Apenas 33 anos. Uma idade que não combina com as batalhas que a vida já a obrigou a vencer. Carrega o peso de uma doença cardíaca desde os 15 anos de idade e, aos 29, foi-lhe implantado um pacemaker, que não a impediu de ser feliz nem de engravidar pela segunda vez.

Mafalda viveu uma feliz infância e sempre foi uma adolescente normal, com sonhos e objectivos bem definidos.

Pelo menos, até aos 15 anos, altura em que resolveu inscrever-se na área de Desporto (estava no 9º ano) e lhe pediram para realizar alguns exames médicos. Como sonhava entrar para a Força Aérea, tinha de saber se a sua saúde permitiria abraçar o sonho. Foi neste preciso momento que a vida de Mafalda mudou.

Os projectos tiveram de ser anulados, modificados e enfrentados com perseverança depois da natural revolta inicial. Afinal, e apesar de sempre ter praticado desporto (praticava atletismo desde os cinco anos), Mafalda desconhecia que sofria de um problema cardíaco designado bloqueio aurículo-ventricular completo congénito.

O diagnóstico chegou no pico da adolescência, altura em que se quer
viver tudo a que se tem direito sem se pensar que algo de errado se
poderá cruzar no caminho.

Não foi o caso. «Nunca tive quaisquer sintomas
em criança. Nada fazia prever que poderia sofrer de uma doença do foro
cardiológico. Fazia a minha vida completamente normal», explica Mafalda.

Num
dos exames (o electrocardiograma), foi-lhe detectado um problema. Inesperadamente, os
seus batimentos cardíacos eram muito brandos.

«Desvalorizei o resultado e
achei que o exame estava errado», acrescenta. Perante a sua insistência
e relutância, a equipa médica decidiu pedir a repetição dos exames. A
verdade é que Mafalda não só tinha uma doença cardíaca como a tinha
desde nascença e nunca se apercebeu! «Foi um choque. Como seria
possível? Não queria acreditar!», conta.

Depois do diagnóstico
que Mafalda nunca imaginou, foi reencaminhada para uma consulta de
especialidade no Hospital de Santa Marta após ter sido vista numa
clínica com cardiologistas ligados à área do desporto. «O médico
aconselhou-me a ser seguida pelo Sistema Nacional de Saúde porque sabia
que o meu problema me iria acompanhar toda a vida», conta. E assim foi. Aos
poucos, Mafalda começou a consciencializar-se de que o problema «existia
mesmo, era real e não havia como fingir que não estava a acontecer»,
explica.

A sua revolta não era propriamente devida ao seu
problema de saúde, até porque, com 15 anos, não tinha verdadeiramente
consciência do que representaria. «O que me deixava mesmo revoltada era
não poder escolher a área que sempre ambicionei. Isso foi o que de facto
me entristeceu», confessa. Mas não se deu por vencida. «Nunca vivi
muito a doença. Depois do choque, encarei o diagnóstico com positivismo e
segui em frente», sublinha, entre risos, deixando transparecer uma
determinação de quem está de bem com a vida!

Casar e ter filhos

Foi então que Mafalda decidiu tomar decisões rápidas na sua vida. Começou a trabalhar cedo, optando por não ir para a faculdade e casou passados cinco anos de namoro. O marido sempre foi o seu pilar e o seu casamento já completou 13 anos. Aos 26 anos, teve o primeiro filho – Afonso – após três abortos espontâneos. Mais um desafio que obrigou Mafalda a ser acompanhada numa consulta de risco da Maternidade Dr. Alfredo da Costa (MAC).

Para além dos antecedentes do seu historial clínico, os três abortos obrigaram a que fosse feito um estudo para avaliar a sua situação. «Tentei ter filhos aos 23, aos 24 e aos 25 anos. Quando estava grávida do Afonso e devido a todo o meu historial, realizava ecografias mensalmente.

O menino nasceu às 35 semanas, por cesariana e é um filho encantador», salienta Mafalda. Como seria de esperar, a sua preocupação após o nascimento passou por perceber se o pequeno Afonso teria algum problema cardíaco. «Chegou-se à conclusão que tem umas arritmias cardíacas» que não significam que venha a ter o mesmo problema que a mãe.

A notícia inesperada

Desde que começou a ser acompanhada
em consultas de Cardiologia em Santa Marta, o médico sempre informou
Mafalda que «um dia, mais tarde» teria de implantar um pacemaker.

Mafalda não vivia com tal preocupação. Afinal, para «um dia» ainda
faltava «muito tempo». Apesar de não ser determinada uma idade
específica, tudo apontava que seria por volta dos 40 anos.

Mais uma vez,
a vida de Mafalda resolveu pregar-lhe uma partida.

«Certo dia,
tinha eu 29 anos, fui à consulta para mostrar os resultados dos exames
regulares que era obrigada a realizar. Nesse mesmo dia, O Dr. Nogueira
da Silva disse-me que tinha de ser internada de imediato e que não
podiam esperar mais. Eu afirmava que não podia, por variados motivos, e o
médico indicou-me que aquela seria a minha prioridade no momento. Não
me deu grande tempo para pensar», conta-nos Mafalda. E assim foi.

Depois
de alguma insistência, Mafalda pôde ir dormir a casa, despedir-se do
pequeno Afonso, com a combinação de que estaria de volta às 8h00 do dia
seguinte. «Não dormi toda a noite, fartei-me de chorar e de olhar para o
Afonso. Pensei que não poderia morrer. Foi uma luta tão grande para que
ele nascesse que não seria justo deixá-lo tão cedo», desabafa.

Implantação do pacemaker

Ao contrário do que Mafalda tinha imaginado, a cirurgia foi bem mais simples e rápida. Foi realizada com anestesia local e correu muito bem. «O médico esteve a falar todo o tempo comigo e explicava-me tudo». O internamento durou 48 horas. A recuperação em casa durou cerca de um mês e meio e, actualmente, a sua vida é perfeitamente normal. Tal como a maioria das pessoas, Mafalda pensava que não poderia utilizar o microondas, falar ao telemóvel ou andar de elevador devido ao facto de ter implantado um pacemaker. Nada mais errado.

Rapidamente percebeu que o dispositivo em nada condicionava a sua vida. «Todas estas ideias são irrealistas. O pacemaker não tem qualquer interferência com estas actividades. No que respeita ao telemóvel, deve ser colocado do lado oposto do aparelho mas eu nem sequer me lembro disso, no meu dia-a-dia.» O mais que pode acontecer é a bateria descarregar mais rapidamente.

A sua cicatriz acabou por ficar mais saliente do que seria de esperar porque Mafalda pegava Afonso ao colo – o que não era recomendado – e sempre que usa decote, nota-se uma proeminência que origina algumas perguntas sobre o que é que Mafalda tem naquela parte do corpo. Nada de mais para uma mulher que enfrenta todas as vicissitudes com determinação.

Posso voltar a engravidar?

Mal se submeteu à cirurgia de
implantação de pacemaker, Mafalda quis engravidar novamente. Por
indicação médica, deveria esperar um ano até voltar a tentar, para que
fosse avaliada a sua reacção após a cirurgia, mas quando voltou à
consulta, passado um ano e três meses, já estava grávida.

Curiosamente, a
gravidez do segundo filho «foi mais tranquila, o bebé mexeu-se mais
rapidamente e o parto foi natural». Nasceu com quase 40 semanas, também
na MAC.

«Chama-se Salvador, uma espécie de homenagem à sua
conquista pessoal devido a todos os antecedentes que poderiam complicar o
parto. Se fosse menina, chamar-se-ia Vitória», explica. Este enorme
amor pela vida faz de Mafalda um exemplo a seguir. «Pedi ao
cardiologista para escrever uma carta que indicasse que poderia ter um
filho de parto natural porque tinha sofrido imenso com a cesariana do
Afonso», recorda.

«Apesar do segundo parto ter de ser a fórceps, até a
recuperação foi muito mais rápida», indica. Gostava de ter mais filhos
mas não sabe se conseguirá arriscar novamente. Por enquanto, o trabalho,
os dois filhos, as consultas regulares, o desporto que insiste em
praticar – num ginásio – e o facto de ser extremamente activa são mais
do que suficientes e não deixam tempo para grandes e novas aventuras.
Para além de ter podido engravidar, Mafalda também se orgulha de não
estar impossibilitada de amamentar. «O Salvador fez há pouco tempo três
anos e foi amamentado até aos dois», explica Mafalda.

Os conselhos de Mafalda Januário

- Desmistificar ideias erradas

«Não conheço muitas pessoas da minha idade que tenham implantado um pacemaker mas, curiosamente, nos bancos dos hospitais, conversamos uns com os outros e acabo por conhecer histórias semelhantes à minha. Anteriormente, considerava que só pessoas mais velhas é que tinham o mesmo problema que eu, o que não é verdade».

- Apoio familiar

«O meu marido foi sempre excelente e até acho que tenta proteger-me demasiado! Preocupa-se com aspectos que eu nem sequer me lembro. Eu esqueço-me completamente que tenho o aparelho. Para além disso, os meus pais foram sempre muito presentes e ajudaram-me imenso porque eu era uma menina e foram eles que me ajudaram a enfrentar o diagnóstico».

- Não ter medo!

«Se precisar de implantar um pacemaker, não tenha medo. A cirurgia é simples e relativamente fácil, para além de lhe proporcionar uma enorme qualidade de vida», conclui.

Uma mulher portadora de pacemaker pode engravidar em segurança? Lançámos esta questão ao cardiologista Mário Oliveira. Veja a entrevista onde este especialista responde a esta pergunta.

Texto: Cláudia Pinto

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