À parte de toda a questão idealista - que devemos focar-nos no essencial e que esta pandemia nos vai ensinar a amar mais as nossas crianças - este distanciamento social tem um peso. Que possa servir para refletir as necessidades de manutenção de alguns trabalhos, que podem ser flexibilizados e mantidos longe da cultura retrógrada de presentismo patente na realidade portuguesa, estamos todos de acordo. O que interessa é que o trabalho esteja feito, não necessariamente que o chefe nos veja a sair todos os dias muito tarde... Mas, longe de querer romantizar esta situação, passo a alertar para a sobrecarga que isto significa.

A soma dos papéis e a flexibilização, sem o auxílio das escolas, vai rapidamente sobrecarregar todos os pais.

Daí querer falar de burnout parental, porque, sinceramente, numa fase de isolamento sem fim à vista, acredito que esteja muita gente a ficar cansada. A sentir que este esforço de flexibilização já está a acusar algum impacto. Não há nada de errado nisso. Ser mãe ou pai é mesmo um trabalho de 24 horas por dia, 7 dias por semana. Cansa.

A palavra burnout, sendo um anglicismo, traduz-se para português como esgotamento. E a palavra esgotamento, frequentemente, é usada para descrever uma panóplia de situações psicológicas que vão da ansiedade à depressão.

No caso do burnout, a beleza da origem da palavra prende-se com a ideia de combustão: algo que arde até que deixa de puder arder porque se esgotou o combustível. É uma explicação perfeitamente gráfica e precisa.

Começou-se a falar de burnout nos Estados Unidos nos anos 70, sobretudo no contexto profissional. Apenas em 2015, um grupo de investigadores do Instituto para a Investigação de Ciências Psicológicas da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, iniciou uma investigação sobre o assunto, aplicando o conceito de burnout aos pais de filhos saudáveis. Esta investigação deu frutos com publicações em 2017 e 2018 e muito ainda está por descobrir.

Assim sendo, em que consiste o burnout parental?

Como o burnout profissional compreende 3 vetores de avaliação: O primeiro prende-se com a exaustão, física e emocional. Os pais referem um cansaço irrecuperável que advém exclusivamente das suas responsabilidade parentais. O segundo vetor, o do afastamento emocional, avalia uma mecanização das ações dos pais: continuando a providenciar cuidados aos seus filhos (banhos, rotinas, alimentação), parecem no entanto, estar menos envolvidos emocionalmente. E por fim, a sensação de perda de eficácia: o papel de pai está mais difícil, é mais pesado e mais custoso.

Nesta forma dedutiva (deduzindo o burnout parental do burnout profissional) há no entanto outras dimensões igualmente relevantes que se perdem. São as dimensões de descontinuidade (os pais sentem que não foram sempre assim, que este quadro de exaustão se foi instalando e os distancia dos pais que foram) e o sentimento de estar farto (particularmente relevante, porque frequentemente desencadeia mecanismos de fuga episódica ou permamente).

Do ponto de vista formal, o diagnóstico de burnout parental só poderá ser estabelecido após os 18 meses de idade dos filhos, para não se confundir com outro diagnóstico muito particular que é a depressão pós-parto.

Qual a prevalência estimada de burnout parental?

Estima-se uma prevalência entre os 8 e os 14%. Numa situação como a atual, em que os pais se vêm a braços com o teletrabalho e os filhos em casa, em isolamento, sem escapatória, esta prevalência não está obviamente estudada. Considero que provavelmente será mais elevada.

Que fatores de risco podem determinar a burnout parental?

Estranhamente os factores sociodemográficos mais comuns não parecem ter influência. Claro que existe uma prevalência maior de burnout nas mães, mas isso deve-se sobretudo ao facto de serem as mães as gestoras do projeto familiar e ser sobre elas que recai a maior parte da responsabilidade de cuidar dos filhos. No entanto, nas famílias onde esta função recai sobre o pai, a prevalência de burnout é igual. Ou seja, não é algo específico de um género, mas específico de uma função.

Outra questão muito relevante, não existe uma idade específica dos pais, nem um número de filhos a partir do qual o burnout se torna mais provável: no entanto, o que parece ser uma achado consistente é que é mais frequente nos pais com filhos com menos de 5 anos. (Esta questão é particularmente relevante para a instituição de medidas macrossistémicas de protecção dos agregados familiares com filhos abaixo desta idade).

Quanto à organização familiar: existem achados extraordinários...Seria de esperar que as famílias monoparentais fossem mais susceptíveis ao burnout, no entanto isto não parece ser o caso. Se a família monoparental for uma escolha, isso é um factor protector. Se a família monoparental for circunstancial, por divórcio ou morte de um dos pais, aí sim, o risco de burnout acentua-se. Ainda assim, o burnout nas famílias mais tradicionais pode também ter a sua origem na assimetria dos papeis: com um progenitor a ser o gestor do projecto parental e o outro progenitor sem igual responsabilidade ou quando os progenitores/ cuidadores têm visões muito diferentes e conflituosas da parentalidade. Isto pode ser muito relevante no cenário atual de pandemia, em casais em que um dos elementos faça parte do grupo profissional considerado essencial e o outro elemento do casal fica com as crianças 100% a seu cargo, podendo ou não ter cumulativamente, que desempenhar o seu trabalho remotamente. Isto é caótico e coloca as famílias à beira de um ataque de nervos.

Quanto à conciliação entre papel parental e papel profissional: o burnout parental é mais frequente nos pais que trabalham em part-time, ou não trabalham, quando comparados com os pais que trabalham a tempo inteiro. Isto parece ser um contra-senso: mas os pais que trabalham a tempo inteiro acabam por ter que ter ajuda contratada para cuidar dos filhos, como são as creches/ jardins de infância/escolas e ATLs. Num cenário em que esta ajuda se desvaneceu, todas as famílias estão em maior risco de burnout.

E quais são as consequências do burnout parental?

Do ponto de vista individual, temos um pai ou uma mãe em profundo sofrimento, que se sente incapaz de cumprir o papel que se imaginou a cumprir, que se sente insuficiência e como tal com um sentimento de culpa que ultrapassa a culpa em si: são pais envergonhados de si próprios por não conseguirem fazer o que tinham idealizado.

Do ponto de vista do sistema familiar, o burnout parental aumenta o risco de divórcio. É um conhecido mecanismo de fuga. Os pais sentem-se tão desorientados que já preferem qualquer mudança, mesmo que isso implique desistir daquele projeto de família. Aumenta igualmente o risco de consumo de substâncias (pouco falado, mas relevante, aquele copo que se bebe em frente da TV, no fim do dia, para descontrair), os comportamentos aditivos e em alguns casos, a ideação de fuga ou mesmo de suicídio.

Em relação às crianças, o burnout parental coloca-as em risco de negligência ou violência. No entanto, carecemos de estudos a médio, longo prazo para caracterização real destas circunstâncias. O burnout parental está a começar a ser descrito como entidade independente nos últimos dois anos e é difícil estabelecer para já as suas consequências no desenvolvimento e crescimento das crianças.

O que podemos fazer?

De facto torna-se evidente que, na situação atual, os pais em casa são realmente um grupo de risco para burnout. E este risco é maior quanto mais se multiplicam as exigências extras: aulas virtuais, trabalhos de casa, videoconferências com amigos, trabalhos estimulantes, grupos de leitura, teatrinhos online, hora do conto via skype, discussão dos trabalhos de matemática em grupo no WhatsApp... Tudo uma miríade de atividades destinadas ao bem-estar e conhecimento das crianças. Mas quem é que assegura isto tudo? Os pais? Que para além de tudo o que têm que fazer em casa, mantêm o seu trabalho habitual e são agora também tutores dos filhos. Tudo junto?

E se tentássemos simplificar? Acham que vamos aguentar semanas atrás de semanas neste ritmo de compensação das aulas? Se calhar, na mesma medida em que já separámos as profissões em essenciais e acessórias, também temos que separar as atividades e solicitações das vidas das nossas crianças.

Porque sinceramente, no momento atual, menos é seguramente mais.

Um artigo da médica pediatra Joana Martins.

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