A perda gestacional, súbita e imprevista, pode acontecer no útero antes de atingidas as vinte semanas de gestação (aborto espontâneo), ou suceder, após as vinte semanas de gestação, ainda no útero, ou durante o parto (morte fetal). Por conseguinte, é exigido aos pais uma quebra violenta e inesperada de uma ligação emocional que tinha vindo a ser construída durante todo o período de gestação.

Segundo a ciência psicológica, a relação com o filho começa a ser construída a partir do momento em que é reconhecida a gestação e não apenas aquando do nascimento do descendente. E, por isso, quando este vínculo é rompido, inicia-se um processo de luto e enorme sofrimento.

Neste sentido, por acréscimo ao estigma social que acentua os sentimentos de invalidação, incompreensão e o recurso ao isolamento social dos pais, o luto gestacional encontra-se também associado a um conjunto de perdas secundárias. Tomem-se como exemplos, a perda de uma gravidez que se esperava normal, da identidade social de “figura parental”, da autoestima, da oportunidade de exercer a parentalidade, do sentimento de segurança e controlo em relação à vida, assim como das expectativas de continuidade geracional. Há sonhos e projetos que, pelo menos naquele momento, ficam pelo caminho.

Ao longo dos anos, o principal debate associado à perda gestacional concerne para a seguinte questão: devem os pais estar em contacto com o bebé?

Em primeiro, é importante recordar que reação dos pais à perda é complexa e, por isso, enquanto alguns pais decidem estar com o bebé, como um momento de despedida, outros abandonam o hospital, sem qualquer contacto com o descendente, numa tentativa de evitar o sofrimento.

Desta forma, o primeiro passo corresponde a questionar os pais, dando-lhes o tempo, o espaço e a privacidade possíveis, para tomarem uma decisão conjunta acerca de como desejam vivenciar esta experiência. Ainda assim, apesar da decisão ser sensível e exclusiva à vontade dos pais, a investigação demonstra que é importante encorajar os pais a estar com o filho, com o objetivo de prevenir sentimentos de arrependimento, que poderão dificultar o processo de luto.

A literatura da especialidade tem vindo a identificar alguns princípios para um processo de luto gestacional mais pleno, como por exemplo ver, tocar e segurar o bebé; dar-lhe banho; tirar fotografias; e atribuir-lhe um nome, para que este tenha uma identidade. Estas práticas ajudam na criação de memórias, oferecem conforto, facilitam a expressão precoce do sofrimento e podem ser uma oportunidade para reforçar a veracidade do nascimento e da morte.

Em poucas palavras, pode ser importante que os pais olhem para o bebé como uma pessoa real, um membro da família que nasceu e morreu. Ainda que dolorosa, esta pode ser a única oportunidade de os pais contactarem com o descendente e alcançarem uma experiência de contacto real com a perda, facilitando o reconhecimento da realidade da morte. Sem esta experiência de contacto com o bebé e a morte, os pais enfrentam um “não-acontecimento”.

Porém, como referido anteriormente, a decisão final é sempre aquela que for tomada e transmitida pelos pais, sendo esse processo determinante para a forma como a experiência será integrada. Existem estudos que revelam que inexistência de contacto entre as mães e os bebés encontra-se associada a níveis inferiores de depressão, ansiedade e stress pós-traumático. Para algumas mães, a decisão mais benéfica para o bem-estar corresponde à inexistência de contacto com o descendente. Mas, mais uma vez, é uma decisão que deve ser questionada e ponderada para que os pais se sintam seguros acerca da mesma.

Esta perda, permeada de estigma e preconceito, integra uma tendência para que os rituais do luto estejam ausentes, ou que não seja é providenciado apoio emocional aos pais durante os rituais fúnebres ou na própria tomada de decisão acerca dos mesmos. Pelo contrário, rituais como o funeral tendem a ser alvo de críticas, constrangimento e incompreensão (por exemplo, “ainda nem era um bebé, finge que não aconteceu nada e tenta engravidar novamente”).

Neste sentido, deve também ser concedida a oportunidade aos pais de realizarem rituais, como o funeral. A psicologia do luto tem vindo a evidenciar a importância dos rituais fúnebres, enquanto facilitadores do processo de aceitação da perda e gestão do sofrimento. Estes permitem que exista uma despedida e que a família seja respeitada como uma família em luto.

Em Portugal, a possibilidade de realizar o funeral realiza-se, apenas, nos casos de nados-mortos que já tenham atingido a vigésima quarta semana de gestação. Desta forma, na impossibilidade do funeral, devem ser discutidos outros rituais com significado para os pais. Por exemplo, plantar uma árvore ou criar um livro de memórias e fotografias.

É imprescindível que o processo de luto gestacional seja reconhecido e respeitado pela sociedade, enquanto elemento facilitador dos pedidos de ajuda psicológica por parte destes pais que se encontram num sofrimento significativo, mas vivido, muitas vezes, em silêncio.

As explicações são de Sofia Gabriel e Mauro Paulino, da MIND | Instituto de Psicologia Clínica e Forense.

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