A evolução dos dados do poder de compra concelhio ao longo da primeira década deste século aponta para uma redução das desigualdades e para uma convergência relativamente à média, mas os especialistas recomendam cautela na análise dos números.

Comparando os dados do indicador 'per capita' do Estudo sobre o Poder de Compra Concelhio do Instituto Nacional de Estatística (INE) de 2000 e 2009, a grande maioria dos concelhos aproximou-se da média nacional.

Em 305 concelhos (excluindo Odivelas, Trofa, e Vizela, que só foram criados depois de 2000), 275 aumentaram o seu indicador de poder de compra nesses nove anos. Entre os que caíram as maiores reduções foram nas cidades do Porto e de Lisboa.

Ora, Porto e Lisboa continuam a ter muito mais poder de compra que a média nacional; em 2009, Lisboa tinha o valor mais alto (232,5 por cento da média geral), e o Porto o terceiro mais alto (178,77 por cento). No entanto, no ano 2000, Lisboa estava nos 305,1 por cento; o Porto nos 238,8 por cento.

Sernancelhe, município que em 2009 estava ao fundo da lista com um poder de compra de 47,4 por cento da média nacional, estava também perto do último lugar no ano 2000 – mas nessa altura o seu indicador ‘per capita’ era apenas 33,9 por cento da média nacional.

Esta melhoria verifica-se com a maior parte dos concelhos no fundo da lista dos estudos do INE – que, mesmo mantendo-se entre os comparativamente mais “pobres”, viram o seu indicador ‘per capita’ subir relativamente à média nacional. Esta convergência é contudo mais pronunciada nos estudos do INE de 2002 e 2005 que nos relativos a 2007 e 2009.

E, para além disso, os técnicos do INE desaconselham comparações temporais a partir dos dados do estudo de poder de compra concelhio.

Os valores para cada ano podem “derivar de uma efetiva variação do poder de compra em relação à média nacional, mas podem também resultar do conjunto de variáveis de base utilizadas na construção dos indicadores não ser coincidente nas diferentes versões do estudo; de erros de medida nas variáveis de base, numa ou noutra versão do estudo, que não se repetiram de forma consistente no tempo; das alterações no sistema de medida”, lê-se na publicação do INE.

José Pires Manso, professor da Universidade da Beira Anterior, cujo Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social produziu dois estudos sobre a qualidade de vida nos concelhos, adverte igualmente que “os números têm de ser vistos com cautela.”

“Nada explica, por exemplo, que Lisboa perdesse tanto poder de compra”, diz Pires Manso.

“Fazendo uma análise ‘per capita’ pode acontecer que as pessoas das regiões mais desertificadas estejam a ter rendimentos maiores. O rendimento das regiões do interior mantém-se mais ou menos constante – mas estas regiões têm vindo a perder população. Ora, ao calcular o rendimento ‘per capita’, facilmente se percebe que haja um acréscimo, não porque haja acréscimo da riqueza do município mas porque a mesma quantidade é divida por um número menor de habitantes.”

Esse efeito demográfico também se regista nas estatísticas do emprego, acrescenta o académico: “Sou de um concelho do interior do país onde a taxa de desemprego é 4 por cento – mas isso não significa que haja lá poucos desempregados, quer dizer que não há lá empregos e que as pessoas estão a engrossar as fileiras do desemprego do Porto, de Lisboa ou do estrangeiro.”

21 de novembro de 2011

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