Este modelo surge em alternativa às taxas de carbono e ao mercado de emissões, cujas receitas vão para os Estados, que o podem investir como quiserem, não necessariamente em medidas que beneficiem o ambiente, explica, em entrevista à Lusa.

O físico teórico tem-se dedicado a estudar a física do clima e das alterações climáticas, tendo criado a equação do antropoceno, que permite medir o impacto da atividade humana no clima.

Bertolami propõe a criação de um "’resilient social tax’ (taxa social resiliente, em tradução livre), que devia ser colocado em todo o tipo de consumo nos países ricos. Consumiu, tem de pagar, e [a receita] tem de ser utilizada para restaurar ecossistemas ou capturar CO2 [dióxido de carbono] – só para essas duas coisas”.

A solução para a emergência climática e as crises ambientais a ela associadas, defende, “são as comunidades, os grupos”.

“A minha ideia é criar uma nova criptomoeda, chamada Planetary Boundary Cryptocoin. As pessoas aderem a esse contrato digital, por tecnologia ‘blockchain’, recebem capital, que pode ser, inicialmente, capital a sério, e restauram ecossistemas. O ‘proof of work’ (protocolo de segurança) que tem de se fazer para receber criptomoeda, é provar que o trabalho de restauro foi feito”, esclarece.

Questionado sobre o esforço energético que é necessário para gerar uma criptomoeda, o físico adiantou que a simplicidade do protocolo de segurança resolve essa questão.

Este intento surgiu-lhe “naturalmente”, porque a criptomoeda “foi inventada para evitar a inflação, a especulação”, por haver uma quantidade fixa de moedas, no caso da pioneira bitcoin.

“O que propomos é uma coisa ainda mais material. O valor da moeda está ajustado segundo os parâmetros terrestres. Não posso criar mais moeda do que os recursos do planeta – é mesmo muito físico”, atira.

Bertolami acredita: “se criarmos essa dinâmica, não precisamos mais dos governos, podem ir passear”.

“Queremos o melhor para os portuguesas, os italianos, os indianos, e assim sucessivamente, mas isso não tem nada a ver com o sistema terrestre, que é para todos. Essa divisão geográfica, política, dos países, é completamente incompatível com a lógica do problema que temos em mãos, que é global. As alterações climáticas não vão parar na fronteira. Essa é a maior dificuldade”, afirma.

Para o cientista, “o principal responsável pela situação a que chegámos é essa ideologia económica de crescer continuamente e consumir continuamente”.

“É um planeta finito. Os recursos são limitados e isso tem consequências socioeconómicas muito claras”, destaca.

Orfeu Bertolami refere que, “entre 1500 e 2000, a população cresceu 14 vezes. Nesse mesmo período, a riqueza cresceu 250 vezes – há riqueza para todos”.

“O problema das alterações climáticas é o mesmo da desigualdade social. Não consigo resolver um sem resolver o outro”, frisa.

Apesar da dimensão do problema das alterações climáticas, destaca como “extremamente positivo que a sociedade se esteja a mobilizar para colocá-lo no contexto que permite a sua solução”.

“E esse contexto, para mim, é claríssimo, o problema das alterações climáticas é a sociedade de consumo, a economia de mercado, o capitalismo. Não vamos aqui dourar a pílula”, prosseguiu.

Ainda que reconheça a sua importância, considera ainda “um bocado incipientes” os movimentos ambientalistas.

“São necessários, [mas] ainda não atingiram a maturidade necessária para serem verdadeiras alternativas, e, como se sabe, há muitas iniciativas nesse sentido. Eu mesmo fiz parte de uma, chamada Casa Comum da Humanidade, para promover o sistema terrestre [e um clima estável] como bem jurídico. É conversa. Eu não tenho interesse em conversas, tenho interesse em fornecer-lhes ideias para testar”.

Em contraponto à iniciativa que tem como casa a Universidade do Porto, aponta para o facto de, “no norte de África, uma dúzia de países, dos mais pobres do planeta”, terem criado um corredor de verde de “15 quilómetros por oito mil quilómetros”.

“São esses projetos que defendo. Podem ser levados a cabo pelas comunidades, e acho uma vergonha não estarmos a dar dinheiro para plantar oito mil por trinta [quilómetros], e assim sucessivamente”.

O cientista lembra que medidas destas têm “um impacto positivo na vida daquelas pessoas, que, depois, não vão emigrar para a Europa, envolver-se em problemas sociais nos seus países, vai mitigar a pobreza”.

“Nós temos de ajudar esses países para nos ajudarmos também”, remata.

Orfeu Bertolami é natural de São Paulo, no Brasil.

Doutorado pela Universidade de Oxford, trabalhou no Institut fuer Theoretische Physik em Heidelberg, na Alemanha, no Instituto de Física e Matemática, em Lisboa, na Divisão Teórica do CERN, no Istituto Nazionale di Física Nucleare, em Turim, no Departamento de Física do Instituto Superior Técnico e na Universidade de Nova Iorque.

É atualmente professor catedrático no Departamento de Física e Astronomia da Universidade do Porto.

Como físico teórico, trabalha questões de cosmologia, física das astropartículas, gravitação clássica e quântica e física fundamental no espaço e ciência do sistema terrestre.

Tem trabalhado as alterações climáticas, do ponto de vista físico, mas também, em colaboração com a socióloga Cármen Diego Gonçalves, a relação entre as alterações climáticas e a pandemia.

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