A epilepsia é um distúrbio do sistema nervoso (um dos mais frequentes), não constituindo uma única doença, mas antes uma síndrome com diferentes etiologias e formas de expressão clínica. Existem várias definições de epilepsia, muito bem sintetizadas por Henry Gastaut, que diz que a "epilepsia é uma afecção crónica de diversas etiologias, caracterizada pela repetição de crises devidas a uma descarga neuronal excessiva (crises epilépticas) associadas eventualmente a sintomas clínicos".

As crises em epilepsia podem estar relacionadas a uma lesão cerebral ou a uma tendência familiar, mas muitas vezes a causa é completamente desconhecida. A palavra "epilepsia" não indica nada sobre a causa das convulsões ou gravidade da situação clínica.

Em que idades esta síndrome é mais comum?

Embora possa aparecer em qualquer idade, a incidência de epilepsia é maior na infância / adolescência (serão os casos resultantes de tendências genéticas ou de malformações e alterações no desenvolvimento neuronal), bem como a partir da década dos sessenta anos, estando nessa altura relacionada com lesões cerebrais (vasculares, tumorais, pós-traumáticas).

Ter uma crise é sinónimo de ter Epilepsia?

A característica fundamental é a recorrência de crises não provocadas. Uma pessoa é diagnosticada com epilepsia se tiver duas crises não provocadas (que não foram causadas por uma condição médica conhecida e reversível, como abstinência de álcool ou açúcar no sangue extremamente baixo), ou uma convulsão não provocada mas com evidência nos exames complementares da probabilidade de repetição.

Desta forma, uma crise única e isolada não é sinónimo de epilepsia, tal como as crises acidentais ligadas a situações agudas (convulsões febris, encefalite, traumatismo cranioencefálico, insuficiência renal) também o não são. Este aspecto é importante, visto que uma pessoa pode sofrer de crises convulsivas graves e frequentes durante uma doença cerebral aguda e não voltar a ter mais crises durante o resto da vida. A noção de epilepsia implica, pois, a recorrência de sintomas ao longo de meses ou anos.

Epilepsias "generalizadas" e epilepsias "focais": o que as distingue?

O fenómeno fundamental por detrás da ocorrência das crises é uma perturbação da actividade eléctrica cerebral, causando uma descarga neuronal excessiva e anómala, fora do ritmo regular de funcionamento cerebral, e que dá origem a uma crise com expressão clínica. Regra geral distingue-se entre as epilepsias "generalizadas" (quando essas descargas são desde o início generalizadas aos dois hemisférios cerebrais) e "focais" (quando ocorrem numa região específica do cérebro).

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Desta forma, enquanto as denominadas crises generalizadas são, regra geral, estereotipadas (ausências, mioclonias, convulsões), as de origem focal têm uma sintomatologia ligada à região cerebral onde ocorrem e para onde propagam seguidamente. Estes factores determinam as características de uma crise e o seu impacto no indivíduo. Assim as características clínicas das crises permitem desde logo uma orientação diagnóstica muito importante.

O diagnóstico é difícil?

O diagnóstico de epilepsia não é difícil, mas o esclarecimento da causa pode obrigar a uma avaliação muito pormenorizada. Engloba sempre uma avaliação clínica (feita por neurologista), complementada com estudos imagiológicos (RM, TAC) e neurofisiológicos (EEG).

Casos mais complexos poderão necessitar de avaliação por um neurologista especializado em epilepsia (epileptologista), bem como de outros exames, por exemplo de medicina nuclear ou neurofisiologia com técnicas especiais.

Qual o impacto da epilepsia no dia a dia das pessoas? 

Ter convulsões e epilepsia pode afectar a segurança pessoal, o trabalho, as relações entre as pessoas. No entanto, a grande maioria dos doentes vive bem controlado com a medicação e tem uma vida normal, do ponto de vista pessoal, familiar, académico, desportivo e profissional (cada caso e eventuais limitações devem ser sempre discutidas com o seu médico assistente). A percepção da sociedade sobre este problema é, por vezes, bem mais sombria do que a realidade, pois as situações de epilepsia refractária ou de difícil controlo não são muito frequentes, estando muitas vezes associadas a problemas neurológicos mais complexos.

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Conselhos práticos: o que fazer perante uma crise epiléptica?

Se testemunhar uma crise convulsiva generalizada, com queda e abalos musculares generalizados:

1. Permaneça calmo e vá controlando a duração da crise, olhando periodicamente para o relógio;

2. Coloque uma toalha ou um casaco dobrado debaixo da cabeça da pessoa;

3. Quando as convulsões pararem coloque a pessoa na posição lateral de segurança (deitado de lado, voltado para a esquerda);

4. Permaneça com a pessoa até que recupere os sentidos e respire normalmente;

5. Se a crise dura mais do que 5 minutos, chame uma ambulância.

NÃO introduza qualquer objecto na boca nem tente puxar a língua. NÃO tente forçar a pessoa a ficar quieta. NÃO lhe dê de beber.

Se presenciar uma crise mais ligeira, sem queda nem movimentos convulsivos (por exemplo, em que ocorra apenas um período de confusão e comportamentos invulgares), deve:

1. Proteger o doente de um eventual perigo durante uma crise;

2. Apoiar o doente até à recuperação completa da consciência.

Quando chamar os serviços de emergência?

1. Se for a primeira crise da pessoa (sem epilepsia prévia);

2. Se a crise for mais prolongada do que o habitual (geralmente as crises não ultrapassam os 2-3 minutos de duração) ou se observar crises repetidas, sem recuperação dos sentidos no intervalo;

3. Quando a crise provoque ferimentos sérios ou se houver dificuldade em retomar respiração normal no final da crise.

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