Agora que é suposto estarmos todos por casa, temos como principal objetivo tentar travar a transmissão viral. Se a maioria de nós até está em casa e sente-se perfeitamente normal, longe do nariz entupido, tosse e febre preconizados pelo coronavírus, alguns de nós estaremos efetivamente em quarentena ou em isolamento.

É o caso das pessoas com infeção do novo coronavírus confirmada, mas sem gravidade para permanecerem hospitalizadas e é o caso das pessoas com síndrome gripal, que face à situação atual de pandemia em fase de mitigação, são necessariamente suspeitas de infeção por COVID 19. Sim, porque a partir de certa altura não é possível testar toda a gente e teremos que assumir que se trata da infeção pelo vírus SARS-CoV-2.

E aqui é que começa o problema: pais em casa com as crianças, mães a amamentar, crianças com os avós, famílias com animais de estimação. As combinações possíveis são muitas, por isso mesmo gostaria de abordar convosco algumas medidas de contenção de transmissão no contexto domiciliário.

Não nos podemos esquecer que as medidas-chave são aquelas que já todos conhecemos: etiqueta respiratória, com tosse e espirros para a dobra do cotovelo ou para um lenço descartável, não mexer na cara, nem no nariz, nem nos olhos, lavar as mãos com água e sabão durante 20 segundos ou, caso não esteja disponível nem água nem sabão, optar por uma solução alcoólica com mais de 60º.

Vamos por partes.


1. Pessoa com sintomas em casa, com suspeita ou confirmação de COVID 19

A pessoa infetada deverá permanecer numa divisão à parte da restante família/ co-habitantes. Esta divisão deverá ser arejada regularmente – janela ou ar condicionado. Idealmente – se for possível -deverá dispor de uma casa de banho própria para uso individual.

Nos momentos em que tenha que estar na presença de outras pessoas, deverá usar sempre máscara cirúrgica sobre a face. Não deverá partilhar utensílios da casa, como talheres, pratos ou copos, já que a saliva é uma forma de contágio.

A roupa pessoal, lençóis e toalhas deverão ser lavadas individualmente, na temperatura máxima possível. Idealmente escolher roupas de algodão para sustentarem lavagens acima dos 40 °C.

As bancadas, lavatórios, puxadores das portas e das janelas são locais de contaminação frequente. É recomendada a sua higienização diária com solução de limpeza. Idealmente deverá ser utilizado um produto de desinfeção especializado ou a boa e velha lixívia (agora existem formulações em spray que ajudam nestes procedimentos).

Na presença de animais domésticos, a pessoa infetada ou suspeita de infeção não pode cuidar deles: deve evitar festas e lambidelas, especialmente na face e mãos e não poderá ser a pessoa responsável por passeios diários, nem pela disposição de alimentos.

Isto porquê? Porque embora saibamos que não são os animais domésticos portugueses a origem do contacto, sabemos que o coronavírus transmite-se entre humanos e animais. Lembram-se como tudo começou? Foram os morcegos com coronavírus que infetaram animais (não sabemos quais ao certo) dispostos para venda no mercado de Wuhan. Não queremos criar reservatórios de coronavírus nos nossos animais domésticos, certo?


2. Pessoa sintomática encontra-se a amamentar

Quer os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos quer a Academia Americana de Ginecologia e Obstetrícia admitem não conseguir excluir se o COVID-19 se transmite através do leite materno. Os resultados de estudos pequenos já realizados apoiam que essa não será a via de transmissão.

No entanto, o risco real prende-se pela proximidade exigida pela amamentação. Isto tem implicações práticas, pelo que as mães que cuidam de bebés amamentados e que têm sintomas ou são suspeitas de infeção por COVID-19 devem prestar cuidados aos seus bebés sempre depois de lavar as mãos e com uso de máscara facial.

Até ao momento NENHUMA recomendação aponta para a necessidade de suspensão da amamentação. Se a mãe estiver a tirar o leite com recurso a bomba, terá que ter exatamente os mesmos cuidados: a extração do leite deverá decorrer após lavagem das mãos, sob o uso de máscara.


3. Ninguém sintomático em casa, mas trabalhador dito “essencial” ou qualquer pessoa, sem sintomas, depois de sair de casa por necessidade

(Não estamos a falar de profissionais de saúde)

Deve ser delimitada uma área da casa, junto da entrada (uso de fita cola colorida no chão, por exemplo), para delimitar a área de contacto com roupa e sapatos do exterior. Nunca foi tão imperativa a circulação dentro de casa sem os sapatos da rua.

Assim, na área da entrada devem constar: cabide para roupas exteriores, mochilas e malas, prateleira para sapatos do exterior (evitem alternar muitos calçados diferentes...Uma seca para o estilo, mas absolutamente necessário), balde com tampa e pedal, revestido interiormente com saco plástico e solução alcoólica (idealmente a vossa área de entrada teria acesso a uma casa de banho, mas isso não acontece na maioria das casas).

Assim que chegam a casa, dispam os casacos e disponham deles na “área contaminada”  - não, não os coloquem dentro dos armários da roupa limpa.

Se saiem para o exterior de máscara – não está de todo recomendado, mas vejo um número crescente de portugueses a usar máscara - é fundamental que, antes de tirar a máscara, desinfetem as mãos. Depois de removida, sem tocar na máscara em si, mas apenas nos atilhos, a máscara terá que ser colocada dentro do balde com tampa e as mãos desinfetadas novamente.

Só depois deste momento deverão descalçar-se e mudar de imediato para o calçado de casa (vulgo chinelos e pantufas), que já estará fora da linha que delimita a área contaminada. Depois desta mudança, tornem a desinfetar as mãos.

Agora que já revimos os procedimentos básicos de segurança e descontaminação, vamos dedicar-nos a dois assuntos: os telemóveis e o uso correto de máscaras faciais.

Os telemóveis

Dificilmente teremos item mais contaminante do que este. Está permanentemente nas nossas mãos, deixamo-lo nas mais diferentes superfícies e, para melhorar ainda mais o cenário: colocamo-lo na cara, junto à boca, para falar! Ótimo para a transmissão, não é?

Primeiro que tudo vamos remover as capas protectoras do telemóvel que não são passíveis de ser desinfectadas com álcool, lixívia ou outra solução desinfetante. Capas de peluche, por exemplo, ou madeira, não serão as melhores alternativas neste momento.

Múltiplas vezes ao dia – dependendo do vosso nível de utilização do telemóvel - terão que fazer um esforço de desinfeção. Idealmente deverão desinfetar o vosso telemóvel, bem como a capa, com recurso a álcool a 70º. Antes e depois de procederam à desinfeção, têm que lavar muito bem as vossas mãos.

Outra recomendação é evitar mostrar fotos no telemóvel, passando o telemóvel de mão em mão. Enviem mensagens ou por bluetooth. Se puderem optar, escolham atender as chamadas através do auricular. É uma forma simples de afastarem o telemóvel da face.

As máscaras

Há todo um capítulo de informação dedicado às máscaras. A maioria das máscaras, aquelas de forma retangular com atilhos ou elásticos para colocar atrás das orelhas são máscaras cirúrgicas e servem única e exclusivamente para diminuir a propagação viral por gotículas grosseiras (vulgo gafanhotos ou perdigotos) e para impedir a propagação das pessoas infetadas para as pessoas saudáveis.

As máscaras cirúrgicas têm habitualmente três camadas: interna e externa de material plastificado, como o propiletileno e uma camada central para absorção de humidade. Em nenhum caso são comparáveis com máscaras de papel ou máscaras de tecido feitas em casa, cujas instruções de realização circulam um pouco por todo o lado.

E não, as máscaras cirúrgicas não protegem a contaminação de quem está perfeitamente saudável. Não, não filtram nem purificam o ar. Para isso temos outro tipo de máscaras cuja comercialização não é tão disseminada. É o caso das máscaras com respiradores PFF2 e PFF3.

E isto é importante perceber: o vírus SARS-CoV-2 tem dupla propagação. Propaga-se por gotículas (daí a importancia da lavagem das mãos, proteção dos espirros e tosse, e a pequena vantagem isolada do uso de máscara cirúrgica) mas também se propaga por aerossol e nesse capítulo, as máscaras cirúrgicas não servem rigorosamente para nada.

Com o início da corrida às máscaras cirúrgicas – porque se vendem um pouco por todo o lado e são efetivamente baratas e simples de usar, começamos logo a ver múltiplos casos de utilização indevida. E a utilização indevida das máscaras tem uma consequência evidente: as máscaras não estão lá a fazer nada. Máscara mal colocada não serve rigorosamente ninguém: nem contém quem transmite doença, nem protege minimamente, quem não tem. É pior até do que não usar máscara, porque é um elemento estranho na face levando as pessoas a mexerem frequentemente na máscara e assim contaminarem mais as mãos.

Antes de colocar a máscara deverá lavar muito bem as mãos. A máscara deverá ser colocada com a superfície colorida para fora ou, caso não haja distinção de cores, com as dobras de tecido para fora e a apontar para baixo. Deve ser adequada ao tamanho da face: não faz sentido colocar máscaras de adulto nas crianças.

O primeiro atilho a ser atado é o de cima, e deverá ser atado junto à coroa da cabeça (a porção mais elevada e redonda da caixa craniana). O segundo atilho será o inferior, a ser atado em torno do pescoço de forma a cingir a máscara à face. A superfície da máscara deverá tapar nariz, boca e queixo. Só depois de estarem os dois atilhos bem atados se deve proceder ao ajuste da máscara na pirâmide do nariz.

A máscara não deverá ser utilizada por períodos superiores a oito horas em contínuo e não pode ser retirada, guardada na mala e voltar a ser colocada (como tanta gente faz e que só serve para contaminar as mãos, a face e o conteúdo da mala).

Não se deve tocar no exterior da máscara, pelo que, uma vez o ajuste ao nariz feito, temos que nos cingir ao que temos, pelo risco de contaminação das mãos.

Quando queremos retirar a máscara, voltamos a lavar as mãos, desatamos primeiro o atilho de baixo, depois o atilho de cima e segurando sempre pelos atilhos, sem tocar na máscara, colocamos a máscara no lixo (idealmente com saco plástico e com tampa).

Resumindo

Não existem medidas maravilhosas, nem 100% seguras, mas existem meios de combate e diminuição dos riscos de transmissão. Dão trabalho e, para quem não está familiarizado, parecem de uma redundância enorme. No entanto a sua aplicação sistemática está associada à redução do contágio bem como à redução da carga infecciosa. E isso tem implicações na saúde de todos.

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