“À data, existem cerca de 2.500 inscritos que aguardam por disponibilidade de talhão”, disse à Lusa a Lipor – Serviço Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto, que desde 2003 gere a iniciativa Horta à Porta, que atualmente se estima produzir alimentos “para mais de 4.480” pessoas.

Os municípios associados da Lipor onde o projeto está em curso são Espinho, Gondomar, Porto, Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Valongo, Maia e Matosinhos, concelho onde “cerca de 950 pessoas” estão à espera de terreno, adiantou a autarquia matosinhense.

No período de confinamento devido à covid-19, a Lipor registou “um aumento relativo da procura, sem significância estatística”: entre março e maio “chegaram 133 novas inscrições”, descreve a instituição.

“Registámos, também, alguns pedidos de reativação de inscrições de pessoas que, por razões variadas, haviam desistido no passado e que voltaram a ter interesse em ter um talhão para cultivo”, acrescenta.

Também em Matosinhos os quase mil utilizadores em lista de espera para se juntarem ou substituírem os atuais 900 “agricultores” não surgiram agora, segundo a autarquia, que refere que “não houve aumento significativo” da procura desde o início da pandemia da covid-19.

A Lipor destaca que o projeto “tem continuamente muitos interessados” e que atualmente “não há talhões por ocupar, todos estão atribuídos”.

A organização esclarece estar “continuamente a trabalhar” com os municípios para “procurar soluções para corresponder a esta procura/necessidade”.

Quanto à diferença entre o número de utilizadores (1.795) e o número de consumidores de alimentos provenientes das hortas (4.480), a Lipor esclarece ser uma média feita a partir da “dimensão média dos agregados familiares” e da partilha de bens habitualmente feita entre familiares.

Júlia Silva, de 63 anos, tem uma horta na Maia há 10 anos. Deixou de comprar legumes, mas assegura que é preciso “trabalhar”.

“Para mim, chega. Até porque vou congelando. Ocupa-me o tempo e é vantajoso. Mas tem de se trabalhar. Há quem queira ter uma horta porque é ‘in’ [por estar na moda], mas é preciso trabalho”, descreveu, em declarações à Lusa.

Reformada há quatro anos, a ex-controladora de qualidade no setor têxtil lembra que encontrou o projeto da Lipor quando procurava emprego e “foi uma lufada de ar fresco”.

“Não fui criada na agricultura, mas sempre gostei da natureza. Tinha ficado desempregada, os empregos eram uma miséria. Encontrei o projeto e a horta era a única coisa que tinha para fazer”, observou.

Entretanto, voltou a trabalhar, reformou-se, o companheiro também e agora passam os dois a tarde na horta, “nem que seja para passar o tempo, apanhar ar e tirar as ervas”.

 “Não tendo nada para fazer, é na horta que estamos, porque é na horta que estamos bem”, assegura.

Para garantir qualidade no cultivo não é precisa uma presença tão assídua, explica, notando que planta “de tudo”: “feijão verde, feijão rasteiro, alho francês, cenouras, morango, ervilhas e todas as [ervas] aromáticas”, entre outras coisas.

Residente na Senhora da Hora, Matosinhos, Conceição Bernardo, de 67 anos, tem há “quatro ou cinco anos” uma horta nas instalações da Lipor.

A ideia foi “ter uma terapia para além do trabalho” e descobriu “o prazer de trabalhar a terra”.

Reformou-se em dezembro, pensou que ia ter mais tempo para o cultivo, mas a pandemia de covid-19, com o confinamento, trocou-lhe as voltas: “Só agora retomei um bocadinho”, refere.

Couve para caldo verde nunca mais comprou, mas apesar de cultivar “de tudo”, desde abóboras a beringelas, ainda tem de adquirir legumes: “A horta é pequena e ainda fica longe de mim”.

“É um sítio onde faço experiências. Planto girassóis para afastar os ratos e tremoços para nutrir a terra com azoto. É quase terapêutico”, resume.

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