Faz-se sentir num dos lados da cabeça, caracteriza-se por uma dor pulsátil geralmente acompanhada de náuseas, vómitos, intolerância à luz e a alguns cheiros e tem uma fase premonitória indicadora de que a crise está prestes a chegar. Falamos de enxaqueca, um dos tipos de cefaleia mais comuns que, segundo dados da Sociedade Portuguesa de Cefaleias, afeta, em média, entre 8% a 15% da população dos países ocidentais.

Dentro deste grupo, de acordo com os especialistas, cerca de 15% sofrerá de enxaqueca com áurea, que é acompanhada de sintomas neurológicos transitórios, como é o caso de perturbações exuberantes e passageiras de visão, de perda de visão de um dos lados do campo visual, de perceção de pontos luminosos, de dormência na face e nas mãos e/ou mesmo paralisia dos membros, em situações mais gravosas.

A razão pela qual algumas pessoas são mais suscetíveis a este tipo de dor de cabeça, que chega a ser incapacitante, continua por desvendar. Contudo, a comunidade científica continua à procura de respostas. Em 2014, no Congresso Internacional de Cefaleias, em Berlim, na Amelanha, onde as enxaquecas voltaram a estar em foco, uma das apresentações mais surpreendentes considerou-a é uma resposta de defesa do organismo.

De acordo com dois professores e investigadores da Universidade de Nápoles, em Itália, quem sofre deste tipo de cefaleia desenvolve uma sensibilidade superior a certos estímulos, acionando, desta forma, um sistema de defesa perante alguns perigos que o cérebro classifica como externos, o que ajudou os nossos antepassados a sobreviver e que, ainda hoje, afasta essas pessoas de determinados ambientes tóxicos.

A predisposição genética na origem de uma maior suscetibilidade

A tese defendida pelos dois especialistas nesse encontro de profissionais internacional reforça a ideia, já conhecida anteriormente, que estes indivíduos são mais suscetíveis a vários estímulos ambientais e do próprio organismo e que isso faz com que as crises possam ser desencadeadas pela ingestão de determinados alimentos, distúrbios de sono, stresse, toma da pílula anticoncecional, menstruação e até menopausa.

Segundo a Sociedade Portuguesa de Cefaleias, a enxaqueca é duas a três vezes mais prevalente no sexo feminino e sabe-se que está associada a uma combinação de processos a nível cerebral, nomeadamente alterações dos vasos sanguíneos e dos vários nervos que envolvem o cérebro e à libertação de substâncias. Há também uma predisposição genética que pode espoletar e/ou agravar o problema, asseguram os cientistas.

Segundo a organização norte-americana American Headache Society, aproximadamente 80% das pessoas que sofrem de enxaqueca tem um familiar de primeiro grau com o mesmo problema. Em 2018, aquele que foi o maior estudo sobre a doença até então realizado, levado a cabo por um grupo de cientistas da Universidade de Helsínquia, na Finlândia, que entrevistou 59.000 pessoas, também encontrou uma (cor)relação genética.

A ligação entre a enxaqueca e a menopausa

Existirá uma relação objetiva entre esta dor e a menopausa? Uma equipa de neurocientistas dos hospitais das universidades de Turim e de Novara, duas cidades de Itália, decidiu investigar a razão pela qual algumas mulheres que sofriam de enxaqueca durante o período fértil melhoraram após a menopausa, enquanto outras pioraram. As conclusões a que chegaram acabaram por trazer novas pistas para a investigação.

Descobriram, como revelou Cecilia Condello, a autora principal do estudo, que "a menopausa melhora as enxaquecas nos casos em que há uma forte relação entre a cefaleia e a menstruação durante o período fértil". Nos outros casos, não se verificou essa associação. O estudo, apresentado em Lisboa em 2014, continuaria a decorrer, mas a investigadora afirmou então que as primeiras conclusões podiam ser úteis para novas abordagens.

"Será possível desenvolver protocolos terapêuticos à medida das mulheres, de acordo com os seus fatores de risco que podem predizer o seu prognóstico depois da menopausa, escolhendo as estratégias mais agressivas em mulheres com probabilidades de piorar ou adotando uma postura de aguardar e ver nas que têm probabilidade de melhorar espontaneamente", garantiu, na altura, a investigadora italiana à plateia.

Bactérias agravam sintomas

Noutro estudo, divulgado na capital portuguesa na mesma altura, uma equipa de investigadores iranianos da Universidade de Ciências Médicas de Isfahan e da Universidade Islâmica de Azad, no Irão, demonstrou que as infeções pela Helicobacter pylori, bactéria responsável por diversas doenças gastroduodenais que infeta mais de metade da população mundial, contribuem para o agravamento da enxaqueca.

"Mostrámos que, em pacientes que tenham uma infeção ativa pela Helicobacter pylori, a frequência e a severidade da enxaqueca aumenta", recorda Mohammad Saadatnia, neurologista e líder da investigação. Este especialista recomenda que os doentes com este tipo de cefaleia sejam sujeitos a testes de despistagem da bactéria, pois assim esta "pode ser irradiada com antibióticos para atenuar os seus ataques de forma rápida e eficaz".

As enxaquecas são um problema crónico?

Estas dores podem tornar-se crónicas e esse risco aumenta em situações em que:

- As crises são muito frequentes. O risco cresce proporcionalmente ao número de dores de cabeça no último ano

- Existe excesso de peso. Os obesos têm duas a cinco vezes mais probabilidades de terem enxaquecas

- A pessoa toma demasiados medicamentos para controlar as crises. O risco aumenta quando se ingerem fármacos cinco dias por mês

- Existe uma ingestão excessiva de cafeína que, em alguns casos, agrava a dor de cabeça

- A pessoa ressona ou sofre de apneia do sono, dois fatores que causam distúrbios de sono

- Existe uma doença psiquiátrica e uma vida stressante

Como tratar a enxaqueca

Apesar de ainda não ter cura definitiva, existem dois tipos de terapias para a combater, como asseguram os especialistas:

- Tratamento sintomático

É administrado quando a crise tem início e passa pela toma de analgésicos simples, anti-inflamatórios e triptanos. Cabe ao seu médico indicar-lhe a melhor solução.

- Tratamento profilático

É usado diariamente nos casos em que há crises de enxaqueca frequentes, o tratamento sintomático não produz efeito, e quando as crises são muito incapacitantes. O objetivo é diminuir as crises. Não há medicamentos especificamente desenvolvidos para a profilaxia da enxaqueca, mas alguns anti-hipertensores, antidepressivos e antiepiléticos são utilizados com esse fim, ficando a escolha ao critério do médico assistente.

Texto: Rita Caetano com Cecilia Condello (neurocientista) e Mohammad Saadtnia (neurologista)

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