Durante anos, impôs-se como um vírus mortal, com um poder destrutivo inigualável e difícil de combater.

Hoje, o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) «deixou de ser uma condenação à morte e passou a ser encarada como uma doença crónica que pode ser manejada e tratada medicamente», afirma Ricardo Camacho, médico e investigador, responsável pelo Laboratório de Biologia Molecular no Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental.

O que mudou? Em 1996, foi testada e aprovada uma nova terapêutica - o tratamento antiretroviral altamente activo (HAART) - que combina várias classes de medicamentos. Nesta terapêutica são combinados três ou mais medicamentos que conseguem travar a replicação do vírus e recuperar de forma significativa o sistema imunitário dos infectados, trazendo-lhes assim a oportunidade de viver durante mais e melhores anos.

Uma terapêutica «altamente eficaz»

«Esta terapêutica foi o ponto de viragem no tratamento desta infeção», sublinha Ricardo Camacho. «Passamos de uma situação em que era possível retardar um pouco a progressão da doença, através dos medicamentos que se foram desenvolvendo a partir de 1985 e, em 1996, passamos para uma situação em que conseguimos estabilizar a progressão da doença», afirma.

«A partir daqui, os doentes infetados por VIH tratados por este tipo de terapêutica passaram a ter uma evolução comparativa à de uma doença crónica», acrescenta o especialista, lembrando que «antes de ter surgido esta terapêutica, a esperança média de vida de um doente, desde o início da infecção, não ultrapassava os 15 anos e que atualmente, existem doentes que vivem mais de 20 anos».

Nos países onde a terapêutica foi aplicada, o resultado foi uma redução drástica do número de mortes e das doenças oportunistas relacionadas com a infecção do VIH, de acordo com dados disponibilizados pelo Grupo de Portugueses Activistas sobre Tratamentos de VIH (GAT).

O VIH e o sistema imunitário

Quando infeta o organismo, o VIH enfraquece o sistema imunitário, o sistema que nos defende dos agentes infeciosos, ao eliminar as células que os reconhecem (células CD4).

Associadas à infeção pelo VIH surgem geralmente as chamadas «doenças oportunistas».

«Quanto mais tarde for detetada a infeção, maior é a probabilidade de se desenvolverem no organismo», alerta Ricardo Camacho.

«Perda de peso, infeções gastrointestinais, hepatites e alguns tipos de cancro como o linfoma são alguns exemplos de problemas que podem decorrer do enfraquecimento do sistema imunitário, causado pelo VIH», descreve o especialista.

O tratamento antiretroviral vai assim fortalecer o sistema imunitário. Todos os medicamentos contra o VIH tentam evitar que novas células sejam infetadas. No entanto, estes medicamentos atuam de forma diferente e em diversos estados do ciclo de vida do VIH.

«Esta terapêutica suprime quase por completo a replicação do vírus», assegura Ricardo Camacho, explicando que «ao bloquear a replicação do vírus, não se formam novos vírus e não se infetam novas células, invertendo assim o processo de destruição das células». A melhor combinação varia de acordo com o doente.

As classes dos medicamentos

De acordo com dados divulgados pelo GAT, existem cinco classes de fármacos e medicamentos indicadas para cada fase do ciclo de reprodução do vírus:

1ª fase: O vírus fixa-se a uma célula CD4  e os medicamentos designados por Inibidores de Entrada vão impedir que tal aconteça.

2ª fase: Já dentro da célula, o VIH vai libertar os seus ácidos nucleicos. De seguida, estes são transcritos de forma a poderem usar os mecanismos da célula infectada para a sua própria replicação.

Nesta fase, atuam os medicamentos INTRs (Inibidores Nucleosidos da Transcriptase Reversa) e os INNTRs (Inibidores Não-Nucleosidos da Transcriptase Reversa) para prevenir a transcrição dos ácidos nucleicos do vírus.

3ª fase: Nesta fase o DNA proviral – resultado da transcrição dos ácidos nucleicos do vírus – vai integrar-se no DNA da própria célula e aí permanecer escondido do sistema imunitário. Para evitar que isto aconteça, são prescritos os Inibidores da Integrase.

4ª fase: Posteriormente, o VIH replica-se no interior da célula, usando os mecanismos desta. O resultado dessa replicação é uma grande proteína que contém todas as estruturas do vírus, no entanto, falta ainda separar essas estruturas umas das outras para que se forme um novo vírus activo. Para impedir este processo, são administrados os Inibidores da Protease (IP) que bloqueiam o enzima viral responsável por esta fase.

5ª fase: Os novos vírus saem da célula infetada e procuram novas células para infectar. A medicação administrada vai atuar nas fases anteriores, evitando que o vírus afete outras células.

A combinação de duas classes de medicamentos vai atuar de forma eficaz, reduzindo o vírus no organismo para quantidades mínimas. O objetivo é precisamente atingir o menor número possível de VIH no sangue e, desta forma, travar a evolução da doença. «Claro que o ideal seria impedir totalmente a replicação viral, o que significaria a cura da infeção, mas infelizmente, com os medicamentos atualmente disponíveis, isso não é ainda possível», refere o especialista.

O controverso começo

A melhor altura para iniciar o tratamento é «muito variável», refere o especialista, pois « a infeção pelo VIH evolui a velocidades diferentes».

De acordo com o GAT, na maioria dos casos começa-se o tratamento quatro ou cinco anos após a infeção, mas cerca de um terço dos infetados pode permanecer sem sintomas durante dez anos e sem tratamento.

Para decidir qual a melhor altura para iniciar o tratamento, os clínicos recorrem à contagem dos linfócitos CD4.

«Até há bem pouco tempo, recomendava-se que o tratamento se iniciasse quando o número das células CD4 atingisse os 350 células/mm3. Hoje, há novas guidelines que propõem que a terapêutica se inicie quando as CD4 atingirem os 500 células/mm3», adianta Ricardo Camacho.

Os pilares do sucesso

Se se utilizar o tratamento para o VIH na altura certa e de forma correcta, pode-se permanecer bem durante muito tempo. Para isso, «é essencial um diagnóstico precoce», alerta o especialista, explicando que «quanto mais tarde é diagnosticada a doença menor é a eficácia da terapêutica e a recuperação do sistema imunitário não será tão boa».

Durante os tratamentos é também importante que a medicação seja rigorosamente cumprida. «Ao parar a medicação, o doente arrisca-se a que o vírus desenvolva resistência aos fármacos e, apesar de atualmente existirem mais alternativas para tratar a infeção, cumprir a terapêutica à risca continua a ser um passo fundamental», sublinha.

Os desafios atuais

Para se chegar a esta fase no tratamento da infeção pelo VIH, «muitos passos foram dados desde o aparecimento da terapia combinada», ressalva.

«Ao longo dos últimos anos, desenvolveram-se novos fármacos, mais potentes e menos tóxicos que permitiram reduzir o número de comprimidos administrados e assim facilitar aos doentes o cumprimento rigoroso do tratamento». Ainda assim, «reduzir o nível de toxicidade dos medicamentos» continua a ser uma preocupação fundamental para os investigadores.

«Estamos a trabalhar para desenvolver novos fármacos menos tóxicos, para diminuir os efeitos secundários que afetam os doentes», conta Ricardo Camacho.

Segundo o investigador, «há medicamentos que provocam, por exemplo, o aumento dos níveis de colesterol e interferem na função cardiovascular, outros que afetam a função renal, provocando deficiências nos rins e outros que são tóxicos para o fígado e podem significar alguma degradação da função hepática». 

Retardar o envelhecimento precoce que decorre da infeção pelo VIH é outro objetivo, pois «o indivíduo infetado, mesmo tratado com a terapêutica correta, envelhece mais rapidamente do que um indivíduo não infetado».

O futuro no combate ao VIH

A personalização da terapêutica é o próximo passo a dar. «A terapêutica é definida de acordo com o estado clínico de cada paciente, mas no futuro, acredito que as medicações sejam cada vez mais individualizadas», afirma Ricardo Camacho.

«Já há testes laboratoriais que permitem dizer se um medicamento vai ser tóxico ou não, de acordo com o genoma do doente, ou se vai ser eficaz, de acordo com o genoma do vírus, e brevemente, vão chegar novas tecnologias que permitem uma análise ainda mais pormenorizada que nos vai permitir determinar uma terapêutica quase ideal para o doente», conclui o especialista.

Texto: Sofia Cardoso com Ricardo Camacho (responsável pelo Laboratório de Biologia Molecular no Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental)

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