Neste artigo a pediatra Joana Martins explica que o problema do sono dos bebés e crianças tem um limiar muito variável e dependente de cada contexto familiar.

Quem assiste às preocupações das famílias atuais, percebe que existe uma preocupação crescente com o sono. E se há tema controverso, é este. Mas quando é que começam habitualmente as preocupações com o sono dos bebés? Sabemos que os bebés pequeninos, pela necessidade de se alimentarem em ritmo contínuo, independentemente de ser dia ou noite, têm um sono entrecortado. Claro que desencadeiam uma forte privação de sono nos pais, no entanto, tudo isto é percecionado com uma certa naturalidade.

No entanto, a partir das 8 semanas de vida começa a expectativa de que os bebés durmam toda a noite seguida. O impacto desta expectativa parece aumentar à medida que o bebé cresce, atingindo o seu apogeu em torno dos 6 meses de idade. É justamente o momento de transição para o sono autónomo num quarto independente dos pais. A maioria dos livros de puericultura e saúde infantil salienta a importância do condicionamento da aprendizagem, de se ser firme durante esta etapa.

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Os pediatras, neste momento, têm igualmente a sua palavra, ao sugerir que uma falência de transição nesta etapa desencadeará uma hecatombe aos 9 meses de idade. Os livros sobre métodos de treino de sono existem, proliferam como cogumelos e têm um incrível sucesso. Na mesma medida, a existência crescente de terapeutas do sono (cujas credenciais são difíceis, se não impossíveis, de validar) sublinha exatamente esta necessidade: queremos os nossos bebés a adormecer autonomamente, no seu quarto e queremos que este comportamento seja adquirido rápida e eficazmente, idealmente em torno dos 6 meses de idade. Para que fique claro, não sou apologista dos métodos de treino do sono. Cada vez mais a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda plasticidade na idade de saída do quarto dos pais, estendendo esta recomendação até aos 12 meses de idade. Por isso, não há formalmente pressa nenhuma em pôr uma criança a dormir sozinha e mal, quando dorme acompanhada e bem.

A maioria dos métodos de treino de sono assenta na extinção súbita ou gradual do efeito do choro e nenhum método deveria ser utilizado antes dos 4 a 6 meses de idade. O que devemos compreender é que as crianças choram porque procuram efetivamente uma resposta. Esta resposta poderá ser manipulativa, exigente e difícil para os pais. Claro que compreendemos isto. Mas será que os pais estarão preparados para deixar chorar? Estarão preparados para o peso desta decisão?

Lá porque a criança é pequena e não tem memória para o evento, não quer dizer que o treino de sono não deixe a sua marca. E sobretudo, tenhamos algum bom senso, ninguém, nem mesmo um adulto, deveria adormecer a chorar (esta frase é de uma autora que admiro muito, Constança Cordeiro Ferreira).

Há muita coisa que se pode e deve tentar fazer para ajudar uma criança e a sua família a procurar as suas soluções, sem necessariamente passar pelo condicionamento. Há rotinas de família que podem e devem ajustar-se, há estratégias para impedir que os pais tenham que tomar decisões drásticas às 3 da madrugada. Se ainda assim estiver disposto a iniciar um processo de treino formal do sono, gostaria de explicar os diferentes grupos de métodos existentes, qual o seu fundamento e o que é que, na prática, acontece.

Vamos deixar chorar?

Se o método contempla apenas e só deixar a criança no berço e sair do quarto, deixando-a chorar pelo tempo necessário para que ela se acalme sozinha e adormeça, então estamos a falar de um método de condicionamento por extinção. A criança não tornará a chorar porque desistiu na vinda de alguém. Este método de condicionamento por extinção não é recomendado. Nunca.

Se o método permite ir periodicamente junto da criança para confirmar se está tudo bem e tentar acalmá-la pela presença do adulto, sendo que os intervalos entre as visitas e os tempos das visitas vão sendo respetivamente maiores e mais pequenos, falamos de um método de extinção gradual, que caracteriza os métodos de Ferber e Estivill.

Os relatos de utilização dos métodos de extinção gradual apontam para cerca de dois ou três dias até a criança se habituar a adormecer sozinha e deixar de chorar, no entanto, o que vem descrito do ponto de vista da eficácia destes métodos é que levam entre 3 a 4 semanas até ter resultados.

O método da cadeira ou “camping out” é outra possibilidade: o bebé é colocado no berço e o cuidador fica na proximidade, presencialmente, sentado numa cadeira. Quando o bebé chora, pode consolá-lo com a voz, com uma cantiga, até com o toque, mas não deve retirá-lo do berço. À medida que o tempo passa, a criança acaba por se habituar à presença simples do cuidador, tornando possível o afastamento progressivo da cadeira onde o cuidador se encontra, até conseguir sair do quarto. Este método é considerado bastante difícil, já que o cuidador tem que presenciar o choro da criança, o tempo todo, sem ser possível recuar. Porque cada vez que ceder ao choro da criança, só vai reforçar a ansiedade de separação.

Quer os métodos de extinção gradual, quer o método da cadeira, são frequentemente citados e estudados de forma a perceber se terão, ou não, algum impacto no desenvolvimento da criança no futuro.

Os estudos realizados (que são poucos e com metodologias pouco sérias) parecem não mostrar nenhuma alteração cognitiva, emocional ou de vinculação passados seis anos da ocorrência do treino do sono (levantando a questão: e depois dos seis anos?).

O maior benefício destas abordagens parece ser a melhoria imediata do bem-estar dos cuidadores, com redução da privação de sono e melhoria dos sintomas depressivos. Este efeito benéfico nos cuidadores parece manter-se até dois anos depois da ocorrência do treino de sono (o que permite ter uma ideia do peso da privação de sono na função familiar). A Academia Americana de Pediatria não emitiu nenhum parecer desfavorável à utilização destes métodos para o treino de sono dos bebés.

Tendo em conta o atual conhecimento científico sobre o assunto, o problema do sono dos bebés e crianças tem um limiar muito variável e dependente de cada contexto familiar. Não podemos ignorar nem a pressão social para ter as crianças a dormirem sozinhas no quarto, nem o impacto da privação de sono nos pais e como tal, a ansiedade que este assunto desencadeia. Talvez a forma mais ponderada seja desaconselhar formalmente o treino de sono abaixo dos 4-6 meses de idade, tentar implementar no seio familiar as medidas comportamentais de reajustamento de rotinas e reservar a utilização de um método formal de treino de sono após discussão com o médico assistente.

Um artigo da médica Joana Martins, pediatra na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria no Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central.

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