Foi durante muitos anos uma das vozes mais ouvidas em Portugal. António Sala é ainda hoje muito acarinhado pelo povo português, com uma vasta carreira a comunicar aos microfones.

O seu percurso começou na rádio, que o levou ao pequeno ecrã. Um vasto currículo que foi recordado durante uma entrevista ao Notícias ao Minuto, a partir de sua casa, onde está resguardado da pandemia da Covid-19.

Com o ano de 2020 a começar com uma luta mundial, o locutor e apresentador não deixou de falar desta crise global, explicando que tem adotado todas as medidas necessárias para se proteger do novo coronavírus e evitar a propagação do mesmo.

Inevitavelmente, tenho de começar esta entrevista com o tema do momento, a pandemia da Covid-19. Como é que o António tem passado estes dias em quarentena?

Sempre em casa. Mantendo uma rotina diária de humilde ajuda às lides domésticas, vendo TV, ouvindo rádio, lendo informação em papel e no digital, tocando piano, escrevendo, telefonando aos amigos e trocando mensagens, dando entrevistas como esta, pondo em dia a leitura de livros como há muito pretendia fazer, e dando pequenos passeios no jardim, sempre que o tempo o permite.

Tem 71 anos o que significa que pertence a um grupo de risco. Quais os principais cuidados que tem adotado?

Todas as medidas sociais e de higiene que nos são indicadas. Não facilito em nada. Cumpro rigorosamente.

A maior parte das notícias é trágica e devastadora. Faz doer o coração. Estamos todos a viver momentos dramáticos

Como é que tem acompanhado todas as notícias sobre a pandemia? O que sente ao viver de perto este surto global?

A maior parte das notícias é trágica e devastadora. Faz doer o coração. Estamos todos a viver momentos dramáticos. Muitos de nós somos apenas espectadores do drama. Bem pior e muito trágico são os que pagam com a vida esta tragédia, e os seus familiares e amigos, assim como os que estão contagiados. Todos os dias rezo por essas pessoas espalhadas por todo o mundo. Pessoas que não conheço, mas que são nossos irmãos nesta terra que habitamos.

Já disse várias vezes que é uma pessoa de fé. A fé ajuda as pessoas, em momentos como este, a acreditar que tudo vai ficar bem?

A fé ajuda-me a crer que haverá futuro, que nada é por acaso e que há vida para lá de todo este cenário devastador. A fé "é o firme fundamento das coisas que não se veem, mas em que se crê".

Esta não é a primeira vez que o mundo é assombrado por uma pandemia. Aconteceu, por exemplo, quando apareceram os casos da gripe asiática, entre 1957 e 1958. Tem alguma memória desta ou de outras crises mundiais?

Conhecimento posterior sim, memória da altura não tenho nenhuma. Eu era muito novo, teria quando muito uns oito ou nove anos.

Tudo era menos elaborado, muito genuíno e a forma de comunicação mais pessoal e humanizada

Nasceu 'noutros tempos', no final dos anos 1940. Quais as principais brincadeiras que ocuparam a infância de António Sala? E quem foi a sua principal figura durante a juventude?

Tenho dificuldade em eleger a 'principal' figura durante a minha juventude, aliás seria injusto, mas foram os meus avós maternos e a minha mãe. As minhas brincadeiras favoritas eram tocar piano, ler, fazer teatro na escola, passear e brincar no campo.

Aos 10 anos começou a tocar piano e aos 13 anos chegou a sua primeira canção, 'A Sereia', e a letra desta música continua muito viva na sua memória. Em que se inspirou na criação desta música?

Nem sei bem! A fonte inspiradora tanto poderá ter sido o desejo de criar algo de original, como pode ter sido alguma 'ternura, platonicamente apaixonada' por uma professora muito bonita, mas que já tinha idade para ser minha mãe. Sei lá! Eram os 13 anos!

Desde cedo que se singrou no mundo das artes. Começou com o teatro radiofónico na adolescência. Como é que entrou neste meio?

Através do locutor e ator Nunes Forte, meu velho amigo e meu padrinho nessas andanças. Comecei na Rádio Graça numa radionovela histórica chamada 'O Milagre de Ourique', fazendo de pajem de D. Afonso Henriques e contracenando com o Octávio de Matos Jr. e o próprio Nunes Forte. Mas já trazia alguma experiência anterior dos festivos eventos escolares e mesmo de Teatro Amador.

A morte de Carlos Paião foi um dos dias mais tristes da minha vida

'Despertar' foi um programa de sucesso, que ocupou as manhãs da Rádio Renascença durante 20 anos, ao lado de Olga Cardoso. Quais os principais desafios que se viviam nessa altura, quando fazer rádio era completamente diferente e de uma forma mais 'manual'?

Não só mais manual, como também mais natural. Tudo era menos elaborado, muito genuíno e a forma de comunicação mais pessoal e humanizada. O grande desafio era conseguir chegar às pessoas duma forma verdadeira e amiga. Sermos nós próprios e não nos transformarmos num "produto" criado e orientado pelo marketing da comunicação. Foi muito isso e se calhar aí reside parte da explicação para o sucesso que foi.

No final dos anos 1980 lançou o LP 'Microfone', dedicado a Carlos Paião. O que recorda do dia em que soube da partida do artista, em 1988, e quais as melhores recordações passadas na companhia de Carlos Paião?

Foi dos dias mais tristes da minha vida. Ainda hoje me dói pensar nisso. O Carlos era um dos meus maiores e melhores amigos. Vivemos juntos momentos inesquecíveis. Em casa de um e em casa do outro, na rádio, na televisão, em estúdios, em discos, em palcos do país e no estrangeiro, escrevendo, cantando, falando, brincando. É o Amigo inesquecível. Além de ser um génio criativo das palavras e das músicas. Tenho sempre muitas saudades dele.

Para mim o estúdio tem o seu quê de 'sagrado'. É mesmo!

Pertenceu ao grupo Maranata, com mais de 20 discos, sendo o António o autor de vários êxitos da música portuguesa. Sente que o seu contributo para a música portuguesa continua a ser devidamente reconhecido?

Sinto-me feliz com o reconhecimento dado. Em alguns casos, e para ser totalmente franco, nem esperava tanto. Noutros casos, terá eventualmente ficado um pouco aquém das minhas expectativas. Mas, sinto-me contente com o resultado global desse trajeto. E agradeço aos artistas que tornaram tudo isso possível, bem como ao público que acarinhou essas criações.

Em 1984 lançou um livro de anedotas… de quem é que herdou o bom humor?

Do meu avô paterno Manolo Sala, do meu pai Arlindo Gomes e do meu tio Carlos Abreu, que eram pessoas super positivas, muito divertidas e cheias de bom humor. Passaram-me muito esse tipo de energia e filosofia sorridente de vida.

O talento da beleza é muito efémero, o talento dos outros talentos, fica para lá da nossa própria existência

Esteve também à frente de vários programas de televisão, mas nunca deixou a rádio de lado. "60% da minha paixão vai para a rádio", estas são palavras suas. O que sente quando está num estúdio de rádio? Como é que descreve este 'bichinho' da rádio?

Acho que é um pouco a sensação do ator quando está no palco. Ou do cirurgião quando entra no bloco operatório. Para mim o estúdio tem o seu quê de 'sagrado'. É mesmo!

"Hoje em dia passa-se um bocado o contrário. No meu caso a televisão foi-me buscar porque eu estava a resultar em rádio, mas nos últimos tempos acho que a televisão é que atira muita gente para a rádio", estas também são palavras suas ditas numa outra entrevista. Sente que isto acontece porque hoje em dia a aparência é uma mais-valia na comunicação?

Infelizmente, também vivemos dias da grande 'ditadura da aparência'. O aspeto tem de ser exteriormente 'magnífico', há alturas 'ideais', os sorrisos têm de ser plasticamente 'luminosos' e os corpos 'esbeltos'. Tudo isso poderá corresponder às necessidades de modelos profissionais e de competidores de concursos de beleza, mas não lhes garante que possam ser bons locutores, apresentadores e muito menos óptimos comunicadores. O talento da beleza é muito efémero, o talento dos outros talentos, fica para lá da nossa própria existência.

Tem-se mantido ativo no Facebook, onde vai assinalando várias datas marcantes e deixa algumas palavras de carinho aos seus fãs. Sentiu essa necessidade de aderir a este 'novo mundo'? As redes sociais são, hoje em dia, vitais para um artista?

Aderi inicialmente sem grande entusiasmo. Hoje em dia compreendo bem melhor o seu lado mais positivo. É muito importante para a nossa comunicação, e embora lhe reconheça as suas grandes potencialidades, não esqueço, e tento também ter sempre presente os seus lados mais negros e muito perversos.

O tempo, em tudo, é a coisa mais apaziguadora do sofrimento humano. Como o será também nas tragédias que estamos a viver nestes dias. Doloroso, mas o tempo encarrega-se de suavizar tudo

Conhecido como um homem muito carinhoso, de afetos, respeitador… quais os principais valores que recebeu dos seus mais próximos e que retém até aos dias de hoje?

Humanismo, respeito pelos outros, solidariedade, educação e bondade nas nossas vidas. Tentarmos sempre ser hoje um bocadinho melhores do que fomos ontem. Isso ajuda muito.

Já viu partir vários entes queridos e amigos. Como vive os primeiros dias de luto? O tempo reconforta a dor?

O nojo é o tempo do luto. E o tempo, em tudo, é a coisa mais apaziguadora do sofrimento humano. Como o será também nas tragédias que estamos a viver nestes dias. Doloroso, mas o tempo encarrega-se de suavizar tudo.

Feliz, sou. Totalmente realizado, não. Procuro no dia a dia alcançar a meta das minhas diferentes realizações

Enfrentou já várias batalhas - um problema no ouvido que o levou a ser operado nos EUA, depois, há 7 anos, foi diagnosticado com cancro do rim e mais recentemente, há cerca de dois anos, o cancro da próstata. Onde vai buscar força nestes momentos mais difíceis?

Em Deus, na minha família, nos serviços médicos e nos seus profissionais, e nos meus amigos.

Qual a memória mais alegre que tem em todos estes anos de vida?

O dia do nascimento do meu filho.

Casado há 49 anos com Elisabete, qual o segredo de um casamento duradouro?

Valorizar sempre muito mais os acontecimentos felizes e todas as muitas coisas fantásticas, como por exemplo o dia da resposta à sua pergunta anterior.

"Até morrer eu hei de estar presente nos Natais do meu filho, talvez porque eu só tive o meu pai presente numa noite de Natal". O que é que mais lhe faltou com a ausência do seu pai e que sempre fez questão de dar ao seu filho?

Faltou-me a sua companhia na infância e na juventude, mas recompensado posteriormente com muito amor e carinho. Nós, aos nossos filhos, tentamos sempre dar o melhor, e se possível tudo o que nos faltou. Ainda hoje luto para cumprir isso.

Hoje, aos 71 anos, António Sala é um homem feliz e realizado?

Feliz, sou. Totalmente realizado, não. Procuro no dia a dia alcançar a meta das minhas diferentes realizações. Se possível, e se Deus me ajudar, que seja assim até ao último dos meus dias.

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