Há duas semanas, uma senhora de avançada idade entrou inadvertidamente na estrada que eu me preparava para atravessar. Fizeram o destino e a pouca velocidade a que, por acaso, eu conduzia com que eu conseguisse travar a tempo de evitar o pior. Mas não evitei que a senhora levasse um valente susto, o que me fez passar mais de meia hora a conversar com ela e a tentar acalmá-la.

Daqui surgiu uma relação. Algumas visitas para confirmar que está bem, alguns telefonemas de reconforto, umas boleias para locais próximos. E foi precisamente nestes contactos que descobri, atrás daquela vizinha velhota e solitária, uma pessoa que não quero vir a ser: uma mãe que, no fim da vida, se vê totalmente ignorada pela única filha que, mesmo percebendo o isolamento da senhora, está demasiado ocupada para, durante semanas, lhe fazer um único telefonema.

As famílias têm contornos que nem sempre compreendemos. Grãos, resquícios, traumas e egos feridos que às vezes não são fáceis de contornar. E que nos fazem tomar decisões que estão longes de ser corretas. E é por isto que, apesar da afinidade que agora me liga a esta senhora, eu não sei que curvas e contracurvas teve esta relação maternal para que hoje não exista mais que um buraco negro entre mãe e filha.

Esta coisa de vivermos a urgência do dia-a-dia faz com que muitas vezes nos esqueçamos das consequências do hoje no amanhã. É como se a infância dos miúdos durasse para sempre, como se o que gritamos injustamente não lhes ficasse a ecoar num inconsciente eterno, como se o que lhes faltamos hoje talvez (talvez!) venha a poder ser compensado daqui a uns dias.

E depois? E quando chegarmos àquela idade em que a sociedade já não nos julga capazes? E quando as forças nos faltarem e os simples metros que nos separam da mercearia parecerem já demasiado longos para percorrermos sozinhos? E quando eles, os eternos miúdos, tiverem já as suas vidas, tão distantes das nossas?

Não sou pessoa de dores precoces, mas confesso que a D. Augusta, esta minha vizinha solitária, se revelou um reflexo virtual daquilo que não quero viver. Uma vida isolada, dependente de alguém que nunca aparece, sentada num cadeirão estrategicamente colocado junto ao telefone. Que nunca toca.

Tento ser todos os dias a mãe que os meus filhos vão continuar a querer quando existirem independentemente de mim. Mas não sei até que ponto é que eu, eles ou a vida faremos com que este meu desejo se realize. Com que possamos falar ao telefone só para saber como correu o dia. Com que tenhamos almoços de família a cada domingo. Com que nos continuemos a amar e a querer com a intensidade que sentimos hoje e que, se calhar ingenuamente, nos parece eterna.

Porque, no fundo, todos somos uma potencial D. Augusta. A ansiar que os nossos filhos estejam longe de ser potenciais filhos como é a desta senhora.

Alda Benamor

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