Sofia Pombo e Costa socorre-se de um provérbio africano para enfatizar a ideia: ‘para proteger e para educar uma criança é necessário uma aldeia’.

“Estamos a falar de familiares próximos, vizinhos, escolas, centros de saúde, que contactam de uma forma muito mais diária e não só do técnico, já numa segunda linha, ou de uma comissão de proteção”, realça a psicóloga em entrevista à Lusa, a propósito dos mais recentes casos de morte de crianças – o bebé esfaqueado pelo pai e a menina agredida pelo padrasto.

“São situações lamentáveis e tristes que fazem com que questionemos como podemos evitar este tipo de situações”, diz.

“Mas vem-me logo à mente o quão difícil é a proteção das crianças e o quão precisamos de olhar para o sistema que tantas vezes é falado como muito mais abrangente do que me parece que às vezes é”, sublinha.

“E por isso, mais do que focarmo-nos tanto no técnico e na comissão de proteção e no sistema quase micro, temos que olhar para todo o sistema e questionar porque é que estas situações ocorrem em todos os patamares desse sistema começando por todos nós, enquanto pessoas, pela comunidade que deve e pode estar atenta de uma forma diária e quotidiana”, recomendou.

E, continua, “mesmo quando há uma sinalização, a não ser que no momento esteja a acontecer algo muito grave e que haja uma retirada da criança, de emergência, a situação tem de ser avaliada e os técnicos não têm uma bola de cristal que lhes permite ver o que está a acontecer e o que virá a acontecer num futuro próximo”.

Por isso, defende, o envolvimento de todas as pessoas e de toda a comunidade é fundamental para que possa haver uma verdadeira e uma boa proteção à infância e às crianças.

“Começa em cada um de nós e é importante que cada pessoa possa olhar pelas nossas crianças e não só um sistema já de segunda linha, como uma comissão, que também tem o seu papel, tem outras ferramentas para avaliar, mas não tem o quotidiano, o dia-a-dia onde vários indícios podem surgir”, enfatiza.

Questionada sobre as dificuldades sentidas na Mimar, Teresa Avilez, gestora familiar na associação, lança a pergunta: ”Sabe quantas pessoas existem no distrito de Lisboa inscritas e disponíveis para acolher temporariamente uma criança na sua família? Zero …”.

“Enquanto parte de uma equipa técnica de um centro de acolhimento, uma das dificuldades que sentimos é quando estamos a pensar, juntamente com os tribunais e as comissões, sobre os projetos de vida das crianças que acolhemos, que a resposta que mais vai ao encontro do superior interesse da criança não seria nem a reunificação familiar, nem a adoção plena”, afirma.

Em causa, sustenta a jurista, está uma resposta que não implique um corte com a família de origem, mas sim uma resposta no meio, entre aquelas duas situações.

“A lei prevê essas respostas, mas aquilo que sentimos é que quando damos um parecer no sentido da adoção restrita ou do apadrinhamento civil, não conseguimos concretizar estas respostas”, explica.

“Custa-nos muito pensar que não tenhamos pessoas solidárias, que não se candidatem a uma situação destas e o que depois vemos é que há muitas pessoas a acolher informalmente crianças e a dar essa ajuda às famílias que precisam”, realça Teresa Avilez.

“Não acredito, o povo português até é tido por ser solidário, portanto choca-me muito que existam zero candidatos a uma adoção restrita ou zero candidatos a um apadrinhamento civil ou candidatos ao acolhimento familiar, que é outra medida de proteção”, lamenta a gestora familiar na Mimar.