Era uma vez uma criança que vivia num mundo real. Esse mundo era diverso, muitas vezes complexo e incompreensível aos olhos do pequeno ser. Nesses territórios, habitavam criaturas com nomes estranhos. Nomes que a criança procurava compreender e que povoavam as conversas e imagens nos ecrãs de televisão, nos computadores, nos telemóveis e nas palavras dos adultos. Crise climática e ambiente, multiculturalidade, interculturalidade, igualdade de género, guerra, homossexualidade, discriminação etária, bullying, racismo e xenofobia, compunham uma enciclopédia que a criança procurava organizar. À medida que a criança crescia, estas palavras enroscavam-se como seres vivos e irrequietos no seu quotidiano.  Então, certo dia, a criança descobriu um território novo, o livro e, dentro deste, na relação entre letras, palavras e imagens (por vezes apenas as imagens), todo aquele léxico complexo começava a fazer sentido. Caminhos novos onde não podiam faltar os guias, porque na floresta das novas realidades também há atalhos, labirintos e dragões.

Alvo de seminários, palestras, encontros internacionais entre editores, autores, feiras e edição, o livro para a infância ganhou nas últimas décadas, também em Portugal e no pós-25 de Abril, novos contornos. Chamemos-lhes abordagens “difíceis”, “fraturantes”, “delicadas”. Realidades como as atrás expostas instalaram-se nas páginas dos livros para crianças e jovens. Sobre os mais novos há, agora, um novo olhar, como seres despertos e atentos à diversidade do mundo que os rodeia.

Como reação ou consequência deste novo olhar para a infância, o livro àquele público destinado ocupa atualmente um lugar de destaque nas livrarias onde, a par, das salas e escaparates para a literatura adulta, encontramos a congénere destinada aos mais jovens. Um universo na publicação que dinamizou a obra de escritores e ilustradores, catálogos de grandes editoras, mas que também favoreceu o aparecimento de inúmeras pequenas editoras. Uma constelação que, em língua portuguesa, junta, entre outras casas, a Kalandraka (sediada na Galiza), Tcharan, Planeta Tangerina, Gato na Lua, Bags of Books, Gatafunho, Pato Lógico, Orfeu Negro, Edições Eterogémeas, Bichinho do Conto, Lobobom, Edita X, Akiara (sediada em Barcelona).

Edição que não se faz à margem da relação entre dois destinatários, as crianças e os adultos, estes últimos como mediadores entre os novos caminhos desbravados nas obras e as vivências da criança.

Para melhor compreendermos esta edição livreira de olhos postos na diversidade de abordagens, percorremos as palavras de especialistas em diferentes áreas, mas também editoras e uma leitora atenta.

crianças a ler
créditos: Pixabay

Ângela Balça

Professora no Departamento de Pedagogia e Educação da Universidade de Évora

“Também na literatura para a infância a possibilidade de publicar em liberdade foi fundamental”

Questões como a salvaguarda do ambiente, a política, a multiculturalidade, a guerra, entre outros, não são conteúdos exclusivos do atual panorama editorial, antes transversais a décadas anteriores, dependentes dos contextos históricos, sociais, geográficos em que se inserem. Ângela Balça, Professora no Departamento de Pedagogia e Educação da Universidade de Évora e autora do ensaio Literatura infantil portuguesa – de temas emergentes a temas consolidados (2008, disponível aqui), remete-nos para 1974, ano da Revolução de Abril. Um “marco” também na literatura para as crianças e jovens. “Um facto que também afetou muito a literatura para a infância, quando se dá a abolição da Censura. Se pensarmos em autores ainda hoje muito lidos em Portugal, como a Luísa Ducla Soares, António Torrado, Matilde Rosa Araújo, Luísa Dacosta, Maria Alberta Menéres, estes começaram a publicar antes de 1974, vendo algumas das suas obras para crianças censuradas”, sublinha a investigadora, acrescentando que “por exemplo, recordo que Luísa Ducla Soares chegou a recusar prémios literários por vivermos em ditadura e ter obras censuradas”.

“Com o fim da censura há um movimento editorial ao qual não é estranha a literatura para a infância que, até à década de 1980, não teria, genericamente, qualidade em termos literários. Com os anos 80 do século passado, dá-se um boom enorme na publicação para a infância. A possibilidade de publicar em liberdade foi fundamental”.

A importância da ilustração na literatura para a infância

Diz-nos a professora universitária Ângela Balça: “na enorme evolução da literatura para a infância há que realçar o papel da ilustração, atualmente fundamental, ao ponto de termos livros só com ilustração. Facto que torna mais difícil trabalhar estes livros, pois na escola portuguesa ainda estamos muito formatados para o texto e menos para a ilustração. Para tal, há que encontrar mediadores que estejam preparados para o trabalho com a imagem. Isto, porque não há essa educação estética.

No currículo da escola pública portuguesa, as questões da educação visual, assim como artística, foram relegadas para um terceiro plano, face a um currículo obcecado pelo português e matemática, pondo num segundo plano as ciências experimentais e a história e, finalmente, as questões artísticas. Há uma assustadora iliteracia visual dos professores e das crianças”.

Angela Balça que a par da Universidade de Évora, trabalha no Centro de Investigação em Estudos da Criança da Universidade do Minho, acrescenta ao fim da censura em Portugal outras dimensões para o aparecimento de um novo mercado de livros para as crianças e jovens: “o alargamento da escolaridade obrigatória e uma maior aposta nas bibliotecas escolares criou a necessidade de publicar mais obras para a infância. Com o Ano Internacional da Criança, em 1979, também se olhou para esta etapa de outra forma. Ainda neste contexto, não podemos esquecer a instituição do Plano Nacional de Leitura. Em suma, hoje, se formos a uma boa livraria encontramos duas salas, uma para os adultos, outra para a infância”.

Ainda no que respeita ao nosso passado recente, sublinha a professora universitária que “a abertura do país permitiu não só a vinda de portugueses que viviam no exílio, como também um contacto mais profícuo e profundo com outras realidades. Se analisarmos o mercado editorial da época, muitas das obras que nos chegam são traduções. Só no início dos anos de 1980 começamos a ter uma produção nacional mais robusta, embora sempre a par com a tradução de autores anglo-saxónicos. Mais tarde temos a abertura a outras literaturas”.

Professora Ângela Balça
Professora Ângela Balça

Sobre esta nova galáxia de temas no universo infantil e juvenil, a mesma autora sublinha, no trabalho já aqui citado, que “o surgimento de novos temas, emergentes nos anos de 1970, não são apenas uma tendência da literatura infantil portuguesa. Assim, em França, Jan (1985) afirma que a literatura infantil contemporânea deve informar e integrar, a vida de todos os dias deve estar presente nela e ler-se claramente. Em Espanha, Bravo-Villasante (1989) considera como novíssimas correntes temáticas, na literatura infantil, a ecologia, o problema da discriminação, a droga, os problemas sociais e políticos, a sexualidade, e os conflitos entre gerações”.

Não obstante a existência de prémios literários anteriores a 1974, “os que surgem no pós-25 de Abril são muito importantes como incentivo. Recordo também o papel da Fundação Calouste Gulbenkian, que numa associação com o Instituto de Apoio à Criança, teve uma importância fundamental no desenvolvimento da literatura para a infância e juventude”.

O alargamento da escolaridade obrigatória e uma maior aposta nas bibliotecas escolares criou a necessidade de publicar mais obras para a infância

Na inauguração deste novo mundo na escrita, mas também na ilustração (ver caixa), não foi alheio o interesse de quem publica, como nos recorda a professora: “a realidade que se abriu também nos revela algo interessante no campo comercial. As editoras descobriram que a literatura para a infância vende, que os pais compram, assim como os professores”.

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“A partir do ano 2000, nascem uma série de editoras independentes, mais pequenas, que trazem outros autores, outros ilustradores, realidades. Atrevem-se a publicar e a tocar em temas mais fraturantes. Só temos, talvez, um problema em relação a estas editoras de menor dimensão: deparam-se com a dificuldade de chegar a grandes livrarias, onde têm pouca representação. Terá de procurar essas obras na rede de livrarias independentes do nosso país”, sublinha Ângela Balça.

Ainda sobre a pertinência dos temas fraturantes e a sua entrada na porta grande da literatura para a infância e juventude, territórios por tradição associados a uma certa inocência, diz-nos a investigadora: “costumamos dizer que os textos de literatura para a infância não são inócuos, porque sob a capa de candura, acabam por introduzir, ou no texto ou nas ilustrações que o acompanham, temáticas que podem ser consideradas ou mais problemáticas ou mais fraturantes”. Ainda a propósito destes temas, de acordo com a docente, “podem não ser, de acordo com o público adulto, tão apropriadas para as crianças, mas elas efetivamente são recetoras daquela mensagem. Se tivermos um mediador informado estas mensagens podem chegar às crianças. A literatura para a infância tem uma função estética e lúdica fundamental, mas também ali reside uma função formativa”.

criança a ler
créditos: Johnny McClung/Unsplash

Sobre o papel do mediador, o adulto, seja o familiar, educador, bibliotecário, que interage com a criança na leitura/análise de temas “difíceis”, Ângela Balça realça que os livros ditos e tidos para a infância assentam na figura do duplo leitor, ou seja, a criança e o adulto. “A primeira não tem autonomia para a compra e, por vezes, nem para a escolha. Isto é algo que criticamos muitíssimo. A criança deve ter toda a liberdade de escolha. O adulto mediador deve dar-lhe essa liberdade, mas claro que tem um papel basilar. Uma boa obra de literatura para a infância terá duplas interpretações, algumas para as crianças e outras para os adultos”.

“Quero acreditar que todos os educadores de infância, professores e professores bibliotecários são leitores e têm uma forte cultura literária para aproximar estas obras das crianças. Na família, isso nem sempre acontece, o que não quer dizer que não seja atenta, não procure informar-se e formar-se. Pode não ter tido uma educação literária de infância, até porque no nosso país a cultura literária é recente. Se pensarmos nas nossas taxas de analfabetismo à entrada da democracia eram assustadoras. O que é preciso é que estes mediadores tenham esta sensibilidade e queiram cooperar na formação das suas crianças”.

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Entre os novos temas que a investigadora identifica na literatura endereçada aos mais jovens, há a sublinhar a guerra e as migrações. “Dois temas pouco abordados anteriormente. Atualmente e neste âmbito há todo um conjunto de obras tocantes. Também temáticas relacionadas com as questões da homossexualidade e heterossexualidade integram o novo léxico das obras para crianças e jovens. Ângela Balça recorda uma obra embrionária: “A Manuela Bacelar publicou, em 2008, O livro do Pedro. Na época, foi um livro pioneiro no país, extraordinariamente explícito, apresentando-nos uma família monoparental”.

“Normalmente o que acontece nestas obras é que precisamos do mediador. Depende de como o adulto medeia e a criança olha para as temáticas de uma forma mais aprofundada. Uma obra como O Livro do Pedro é mais explicita. Noutras obras, a criança nem sempre faz uma interpretação mais profunda e metafórica numa primeira abordagem. Dou-lhe um exemplo com o livro O lanche do senhor verde. Nele, há várias personagens que são monocromáticas. Chegam a uma porta misteriosa, atrás da qual há um mundo multicolor. Encontramos neste contexto uma imagem subliminar, pois este mundo multicolor assemelha-se mais ao nosso mundo. Há adultos que olham para ali como algo à superfície, para abordar as cores com as crianças. Ora, isto é ‘assassinar’ a obra”.

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Ainda a este propósito das leituras menos evidentes, a docente dá-nos o exemplo de obras que abordam as questões ambientais: “quantas vezes os educadores e professores se socorrem destas não para uma conversa, um olhar sobre o mundo que nos rodeia, mas para pôr os meninos a estudar as características dos animais, porque a disciplina de Estudo do Meio o pede”.

Maria João Ferro

Psicóloga

“Através do livro, a criança imagina, cria uma história representada mentalmente por si”

Sobre o papel do livro para a infância no desenvolvimento da criança e na exploração do mundo que a rodeia, diz-nos a psicóloga Maria João Ferro, com 30 anos de carreira, 17 dos quais na área da psicologia infantil: “de uma forma geral, o livro infantil é uma janela que permite à criança ter mais mundo para além do seu mundo. Ou seja, através do livro, a criança imagina, cria uma história representada mentalmente por si, divaga na imagem e torna-se modelada pela mensagem”.

Obras que imprimem “um forte poder emocional na criança”, reforça a psicóloga, acrescentando que “permite [à criança] ter acesso a emoções positivas. Em muitos casos, é através também do livro que a criança aprende a gerir emoções menos boas”. Ou seja, o livro dá “à criança acesso a uma janela que lhe traz novas experiências, muitas vezes diferentes daquelas que experiencia no seu quotidiano”.

Psicóloga Maria João Ferro
Psicóloga Maria João Ferro

Na equação que labora sobre o livro infantil, Maria João Ferro acrescenta outros papéis: “revela-se ainda influenciador, não só do desenvolvimento emocional e relacional, mas também do próprio desenvolvimento cognitivo. Um facilitador do processo de alfabetização, potencia a aquisição de competências linguísticas, agiliza o processo de aquisição da leitura e da escrita, promove a aquisição da fala, torna-se, ao longo do desenvolvimento importantíssimo, por exemplo, na consolidação da consciência fonológica, ou seja, da relação existente entre a palavra desenhada e o som pensado, a representação mental com conteúdos fonéticos do desenho da letra, da palavra e da frase”.

“Sabemos ainda que através dos livros infantis a criança treina a sua atenção e concentração, o que não acontece com outras atividades lúdicas, que hoje ocupam a maioria do seu tempo livre”, conclui a psicóloga a propósito da natureza e importância do livro para a infância.

Muitas são as situações em que uso o livro infantil para ajudar a criança na elaboração das suas emoções.

No que respeita às novas abordagens nos conteúdos dos livros para a infância, Maria João Ferro, assume incluí-las na sua prática profissional e em contexto de consulta, “em especial com crianças na primeira e segunda infância. Por variadíssimas razões, como por exemplo, quando se trata de trabalhar os medos, as ansiedades, os terrores noturnos, o bullying, a raça, entre outras questões que me são apresentadas em consulta. Muitas são as situações em que uso o livro infantil para ajudar a criança na elaboração das suas emoções”. Neste contexto e de acordo com a especialista, “o livro infantil pode ser um instrumento valioso em terapia, mas também pode ser utilizado em contexto familiar de forma a fortalecer as dinâmicas relacionais familiares e introduzir temáticas relevantes para o desenvolvimento moral e emocional da criança”.

criança a ler
créditos: Annie Spratt/Unsplash

“O livro consegue aproximar a criança ao real, pelo uso do lúdico, da fantasia, do jogo e parece-me ser uma estratégia bastante positiva para o desenvolvimento global da criança e acima de tudo porque mune a criança de estratégias para gerir e compreender as bizarrias deste nosso ‘novo mundo’”, sublinha a psicóloga.

Sobre se há uma idade-chave para a introdução de temas como o medo, a morte, a igualdade de género, a multiculturalidade, entre outros, junto dos mais novos, a psicóloga recorda que “não existem receitas. Cada caso é um caso. Acima de tudo deve existir sensibilidade. Os temas podem ser induzidos pelo adulto, mas nunca ‘impingidos’”.

Um tópico que deve ter em atenção a idade da criança e a fase de desenvolvimento da mesma. “Não sei se uma criança de três anos compreende a igualdade de género, mas compreenderá que não se bate, nem se deixa um amigo ficar triste e a chorar sem ter ninguém para brincar na escola”. Nesse sentido, há que adequar a mensagem a cada criança em específico quando escolhemos por ela um livro. Como psicóloga e numa primeira fase penso que o interessante será deixar a criança escolher os seus temas, descobrir por si mesma, descobrir-se a si própria pelo livro. Numa segunda fase e à medida que a criança questiona e relata acontecimentos recorrer ao livro pode ser uma estratégia excelente para introduzir temáticas, esclarecer e informar”, salienta Maria João Ferro.

O papel dos pais no acompanhamento das leituras dos mais pequenos

Diz-nos a psicóloga Maria João Ferro: “na primeira infância, os pais apresentam um papel fundamental na estimulação desse interesse. A história ao deitar é um momento em que a mãe ou o pai dedica a sua atenção exclusivamente à criança. Para além do livro, da história e da ilustração, existe a emoção, o carinho e o amor.

Mais tarde, os pais devem ser os tutores das leituras (tal como deveria acontecer com os videojogos), certificando-se que a curiosidade da criança está ajustada à sua maturidade para compreender o que se lê, ou o que se ouve. Muitas vezes os pais escolhem livros que gostam e pensam interessantes e nem sempre as crianças compreendem o que estão a ouvir, o que pode produzir um efeito bastante negativo relativamente ao livro”.

E no que toca à relação entre pais e filhos, podemos entender que temas, como os já referidos, são um desbloqueador? “Sem dúvida”, sublinha a psicóloga, acrescentando: “o livro é um forte instrumento de comunicação, uma forma de comunicar pela imagem, comunicar pela frase, é um bom veículo de transmissão de informação; permite induzir temáticas nas dinâmicas relacionais familiares, aproxima pais e filhos, desbloqueia assuntos ditos tabu, promove a expressão da emoção e dos sentimentos, podendo por exemplo também consistir num veículo importante na diminuição de ansiedades e de medos nas crianças”.

“Todas estas dimensões promovem a comunicação, o fluir das emoções positivas e negativas que coabitam em cada um de nós, adultos e crianças. Tenho essa experiência em consulta em vários domínios e em tempos de pandemia, o uso do livro infantil, tornou-se numa estratégia importantíssima como potenciador de diálogo no seio familiar”, sublinha a especialista.

O livro é um forte instrumento de comunicação, uma forma de comunicar pela imagem, comunicar pela frase.

Livros infantis e comunicação interpessoal que não se esgotam no mundo físico, do papel e lápis, mas também todo o mundo digital, com o livro a acompanhar a evolução tecnológica. A este propósito, a psicóloga “considera de extrema importância o recurso ao e-book infantil”. E porquê? “como desbloqueador de comunicação, o mundo digital está mais acessível e mais próximo da criança. Assim sendo, penso que temos que ter a criatividade e o dinamismo suficientes para ir ao encontro dos interesses das crianças, de forma a resgatar o gosto pela leitura do livro infantil, seja em que formato for”.

Para concluir, Maria João Ferro, salienta: “costumo dizer que, atualmente, as crianças e os jovens escrevem mais e leem muito mais do que antigamente, relacionam-se com as tecnologias e com os écrans. O problema é que a qualidade da leitura que realizam, e da escrita que efetuam, não será eventualmente tão favorável ao desenvolvimento cognitivo infantil como o recurso ao livro o é. Dúvidas tenho se serão ou não bons modelos comportamentais, só no futuro saberemos”.

criança a ler
créditos: Adam Winger/Unsplash

Rita Castanheira Alves

Psicóloga Clínica infantojuvenil e de aconselhamento parental

“Os momentos de leitura de pais e filhos são extremamente poderosos e estimulantes de uma estreita ligação”

Rita Castanheira Alves, Psicóloga Clínica infantojuvenil e de aconselhamento parental, vê o livro “como um instrumento extraordinário e muito eficaz no desenvolvimento infantil e na compreensão, adaptação e exploração do mundo que rodeia a criança, o adolescente e, mais tarde, o adulto, nas suas diferentes fases”. A especialista aponta “vários estudos que demonstram as múltiplas potencialidades e aprendizagens que podem ser feitas através do livro infantil e as vantagens do contacto precoce da criança — desde bebé — com o livro nas suas diversas valências”.

Valências estas que, como sublinha Rita Castanheira Alves, “promovem as diversas inteligências; estimulação da imaginação, criatividade e do jogo simbólico; pensamento crítico; estimulação sensorial; curiosidade; aprendizagens diversas; promoção de competências emocionais e sociais e até, desde muito tenra idade, como instrumento de grande promoção da vinculação entre cuidadores [pais, mães e não só] e até irmãos e a criança, quando explorado em conjunto, numa interação extremamente poderosa”.

Psicóloga Rita Castanheira Alves
Psicóloga Rita Castanheira Alves

Em particular, no que toca a questões “difíceis” tratadas na literatura para a infância, a autora do livro A Psicóloga dos Miúdos - Guia prático para todos os Pais (Editora Vogais/2020), não dissocia esta realidade do papel dos livros, “excelentes veículos de aprendizagem, pensamento crítico, aquisição de conhecimentos, competências emocionais”. A psicóloga destaca que “a abordagem de qualquer tema importante numa sociedade e o desenvolvimento humano, é potenciado pelo livro”. Livro que permitirá à criança “explorar o mundo e compreender temas fundamentais e que farão parte do seu crescimento, de uma forma acessível, ‘natural’, pela identificação até com as personagens — ou não — por poder legitimar certos acontecimentos ou até emoções que vivencie, por já as ter visto ou lido retratados num livro. Não as torna temáticas tabu, erradas ou proibidas. E isso é muito poderoso e essencial no nosso desenvolvimento e até libertador”, refere a autora do livro Adolescência, os Anos da Mudança (Editora Vogais/2016).

Na perspetiva dos adultos, “o livro ajuda a abordar com as crianças, temas que são difíceis — para nós —, também a introduzir assuntos pertinentes e fundamentais, contribuir para a construção de melhores seres humanos e como tal melhor sociedade. Ajuda-nos a falar, a saber mais sobre eventuais dúvidas das crianças, ideias que vão adquirindo, e até ajudá-los a desconstruí-las se necessário”.

A abordagem de qualquer tema importante numa sociedade e o desenvolvimento humano, é potenciado pelo livro.

Rita Castanheira Alves, não deixa de destacar “a importância dos temas serem abordados adequando-os à idade, fase de desenvolvimento e características individuais de cada criança”. Ainda de acordo com a também autora da coleção infantil Emoções (Editora Booksmile/2020), “não há um momento-chave e único para a introdução destes temas. Poderá ser interessante construir uma biblioteca diversa ou ir criando o hábito assíduo de ir com a criança requisitar livros numa biblioteca ou trocando entre amigos/colegas, introduzindo vários  livros à criança mas também deixando-a escolher, criando o hábito ‘natural’ de conviver com livros e de os ir visitando de vez em quando, em determinadas circunstâncias ou acontecimentos em que sintamos necessidade de ajudar a criança a compreender determinado assunto ou ajudá-la a lidar com determinada emoção e/ou situação”.

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Neste contexto, os momentos de leitura de pais e filhos “são extremamente poderosos e estimulantes de uma estreita ligação, de fortalecimento dos laços e de grande impacto para toda a vida. Sabemos também que pais leitores [em conjunto com os filhos, mas também os que têm hábitos de leitura individuais] têm filhos com maiores hábitos de leitura. Por isso é fundamental esta modelagem dos adultos para os miúdos se relacionarem e desenvolverem os hábitos de leitura, mesmo que esta anteceda o saber ler, passando por folhear, observar imagens, contar a história pela imaginação”.

“São igualmente momentos que poderão promover conversas sobre temas importantes e, destacaria, isso é importante não só com filhos na infância, mas também, e muito, na adolescência”.

Elisabete Nunes

Editora Edita x

“O objetivo é editar o que consideramos ser urgente, e em detrimento do que é comercial ou dominante”

“Diversidade, inclusão, humanidade, empatia, multiculturalidade, justiça social, sentido de comunidade, ativismo, cidadania, solidariedade, amor: são palavras-chave no vocabulário da Edita X”, casa sediada em Lisboa que, na sua criação  “contém a ideia de ser uma editora que se distingue por assumir um papel interventivo na comunidade, declaradamente ativo e participativo, pelo que nos sentimos a fazer ativismo editorial, assumimo-lo. Acima de tudo, sentíamos a urgência de criar uma editora que apenas se dedicasse a temas relacionados com direitos fundamentais (humanos, animais e ambientais) e transversais. Sem este objetivo, o de editarmos livros socialmente transmutadores, nunca nos teríamos aventurado na edição. O objetivo é editar o que consideramos ser urgente, e em detrimento do que é comercial ou dominante”, adianta-nos Elisabete Nunes, uma das responsáveis pela casa editorial.

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Sobre este nosso mundo complexo e a consequente diversidade que deve refletir na literatura para a infância, a editora adianta que “nem sempre a produção editorial infantojuvenil reflete esta diversidade”. Elisabete Nunes fala em “bibliodiversidade” como “a diversidade cultural nos livros”. Multitude de abordagens “alimentada principalmente pelos editores independentes. Felizmente, o panorama editorial nacional está em mudança e cada vez mais surgem edições que são inclusivas nos temas, refletem uma população diversa na sua existência/mundividências, incidem sobre causas que devem ser conhecidas desde tenra idade e dão espaço a uma pluralidade de vozes que até então não tinham expressão nos livros infantojuvenis” (ver caixa).

A Edita X nasce num contexto em que “a diversidade na edição infantojuvenil começava a ser debatida, a preocupação com a inclusão e a abordagem a temas atuais mais transversais já era visível em algumas editoras portuguesas, e até em edições de autor ou mais independentes, mas não era suficientemente expressiva, e sentíamos a lacuna de alguns temas, ou de abordagens a esses temas — e ainda sentimos“, refere Elisabete, que acrescenta: “a existência de muitas histórias ‘era uma vez’ mas poucas ‘é assim por vezes, ou muitas vezes’, em que se aborda diretamente um tema, uma vivência, uma realidade praticamente excluída dos livros ou pouco representada”.

Nem sempre a produção editorial infantojuvenil reflete esta diversidade.

Em harmonia com esta linha editorial, os livros infantojuvenis editados com a chancela da Edita X (e os que não o estão, mas com direitos comprados) partiram de uma necessidade constatada ou uma realidade vivida pelas autoras: “são um reflexo do seu posicionamento no mundo e das suas experiências. A Christine Baldacchino, a autora do Matias Mondragão e o Vestido Tangerina, viveu de facto a história do Matias com um menino da sua sala na escola em que era então educadora de infância, e o sentimento de injustiça face à tristeza da criança impeliu-a a escrever o livro”.

Por seu turno, Marie-Louise Gay sentiu a urgência de escrever Mustafa no decurso de uma visita à Croácia e à Sérvia, depois de ter convivido com famílias refugiadas; a Ruby Roth, ativista vegana, artista e autora de E é por isso que não comemos Animais e Veganismo é Amor, escreveu e ilustrou as obras como uma forma de responder aos seus jovens alunos, que constantemente a questionavam acerca das suas opções de alimentação, e de lhes explicar a sua filosofia de vida.

Livros mais inclusivos na Every Story Matters

Para combater a falta de diversidade na edição infantojuvenil, e reconhecendo a necessidade de apoios e incentivos a estes livros, têm sido criadas plataformas como a europeia Every Story Matters que pretende estimular a criação de livros mais inclusivos para crianças. Neste âmbito vai nascer uma “carta de princípios”, ferramenta a ser usada por profissionais do livro e da leitura, com a colaboração de entidades de vários países como a Acesso Cultura, em Portugal. O objetivo é melhorar as condições de acesso físico, social e intelectual, aos espaços e oferta cultural.

Catálogo que inclui a narrativa de Sofia Pereira, autora da história-fábula Pato-Cão. A autora “viu-se na necessidade de escrever na sequência das suas preocupações ambientais e humanitárias, sendo, além de professora de ensino básico, voluntária e ativista em ações de apoio a quem mais precisa; estas preocupações são partilhadas pela ilustradora Luna Kirsche e pela equipa da Edita X, estando diretamente relacionadas com uma ideia de ativismo editorial sempre presente na análise dos direitos a serem comprados e na decisão dos títulos a editar”.

"Esperamos, claro, que os leitores e educadores reconheçam a necessidade e a qualidade dos livros, a genuinidade das suas mensagens, e se encantem por eles com a mesma intensidade com que nós nos apaixonámos logo no primeiro encontro. E, acima de tudo, esperamos que a bibliodiversidade na edição infantojuvenil em Portugal seja cada vez mais valorizada e que continue a ganhar consistência e força”, conclui Elisabete.

Inês Castel-Branco

Editora Akiara Books

“Vencer todo o tipo de preconceitos, racismo, machismo, fundamentalismo”

Após estudar arquitetura no Porto, Inês Castel-Branco rumou a Barcelona, em 1999, para fazer um Erasmus. “Gostei tanto desta cidade, da oferta cultural e da relação entre todas as artes, que fui ficando por cá, e acabaria por fazer um mestrado sobre arquitetura efémera e, depois, um doutoramento sobre os espaços do teatro nos anos 1960”. Inês colaborava, entretanto, na publicação de livros. “Um dia, com o meu marido, fizemos a pergunta: ‘porque não montamos uma editora?’. Aprendi sobre tipografia e desenho editorial e, em 2007, nascia a Fragmenta, dedicada ao pensamento, filosofia, ciências sociais e espiritualidade em sentido dilatado”.

Oito anos depois, já com três filhos e uma grande paixão pelos álbuns ilustrados, nasceu a coleção Pequena Fragmenta, “com a mesma vontade de oferecer obras profundas, belas, diferentes aos mais pequenos”, sublinha Inês que acrescenta: “por circunstâncias da vida, em 2018, deixei a Fragmenta e fundei, em solitário, a Akiara Books, apenas de literatura infantil e juvenil, que dá continuidade à coleção que já dirigia anteriormente”.

Hoje, a editora sediada na cidade catalã “mantêm o mesmo espírito das origens: acreditamos que se podem abordar todos os temas com as crianças, sempre que os saibamos acompanhar. Gostamos de dizer que fazemos livros ‘com luz própria’, profundos e belos, para despertar o sentido de contemplação da natureza, o autoconhecimento e também o sentido crítico. Não se trata de livros ‘para trabalhar’ as emoções ou o que seja, mas sim livros que abrem novas perspetivas, que levantam mais perguntas que respostas”, salvaguarda a editora.

Sobre a natureza dos livros que edita, Inês sublinha que se destinam a “ler em conjunto, que permitam vencer todo o tipo de preconceitos, racismo, machismo, fundamentalismo. Evidentemente que não escolhemos um texto só por isso, mas estamos atentos aos modelos que estamos a oferecer às crianças. A diversidade cultural é uma riqueza, e numa sociedade aparentemente tão plural, e ao mesmo tempo tão fechada e individualista, qualquer oportunidade de mostrar como outros vivem e pensam de maneira diferente de nós é bem-vinda”.

acreditamos que se podem abordar todos os temas com as crianças, sempre que os saibamos acompanhar.

Muitos dos livros com a chancela Akiara Books provêm de histórias ou lendas de outras culturas: “temos um conto africano (A tua canção), um conto dos índios Cherokee (Os dois lobos), um livro de contos budistas (Jatakas) ou do sufismo (Histórias de Nasrudín), também uma seleção de fragmentos do Tao te King (Tao), um livro sobre as origens do ioga (Ioga) ou outro com exercícios provenientes do ioga, do taichi, do chi kung (Respira).  Temos dois livros inspirados no Japão (A escola da Haru / Tancho), na América Latina (Do outro lado), e em breve teremos dois livros sobre a imigração (de Síria e América Latina), destaca Inês Castel-Branco.

Catálogo que inclui obras que transmitem uma visão intercultural sobre a vida e a morte (A gota de água). “Para os adolescentes e jovens, os nossos discursos inspiradores da coleção Akiparla constituem uma oportunidade de conhecer gente importante que tentou mudar o mundo, a partir de culturas e âmbitos muito distintos (Malala, Mujica, Wangari Maathai, entre outros)”.

“Por vezes tratamos temas ‘pouco comerciais’ como a morte, a guerra, a demência. A nossa vontade primeira é oferecer livros profundos, muito cuidados literária e esteticamente, e que convidem a pensar, que permitam sair da nossa pequenina borbulha e dar-nos conta do que passa lá fora. Livros que sensibilizem, que emocionem, que nos façam mais humanos, que nos unam de novo à natureza e os outros”, acrescenta Inês.

Anastasia Korneva

Fundadora da editora Baduga Books

“Para as crianças é melhor pensar do que não pensar e saber do que não saber”

De nacionalidade russa, Anastasia Korneva, não esconde a sua afeição pela literatura para a infância e língua portuguesa. Anastasia que na rede social Instagram gere a página russa.sobre.livros.

russa sobre livros
créditos: Russa Sobre Livros

Ao SAPO Lifestyle, a também fundadora da editora independente Baduga Books, sublinha que “muitas vezes, tópicos complexos são tabus na literatura infantil. Podemos não falar sobre a Guerra, a Morte, o Racismo e a Discriminação? Sim, mas não devemos”, defende Anastacia que acrescenta: “falar sobre 'temas difíceis' na literatura infantil moderna parece-me um fenómeno inevitável. A literatura para a infância tem nas últimas décadas desenvolvido um espírito que se resume numa fórmula simples: Para as crianças é melhor pensar do que não pensar e saber do que não saber. Se existe um tema difícil, é importante falar sobre isso”.

Ainda sobre o papel do livro no universo dos mais jovens, reflete Anastacia: “pelo seu carácter democrático e vivência coletiva, o livro torna-se o meio universal para abordar temas ‘complicados’. O bom livro não impõe nada, ele simplesmente está lá, em silêncio, dando ao leitor a oportunidade de refletir. Ou seja, a escolha em última instância permanece com o leitor, mas o que se lê pode facilmente servir como um auxílio para essa escolha”.

Grande leitora, Anastácia deixa-nos uma seleção de livros “arrumados” em diferentes temas, como a Morte (“se não aprendemos sobre a morte como então podemos aprender a valorizar a vida”), a Guerra (“é responsabilidade nossa mostrar aos nossos filhos a realidade cruel das guerras do passado e presente para nunca, nunca mais, acontecerem”), a Diversidade e Inclusão (“para sensibilizar as crianças de que apesar de todas as diferenças que podemos ter, na aparência, condições físicas, nacionalidade, entre outras, somos todos iguais”.

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