Em certos momentos da nossa vida interrogamo-nos se nos sentimos bem e/ou felizes. Fazemos um apanhado de vários momentos, traçando uma linha cronológica recheada de episódios bons e maus. E é aqui que as coisas podem complicar-se.

Por norma, não somos isentos e isso implica que temos tendência a carregar certas partes da linha e a destacar alguns acontecimentos de acordo com o momento presente. Se estivermos num período em que predominam as emoções agradáveis, esta autoavaliação segue igualmente um sentido positivo, mas se atravessarmos um período carregado de emoções desagradáveis, o sentido inverte-se.

Em situações em que nos podemos sentir esmagados pelo quotidiano e em que os momentos negativos do passado nos perseguem e o futuro projeta-se envolto numa assustadora nuvem negra, podemos experienciar uma enorme angústia, normalmente culminando em sintomatologia ansiosa e depressiva. E o caminho faz-se, porque o tempo não pára, qual calvário, de forma mais ou menos penosa. Mas existem momentos que nos trazem luz. E aí colocam-se várias questões: estamos prontos para parar e olhar para a luz? Estamos prontos para tomar consciência daquilo que nos rodeia no aqui e agora? Estamos prontos para estabelecer novos objetivos? Estamos prontos para seguir outro caminho? Estamos prontos para viver e apreciar o nosso caminho? E, talvez uma das questões mais importantes: estamos prontos para ser felizes?

A felicidade não é um destino, é o caminho que percorremos ao longo da vida, e quanto mais depressa nos tornarmos conscientes da nossa vida, mais depressa podemos começar a vivê-la, sem pilotos automáticos, sem grilhões do passado e sem o negrume do futuro.

Imagine-se numa longa viagem de comboio. Existe uma partida e, inevitavelmente, uma chegada. Mas durante o percurso muita coisa se passa. Conhecemos pessoas que já haviam iniciado a viagem e que, provavelmente, irão sair numa estação antes da nossa. Connosco vão partilhando aspetos da sua viagem, umas afáveis, outras nem tanto, mas todas com ensinamentos importantes. Ao olharmos pela janela podemos apreciar a paisagem, umas vezes agradável, outras não, à luz do sol ou da lua ou no negrume de algum túnel que, eventualmente, chegará ao fim. Podemos abrir e fechar janelas, levantar-nos para esticar as pernas ou mudar de carruagem, podemos conviver, apreciar uma refeição ou dormir. Só não podemos fazer uma coisa: parar o comboio. Essa é a nossa condição e apenas depende de nós. Como assim se apenas somos passageiros deste comboio? Bem, comecemos por descrever aquela que talvez seja pedra basilar do bem-estar psicológico e o segredo da felicidade: a flexibilidade psicológica. Pode ser descrita como a capacidade de adaptação às exigências das situações, através da reconfiguração dos recursos mentais, mudando a perspetiva e equilibrando os desejos, as necessidades e os diversos domínios da vida. Para tal, precisamos de contactar com o momento presente enquanto ser humano consciente, na sua globalidade e sem adotar uma ação defensiva desnecessária, focada naquilo que é na realidade e não naquilo que aparenta ou afirma ser, e persistir ou mudar comportamentos ao serviço dos comportamentos escolhidos e pretendidos.

Desta forma, podemos criar o perigoso ciclo do sofrimento em que um elemento stressor provoca uma emoção, à qual se associa um pensamento que resulta numa ação e voltamos a repetir o processo. Tal como disse uma vez Albert Einstein: “Insanidade é fazer a mesma coisa vezes sem conta e esperar resultados diferentes.” O problema é que, de facto, esta é uma atitude que repetimos e que invariavelmente se traduz em sofrimento. Como quebrar o ciclo? Aqui ficam algumas sugestões.

1. Identifique ou atribua um nome às suas emoções pensamentos ou sentimentos. Escreva e tome consciência de como e quando surgem. Desta forma poderá permitir uma análise racional e enquadrada na sua realidade possibilitando neutralizar, rejeitar ou restruturar. No sentido inverso, negar ou combater torna-se uma tarefa desgastante, contínua e frustrante, aumentando os níveis de ansiedade e sofrimento.

2. Separe os pensamentos das emoções. Não são a mesma coisa. Aceite que determinada emoção possa existir sem que seja necessário associar um pensamento, positivo ou negativo, ou tomar qualquer tipo de ação. Ou seja, estar consciente das suas emoções e pensamentos sem controlar ou deixar-se controlar. Assuma um lugar de observador permitindo-se escolher o que fazer em detrimento de uma reação descontrolada.

3. A prática de tipos de meditação como o Mindfulness permite-nos tomar consciência das nossas emoções e aceitar o que nos surge na mente sem juízos, conduzindo a um maior conforto perante emoções ou pensamentos negativos.

4. Defina os seus valores centrais e foque-se neles. Serão sempre uma bússola que podem orientá-lo nas suas decisões em momentos de maior dificuldade.

5. Psicoterapia pode ajudá-lo a aliviar sintomatologia e a alinhá-lo com a vida.

Acima de tudo, aprecie a viagem!

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