Não é por acaso que hoje podemos encontrar milhares de receitas sobre como “alcançar a felicidade”. Estão disponíveis imensos livros, blogs e sites, consultorias, terapias, etc. que abordam o assunto e supostamente contêm a tal receita milagrosa! As propostas vão desde as técnicas empiricamente validadas, como o exercício físico e mindfulness, até aos conceitos mais obscuros. Às vezes, parece que a nossa cultura alcançou um ponto de saturação no seu foco obsessivo pela busca da felicidade.

Assim, também não é por acaso, que muitos de nós, nesta procura incessante da fórmula para alcançar a felicidade, no fim, acabe por sentir-se ainda pior. Talvez isso explique a elevada prevalência na população portuguesa do estado de tristeza, que foi o tema do meu último artigo.

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Felicidade em termos de prazer ou sentido de propósito?

Muitas pesquisas apontam para que se faça uma distinção entre felicidade em termos de prazer e felicidade em termos de sentido de propósito ou significado.

É que a primeira, a felicidade em termos de prazer, focando-se na alegria sentida ou prazer imediato, que é inegavelmente algo positivo, acaba por ser uma felicidade momentânea e efémera. Corresponde a concentrarmo-nos em experiências hedónicas, em que se faz do prazer um bem supremo e objeto da vida. E acabamos por sentirmo-nos pior, pois muitas vezes, esta “felicidade” é alcançada recorrendo a escolhas alimentares pouco saudáveis (com consequências ao nível da obesidade e saúde em geral), gastos impulsivos (podendo conduzir à problemática das compras compulsivas ou adição às compras), interações sexuais irresponsáveis ou até mesmo ao consumo excessivo de álcool e drogas.

Já a segunda, a felicidade em termos de sentido de propósito, concentra-se nas experiências que podem não ser puramente prazerosas, mas aumentam o nosso sentido de ligação com valores mais profundos, e por isso mais duradoiros. Tais experiências nem sempre são fáceis, mas frequentemente conduzem-nos a uma maior satisfação com a vida, num nível de envolvimento mais profundo, e que contrasta com a “felicidade” superficial que referi anteriormente.

A felicidade descrita desta forma parece complicada de alcançar, não é? Num mundo com o de hoje, onde dá-se tanta importância ao prazer imediato, como desenvolver este sentido de felicidade que só se sente a longo prazo? Como podemos focar-nos em procurar um propósito na vida quando estamos stressados, numa vida totalmente preenchida com as preocupações do dia a dia?

Três perguntas que tem que responder para encontrar o seu sentido de propósito

A seguir apresento-lhe três perguntas que irão ajudá-lo a encontrar um sentido de propósito ou significado para a sua vida, para que deste modo alcance uma felicidade de longo prazo ou felicidade genuína.

1. Estar ligado a outras pessoas. Comece por pensar de que rostos se lembra quando a palavra “amor” e “amizade” lhe vêm à cabeça.

Estar intrinsecamente ligado a outras pessoas, os relacionamentos, é a base do sentido ou propósito para muitos de nós. Nesse sentido, para si, o que significa “amor” e “amizade”? De que rostos se lembra imediatamente?

Para muitos, o verdadeiro significado das suas vidas não vem da sua atividade profissional, mas das pessoas com que trabalha. Deste modo, a sua motivação poderá não se foca na organização, mas nas pessoas que ai trabalham e a quem oferece a sua ajuda. Também, ao nível pessoal, poderá encontrar a sua causa na ajuda à sua família, amigos ou comunidade.

2. Estar completa e profundamente imerso numa experiência tão agradável que o faz perder a noção do tempo. Vive esta sensação quando está completamente empenhado e imerso numa atividade. Sente-se relaxado, sem stress, mas também desafiado e interessado.

Durante mais de quatro décadas o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi estudou este efeito a que chamou de “fluxo”, tendo-se tornado o pilar da formulação da psicologia positiva. Segundo ele, a felicidade corresponde a mudar o conteúdo da nossa consciência para este estado de “fluxo”, e quando a pessoa entra nele, nada mais interessa; é um estado de intensa concentração, sem distrações, em que se perde a noção do tempo. É uma das melhores experiências que se pode viver.

Se quer saber mais sobre os estudos de Mihaly Csikszentmihalyi e sobre o estado de fluxo, leia o meu artigo “Felicidade genuína, já experienciou esse incrível estado de sentir?

Aos meus pacientes, eu descrevo este estado como sendo aquela situação de concentração máxima na realização de uma tarefa, que produz uma agradável sensação de bem-estar e de tal forma que se perde totalmente o sentido do tempo. É o oposto de estarmos constantemente a olhar para o relógio à espera que a tarefa termine.

Então, que tipo de atividades o conduzem para este estado?

·     Pense nas pessoas com quem passa o seu tempo, com quem partilha as suas ideias e experiências. Muitas vezes, ajudando-as a esquecer as suas preocupações, a livrarem-se das suas “bagagens pesadas”, contribuindo para se sintam novamente motivadas.

·     Pense nas partes do seu trabalho que adora e quando as realiza sente que o tempo parece voar.

·     Pense nos seus hobbies que fazem desaparecer uma tarde de sábado de forma agradável.

As respostas a estas perguntas irão permitir-lhe começar a sintonizar-se com o que ressoa mais profundamente na sua vida.

3. O que é que o motiva? Onde investe as suas energias? Quando gostamos mesmo do que fazemos, mesmo que exija uma grande dedicação, parece que realizamos a tarefa (quase) sem esforço. Por isso, examine o padrão de atividades que realizou até agora, aquelas que foram bastante complicadas, mas que lhe trouxeram grande satisfação. Isso o ajudará a determinar o tipo de tarefas onde deve investir o seu tempo e dedicar-se de corpo e alma.

Pense naquela tarefa que apesar de ter-lhe dado imenso trabalho, gostou tanto de realizar. Paradoxalmente, essa tarefa até pode ter-lhe parecido que não foi trabalho – pelo menos da forma que outras atividades de que não gosta parecem realmente “trabalho”.

Por isso, “encontre algo que realmente gosta de fazer e nunca irá trabalhar um único dia na sua vida”. É claro que esta frase é um pouco exagerada, pois nunca iremos amar completamente o que fazemos, mesmo que seja “a paixão das nossas vidas”. Iremos passar por momentos em que iremos sentirmo-nos stressados e sobrecarregados com as responsabilidades.

Deste modo, comece por remover da sua lista as tarefas pendentes que o acompanham constantemente, pesando os seus dias. Só por inércia ainda estão na sua lista e continuam a roubar-lhe a concentração. O foco passará assim a ser mais claro e será mais evidente onde deve gastar o seu tempo.

A felicidade não é impossível, só depende de si

Encontrar um sentido de propósito, a felicidade genuína, não é fácil nem óbvio. Não é um fim, mas uma jornada que se faz todos os dias. Para isso, é importante que fique longe de todas as distrações, removendo da sua vida tudo o que é supérfluo. É importante que faça algo que realmente gosta e lhe dá prazer. É importante que esteja ligado às pessoas que são importantes para si. Pense, a felicidade não é impossível, só depende de si!

Sente que encontrou o sentido do seu propósito? Partilhe a sua opinião.

Elisabete Condesso / Psicóloga e Psicoterapeuta

© PsicoAjuda – Psicoterapia certa para si, Leiria

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