Poucas coisas me são tão dolorosas, quanto ler na internet comentários de mães profundamente magoadas, que nos seus escritos mostram uma zanga insanável, um quase desejo de aniquilação. Todas giram à volta do diagnóstico de autismo por mim pronunciado, e que é vivido como se tivesse lançado sobre a criança uma maldição, pela simples suspeita de uma disfunção que é em si mesma suficientemente vaga para albergar um rol de dificuldades diversas, prognósticos distintos e percursos divergentes.

 

"Como pode ele pronunciar a palavra terrível? Lançar sobre o meu filho o anátema? Condená-lo ao opróbrio? Bem sei que ele disse que muitas crianças ultrapassavam o problema, que  a maioria se tornavam em adultos competentes e bem sucedidos, que é possível amanhecer com chuva, mas o dia terminar sob um céu límpido, pintado de cores gloriosas... não obstante, ele pronunciou "A Palavra"!

 

Passaram-se muitos anos desde que eu anunciei a uma mãe que o seu filho padecia de uma doença neurológica incurável, que levaria o seu filho à cadeira de rodas e a uma morte prematura. A mãe correu mundo à procura de um diagnóstico diferente. Gastou uma fortuna em curandeiros e charlatões sem que o oráculo pronunciasse sentença distinta, ou a doença suspendesse o percurso inexorável. Nunca a mãe me perdoou a competência, mil vezes amaldiçoou a minha experiência.

 

Tal como a  pele, também o cérebro se revela por inteiro aos nossos olhos. Avaliar o comportamento do outro é-nos tão natural quanto qualquer outro ato essencial à vida: respirar... comer... Levo trinta anos de experiência, três décadas a olhar o comportamento infantil como um astrónomo as estrelas. E há quem se admire que num relance reconheça uma constelação, e a nomeie!

 

A minha atitude profissional foi educada nos Estados Unidos, país onde a dignidade das pessoas impõe que a verdade lhes seja comunicada com inteireza. Não percorro as ruas ou as escolas apontando o dedo às crianças, indicador feito varinha de condão, formatando destinos, lançando sentenças. As crianças que observo e diagnostico são-me trazidas pelos pais por motivos que se prendem com a minha reputação ou experiência, mas uma vez postas ao seu serviço, recebem-nas como um insulto, como se eles próprios não tivessem reconhecido a diferença, e sentissem no seu íntimo que a pauta continha uma nota dissonante. Se assim não fosse, que razão teriam para me procurar, e se sabem que me engano, porque se atormentam?

 

Que culpa tenho que as televisões e jornais repitam estereótipos a propósito de uma doença onde cabem disfunções diversas? Que sobre uma perturbação do desenvolvimento, que como a própria palavra informa, implica transformação e mudança, vejam o "rigor mortis" de uma estátua? Devo por isso fugir à verdade? Usar outras palavras que não assustam, mas também não ajudam na compreensão da criança e da natureza do seu problema? Como explicar que um diagnóstico está sujeito ao erro de quem o formula, mas não deve trair a confiança de quem nos busca à procura da opinião que nasce do abraço que une a experiência e o pensamento.

 

Confesso que temo, chegado o dia, que as portas do Céu me estejam vedadas, e que um S. Pedro severo me aponte o dedo acusador e incendeie o remorso, dizendo: " Fizeste sofrer!" Então, olharei por cima do seu ombro, para além dele o meu olhar encontrará quem se senta no trono do destino, e baixando a cabeça direi: não fui eu... não fui eu...

 

Nuno Lobo Antunes
Neuropediatra
Diretor Clínico do PIN – Progresso Infantil

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