Cerca de 14 por cento dos portugueses tem obesidade mórbida, mas vão ter de continuar à espera da cirurgia porque os centros de tratamento têm uma lista de espera superior a quatro anos

A obesidade é o problema número um da saúde pública do século XXI em Portugal e no mundo desenvolvido. O Prof. Doutor Francisco Castro e Sousa, director do Serviço de Cirurgia III dos Hospitais da Universidade de Coimbra, considera que as administrações hospitalares não têm feito tudo o que está ao seu alcance para ultrapassar os entraves ao escoamento da lista de espera nos hospitais públicos; que, em alguns casos, ultrapassa mesmo os quatro anos, tempo que põe a vida dos obesos mórbidos em risco.

Há 1.700 milhões de obesos no mundo, sendo que só nos Estados Unidos há 213 milhões numa população de 300 milhões. O flagelo também já chegou ao nosso país: mais de 50 por cento dos portugueses tem excesso de peso e 14 por cento obesidade mórbida.

Números assustadores que se reflectem nos custos com a saúde: 4% das despesas totais são feitas com obesos.O sedentarismo associado à má alimentação são responsáveis pela obesidade no mundo. Quem o garante é Castro e Sousa. “Nos últimos 20 ou 30 anos a vida tornou-se muito mais sedentária: as crianças antes iam para a rua jogar à bola ou iam para a escola a pé, agora chegam das aulas e vão sentar-se frente ao computador ou à televisão a comer batatas fritas e a beber Coca Cola”, sublinha o médico.

Para o cirurgião, os aspectos estéticos, que as pessoas tanto valorizam, são de somenos importância comparados com as co-morbilidades que estão ligadas à obesidade. E são múltiplas: os problemas cardiovasculares, nomeadamente a angina de peito e a hipertensão arterial estão muito associados à obesidade. Também os problemas pulmonares se agravam com o excesso de peso e destaca a insuficiência respiratória, a sensação de falta de ar e a apneia do sono, quando as pessoas deixam de respirar, e que, no limite, pode matar.

Segundo o especialista, “todo o gordo tem tendência para ressonar mas melhora muito se perder peso.”A operar obesidade desde 1986, o professor catedrático de Coimbra sublinha que a diabetes também é mais prevalente no obeso. “Assim que o doente é operado, melhora imediatamente a diabetes, mesmo que ainda esteja muito longe do peso ideal.”

Francisco Castro e Sousa admite mesmo que esta solução possa vir a ser no futuro a cura mais eficaz para a diabetes.  As outras co-morbilidades comuns nos obesos mórbidos são igualmente as doenças metabólicas, como a elevação dos níveis sérios do colesterol e os triglicerídeos altos, problemas que ficam corrigidos para a vida com a operação.

O especialista releva a doença hepática como sendo outra co-morbilidade, e explica porquê: “A gordura também se deposita no fígado e 5 a 10% dos doentes com fígado gordo vão ter cirrose.”Os obesos mórbidos sofrem habitualmente de dores osteoarticulares. E, segundo o cirurgião, há que operar as pessoas em tempo útil.

“Uma vez operei uma senhora da Madeira com 73 anos com dores intoleráveis porque tinha artroses nas duas ancas. Ela pesava cerca de 120 quilos e não havia nenhum ortopedista que a operasse com aquele peso. Ainda hesitei em operá-la mas acabei por fazê-lo e a senhora viveu até aos 82 anos com um resto de vida de excelente qualidade.”

“O obeso mais gordo que operei tinha 300 quilos e sofria de dores brutais nos joelhos”, recorda. “Era um jovem de 21 anos que já não saía de casa, e nem por email conseguiu arranjar emprego. Agora está a trabalhar e tem uma vida perfeitamente normal. Depois de operado ficou com 90 quilos.”Até o carcinoma do cólon e do recto são mais frequentes nestes doentes. Pensa-se que morram 10 pessoas por dia em Portugal vítimas deste cancro de que são diagnosticados, todos os anos, 5.000 novos casos.

Também o cancro da mama e do útero atinge em maior número as obesas. Depois vem o grupo das doenças psiquiátricas: falta de auto-estima e as dificuldades que são postas nas relações pessoais, familiares, sexuais e até laborais. Estas relações são quase sempre condicionadas pelo facto de se ser obeso mórbido.

Segundo o Prof. Castro e Sousa, estas doentes queixam-se que não foram escolhidas para o emprego por serem gordas ou que os maridos as deixaram por elas terem excesso de peso ou o contrário: “Uma doente já me disse que aturava o marido e não se divorciava por ser gorda…

”A insuficiência venosa crónica é outra co-morbilidade que afecta os obesos mórbidos porque o coração tem muito mais dificuldade em aspirar o sangue que vem desde a periferia. Por isso o risco da trombose venosa é enorme. Aliás, o Prof. de Coimbra não tem dúvida de que todos estes problemas de saúde afectam infinitamente mais os obesos mórbidos do que a população em geral, para não falar do risco que correm quando têm de se submeter a uma operação normal, como a apendicite aguda, uma hérnia, à vesícula, úlceras, etc.

A obesidade mórbida avalia-se quando a pessoa tem uma relação entre o peso e a altura ao quadrado superior  a 40, que se denomina índice de massa corporal. “No entanto, se o valor for 35, e a pessoa tiver uma destas co-morbilidades já é considerado um obeso mórbido”, revela o cirurgião para acrescentar que este tipo de obesidade reduz a esperança de vida em cerca de 20 por cento!

Quem deve ser operado

Engordar é, para algumas pessoas, uma inevitabilidade. É uma característica do material genético que varia de pessoa para pessoa. Há a ideia que os gordos têm um estômago muito grande e não é verdade. Uns têm mas não todos. Daí que para se propor um doente para cirurgia o primeiro passo é, segundo o cirurgião, ver se o doente está dentro dos padrões estabelecidos: ter um índice de massa corporal superior a 40 ou 35 se houver uma co-morbilidade associada.

Castro e Sousa recorda que as primeiras cirurgias da obesidade se faziam por via aberta. “Quando comecei a operar estes doentes, em 1986, o corte ia do final do esterno até bem abaixo do umbigo. Era uma enorme intervenção que se chamava By Pass Gástrico, demorava três horas e era extremamente invasiva.

”A seguir surgiu o “Gastric Sleeve”(gastrectomia tubular)uma intervenção que deixa o estômago em forma de tubo com cerca de 10% da sua capacidade total.

Hoje é a operação que está mais na moda e se pratica em maior número. A maior inovação é que esta operação, aliás como todas as outras utilizadas para tratamento da obesidade mórbida, é hoje, quase sempre, realizada por laparoscopia, e demora entre uma e duas horas a ser feita.

Na opinião do Prof. Castro e Sousa, a intervenção mais simples é a Banda Gástrica. Faz-se através de quatro furinhos, dois com 10-15mm e dois com cinco milímetros e a banda entra através dos tubos da laparoscopia. A mortalidade operatória da banda é praticamente zero, enquanto a do By Pass pode alcançar dois por cento. “Com a banda o doente fica com um corpo estranho mas fica com o organismo exactamente igual ao que era”, garante o especialista.

Estas cirurgias são dispendiosas porque os materiais usados são muito caros mas também porque o doente obeso é um doente muito difícil e obriga a uma assistência pós operatória muito mais cuidada e a um acompanhamento muito mais permanente. No entanto, um estudo feito pelo Serviço de Saúde Britânico garante que um ano depois estão recuperados os custos com o doente obeso.

“Por muito cara que seja a operação sai sempre mais barato ao Serviço Nacional de Saúde e sobretudo ao doente”, admite Francisco Castro e Sousa.

Para o cirurgião de Coimbra as vantagens da cirurgia da obesidade não se medem. “Não há memória de alguém se ter arrependido de fazer uma cirurgia destas. E quando há um caso ou outro de intolerância às bandas, e as pessoas têm de as tirar, ficam tremendamente desgostosas e acabam por vir a solicitar uma intervenção de outro tipo.”A nível nacional, no que respeita à cirurgia oficial, há um atraso muito considerável.

O Estado definiu centros com capacidade para a cirurgia da obesidade denominados Centros para o Tratamento da Obesidade “com exigências até exageradas em relação à globalidade dos casos”, frisa o especialista. As operações dos doentes ficam, na opinião do professor catedrático, à consideração das administrações dos hospitais.

Talvez por isso existam doentes em lista de espera há quatro anos ou mais nos hospitais portugueses. E explica porquê: quando há um doente para operar a uma hérnia que pode estrangular amanhã, ou uma vesícula que pode ter uma colecistite aguda ou uma pancreatite aguda cuja mortalidade pode atingir 10 por cento, cancros, etc., a obesidade vai ficando para trás; ainda mais porque esta é uma cirurgia muito ocupadora de tempo. E só entram quando têm vaga, especialmente os que vão fazer a banda, que é a cirurgia mais rápida.

Os Hospitais da Universidade de Coimbra reservam uma manhã por semana à cirurgia da obesidade. “Como são intervenções muito demoradas, conseguimos fazer duas Bandas ou Gastrectomias tubulares ou um By Pass. Com centenas de doentes em lista de espera é fácil perceber porque têm de ficar tantos anos a aguardar.

”No entanto, a Direcção Geral de Saúde contempla que estes doentes podem ser tratados em cirurgia adicional, ou seja, fora das horas normais de serviço. No ano passado fizemos alguns doentes nessa situação, só que os conselhos de administração dos hospitais hoje decidem caso a caso e este tipo de cirurgia não lhes parece interessar particularmente.

Castro e Sousa defende que os médicos até poderiam operar todos os sábados ou em fins de tarde quatro ou cinco doentes em cirurgia adicional, já que o hospital recebe uma verba do Ministério da Saúde específica para este tipo de intervenções que ronda os 6 a 8.000€ por doente. Se as operações ocorrerem fora das horas de serviço, o hospital tem, contudo, de abdicar de uma parte desse dinheiro para pagar aos médicos e aos enfermeiros; o que não tem interessado muito às administrações hospitalares.

Palmira Correia

Maio 2011

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