Na maioria das sociedades, prevalece a ideia de que quando uma pessoa pede ajuda e recorre a terapia, as dificuldades relacionais e os conflitos internos identificados pelo psicólogo são atribuídos, na sua totalidade, à infância e, particularmente, aos pais (por exemplo, frases como “vão analisar-te e dizer que a culpa é dos pais!”).

Apesar de não ser necessariamente assim, a verdade é que a infância é um período fundamental para a construção da nossa personalidade e funcionamento emocional, dado o impacto das experiências precoces, as quais dependem, inevitavelmente, dos nossos progenitores e da forma como exercem a parentalidade. Contudo, o objetivo da terapia não é, de todo, culpabilizar os pais, mas ajudar a pessoa no seu processo de desenvolvimento e crescimento pessoal, dotando-a de estratégias e de auto-conhecimento.

Desta forma, surge a questão: o que são «estilos parentais»? Por estilo parental entende-se o conjunto de práticas que são transmitidas e incutidas às crianças pelos seus progenitores. Neste sentido, a ciência psicológica, ao longo dos anos, tem vindo a identificar quatro estilos parentais, designadamente:

  • Estilo Autoritário: pais exigentes, rígidos e inflexíveis que valorizam a obediência e a disciplina. O comportamento da criança é avaliado de acordo com regras que desvalorizam as necessidades do descendente, recorrendo ao uso da força e da punição sempre que estas são desrespeitadas. Estes pais desencorajam a independência e individualidade da criança e as relações tendem a ser distantes e frias.
  • Estilo Permissivo: pais responsivos às necessidades e desejos das crianças, mas pouco exigentes e, por vezes, demasiado tolerantes. Os pais permissivos evitam a punição, o controlo e a autoridade, ou seja, permitem que a criança regule o seu comportamento e tome decisões. Ainda que caloroso e acolhedor, este estilo não envolve o estabelecimento claro de regras e limites, o qual é seguido pela concordância às exigências da criança.
  • Estilo Autoritativo, também conhecido como estilo democrático: pais exigentes, mas responsivos às necessidades das crianças, os quais estabelecem regras claras, mas adequadas ao funcionamento e necessidades dos filhos. São firmes na aplicação das regras, mas demonstram-se dispostos a negociar as regras com as crianças, transmitindo a ideia de que, para além dos pais terem o seu ponto de vista, as crianças também possuem esse direito. Estes pais estimulam o diálogo e promovem a autonomia e individualidade nas crianças.
  • Estilo negligente: pais ausentes, desinteressados, emocionalmente distantes e pouco envolvidos nas funções parentais (por exemplo, providenciar afeto e carinho, estabelecer regras, partilhar atividades com as crianças; ajudar na tomada de decisão). Não raras vezes, focam-se apenas na satisfação das necessidades básicas, como a alimentação e higiene, existindo uma desresponsabilização crescente pelo bem-estar psicológico dos descendentes. Em poucas palavras, a criança tem um papel secundário na vida dos pais.

O estilo parental autoritativo é apontado pela literatura como o ponto intermédio entre o estilo autoritário e permissivo e, por isso, considerado o estilo que se associa a um desenvolvimento saudável e pleno. Tomem-se como exemplos uma elevada autoestima e autoeficácia, comportamento independente e responsável, adequado autocontrolo, elevado desempenho académico.

Por oposição, o estilo autoritário encontra-se associado a uma baixa autoestima, reduzidas competências sociais e tendência a vivenciar sintomatologia depressiva (por exemplo, tristeza, sensação de vazio, pensamentos autodepreciativos como “eu não sirvo para nada” ou “eu faço tudo mal”).

Por sua vez, as investigações acerca do estilo permissivo destacam consequências negativas como um baixo desempenho escolar, comportamentos problemáticos, associados à agressividade, impulsividade e irresponsabilidade, baixo autocontrolo; comportamentos egocêntricos, imaturidade e baixa autonomia na resolução de problemas.

Quanto ao estilo negligente, a literatura aponta que as crianças tendem a vivenciar sentimentos de tristeza e revolta, a possuir uma baixa auto-estima (“nem os meus pais gostam de mim!”) e a nutrir relações instáveis, dadas as inseguranças em relação ao amor e intenções dos outros. A longo prazo, existe um risco elevado destas crianças recorrerem a comportamentos de risco (como por exemplo, o consumo de álcool e drogas).

Na prática, importa promover estratégias que podem ser adotadas num registo parental autoritativo. Seguem possíveis práticas para uma parentalidade positiva e autoritativa, nomeadamente:

  1. Alcançar um equilíbrio entre o “sim” e o “não”. É importante dizer não para estabelecer regras e limites. Contudo, é importante identificar e planear situações para dizer “sim”, aumentando a confiança e autoestima das crianças (“eu sou capaz”, “eles confiam em mim”). Se o “não” for sempre a resposta dos pais, irá facilitar o desenvolvimento de sentimentos de falha (“eu só faço asneiras”), rejeição (“os meus pais não gostam de mim”), zanga (“é sempre a mesma coisa!”) ou dúvida (“não sei sou capaz”.
  2. Estabelecer regras, limites e expectativas para o comportamento adequados à idade e maturidade emocional da criança. Em poucas palavras, não esperar que o seu filho seja um mini-adulto. Tome-se como exemplo as idas ao médico, a presença em cerimónias (por exemplo, casamentos ou funerais) ou visitas a casa de amigos e familiares, em que a criança está em contacto com novos estímulos e pessoas, o que fomenta a sua curiosidade e necessidade de explorar o ambiente. Não é expectável que uma criança fique sentada e em silêncio o tempo todo, principalmente devido ao risco de se sentir aborrecida e querer brincar.
  3. As regras são definidas pelos pais, mas é importante que sejam abordadas com as crianças, para que estas se sintam valorizadas e percebam que têm direitos (como o direito a ter opinião). Mais uma vez, isto não é sinónimo de dizer “sim a tudo”. A criança tem espaço para argumentar e sentir-se escutada pelos pais, os quais podem tomar a decisão de ajustar as regras ou de as manter como inicialmente definidas - sempre em função do que os pais considerarem pertinente.
  4. Escuta ativa das preocupações, isto é, ouvir o seu filho tranquilamente, de forma atenta e sem interrupções. Naturalmente que nem todos os pedidos da criança serão respondidos, mas é importante esclarecer, quando oportuno, o motivo e evitar explicações como “porque eu quero” ou “porque sim/não”, que aumentam a sensação de frustração da criança e potenciais sentimentos de desvalorização.
  5. Reconhecer as qualidades dos filhos, promovendo a autonomia e individualidade das crianças. Os elogios devem ser frequentes, mas deve existir espaço para críticas. As quais devem ser ponderadas, nomeadamente “fizeste isto tão bem! Para a próxima, poderia ser importante acrescentar o seguinte”; “não faz mal em errar, eu ajudo-te a fazer de novo e amanhã fazes tu sozinha”).
  6. Promover o reconhecimento de emoções nos filhos. Em vez de assumir o que a criança sente e questionar “porque estás chateado?” ou “porque estás a fazer birra?”, é importante perguntar “o que estás a sentir?”. Esta estratégia ira aumentar o reportório emocional das crianças, o qual pode ser facilitado pela expressão emocional dos pais (“o que tu fizeste ontem deixou-me muito triste”) - o que permite, simultaneamente, que as crianças ganhem autocrítica acerca do impacto do seu comportamento.

Naturalmente que as práticas devem ser individualizadas às características e necessidades da criança e dos pais, serem avaliadas no contexto de uma intervenção psicológica individual. Peça ajuda para desenvolver estratégias e práticas parentais positivas. É um ato de coragem e altruísmo, enquanto progenitor, procurar ajuda e contribuir para o bem-estar da sua família e nunca, em momento algum, um ato de fraqueza, vergonha ou sinónimo de que falhou, enquanto pai ou mãe. Aliás, o seu ato de pedir ajuda será em si uma lição para os seus filhos.

As explicações são de Sofia Gabriel e de Mauro Paulino da MIND | Instituto de Psicologia Clínica e Forense.

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