Este fim de semana foi, como habitual, maravilhoso. Talvez as mães de filhos “mais crescidos” entendam este meu ponto de vista, mas dá-se qualquer coisa simplesmente fantástica quando os miúdos entram naquela idade em que podemos fazer praticamente tudo com eles. Fomos à praia, passámos tempo com amigos, dançámos nos santos populares, descobrimos novos museus, fizemos o jogging em família, rimos muito, mimámo-nos ainda mais.

Mas só foi tudo maravilhoso até que me “vi”. A minha filha mais velha herdou este meu hábito de registar os nossos momentos em família e gravou um vídeo do momento em que estávamos a preparar o jantar. E foi precisamente quando fomos ver esta filmagem que eu caí em mim. Enquanto uns punham os pratos na mesa, os outros davam um jeito na sala e eu acabava de preparar a refeição. Até que reparei em alguma coisa fora do sítio (daquelas coisas tão parvas que se tornam surreais) e dei azo aos meus impulsos linguísticos. Reclamei com a minha filha do meio por não ter organizado os papéis em que todos os dias inscreve a sua criatividade. Mas fi-lo num tom tão frio e arrogante que, ao ouvir as minhas palavras, tive um surto de consciência punidora. Quem sou eu para falar de modo rude (ou tão rude) com os meus filhos? Porque raio é que, por vezes, não percebo que educar e corrigir não implica ser castradora nas palavras?

Não, não gritei de forma esganiçada, não levantei a mão, não ameacei nem amaldiçoei a minha vida. Mas talvez fosse melhor se o tivesse feito, naqueles impulsos que duram milésimos de segundos e que depois nos fazem cair num riso incontrolável. Foi um achaque que me assolou durante um minuto e sete segundos mas que pareceu durar uma eternidade. A minha cara fechada, o meu tom assertivamente estúpido, as palavras que ecoavam naquela cozinha pequena onde habitualmente reina o caos, mas também a felicidade.

Confesso que esta noite mal consegui dormir. Fui assolada por uma série de vetos judaico-cristãos e passei horas a rever mentalmente aquela gravação, a que se somaram outras memórias menos felizes desta minha já não tão curta história como mãe. Os momentos em que reagi como não devia, em que disse o que eles não mereciam, em que me comportei como a verdadeira “Godzilla” que eles ironicamente me acusam de ser todas as manhãs. E deixei-me ficar, naquela cama grande e punidora, a questionar-me como mãe mas sobretudo como pessoa.

Jurei por tudo o que me é mais importante que vou tentar ser melhor. E foi assim que adormeci.

E como o Universo não brinca em serviço, pôs-me imediatamente à prova mal o dia raiou. Os meus filhos mais novos resolveram que seria uma excelente ideia acordar às seis da matina, interrompendo o meu curto sono com gargalhadas estridentes. Abri os olhos, confirmei a triste hora e, quando eu me preparava para disparar uma série de queixumes, a voz da consciência fez-me parar. Chamei-os ao quarto e pedi calmamente para irem brincar para a sala, permitindo-me assim ter mais uma hora de descanso.

Esta devia ser a mãe que os meus filhos têm todos os dias. Paciente, compreensiva, desprendida das adversidades da vida. É muito simples justificarmos os nossos maus comportamentos com os contratempos dos dias. Eu sou perita nisso. Acumular quatro filhos, três trabalhos e todas as responsabilidades logísticas inerentes à simples existência parecem dar-me a justificação perfeita para as palavras frias e para os gritos matinais. Mas não dão.

E, por isso, enquanto meio mundo anda dedicado ao desafio da barriga lisa em 30 dias, eu estou dedicada ao meu próprio desafio: o de ser uma mãe melhor, mais calma, mais paciente. Não por 30 dias, mas antes por todos aqueles que ainda tenhamos, todos juntos, pela frente.

Alda Benamor

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