outros».
A participação superou todas as expectativas.
«Não estava à espera, sobretudo, de que
houvesse tanta gente a dar a cara», diz.

À distância da rede

O jornalista acredita que o isolamento que
caracteriza a sociedade de hoje pode ser
um entrave para os relacionamentos.
«As pessoas precisam de um estímulo e foi
o que fiz. Sou completamente pró-redes
sociais e acho que servem como elo de
ligação, mas há quem esteja a substituir os
afetos e os relacionamentos por aquelas.
Não podemos ser meros espectadores da
vida dos outros lá porque sabemos tudo
pelo Facebook», realça.

Ricardo Martins
Pereira não acredita no amor à primeira
vista, mas na química. «Acho perfeitamente
possível estarmos com uma pessoa e nascer
uma química, mas acho que é muito
mais racional do que emocional, tem mais
a ver com a cumplicidade do que uma química
real de pele. No entanto, é impossível
olhar para uma pessoa e perceber que é a
mulher da nossa vida», remata.

Texto: Rita Caetano com Ricardo Martins Pereira (jornalista) e Sophie Blackall (ilustradora)

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