O que é na verdade a dermatite atópica (DA)?

Trata-se de uma doença cada vez mais frequente, que surge na maioria das vezes na idade pediátrica e que é habitualmente ligeira mas que, quando evolui para formas mais graves, requer um tratamento especializado. Surge muitas vezes em conjunto com outras manifestações de doença alérgica como alergia alimentar ou doença respiratória como a rinite ou asma. Na última década surgiram grandes avanços científicos nesta área e novos tratamentos motivo pelo qual cada vez mais é importante tratar este tema

 Qual o peso epidemiológico da DA em Portugal?

É a doença inflamatória cutânea mais comum na idade pediátrica, atingindo entre 2 a 5 % da população adulta. Cada vez há mais casos que se iniciaram na infância a persistir na idade adulta e a surgir de novo após os 18 anos, por vezes na meia idade ou mesmo em idosos.

Quais os sintomas através dos quais se manifesta?

A Da é  caracterizada por secura, descamação da pele e comichão, que varia de localização de acordo com a idade : no lactente surge no rosto, tronco e abdómen, na primeira infância e adolescência  nas pregas dos braços,  pernas (atrás dos joelhos)

bem como nas pálpebras e região bucal;  no adulto pode ser generalizada, na nuca ou por exemplo ter predomínio nas mãos. Está frequentemente  associado a outras manifestações alérgicas como rinite ou asma, e a história familiar de alergia.

De que forma pode interferir na qualidade de vida dos doentes?

Nas formas moderadas a graves tem um grande impacto psicossocial :estes doentes têm muitas vezes fobia social principalmente quando a DA a face a as mãos, dormem mal porque o sono é afectado pela comichão da pele, a concentração na escola e no trabalho é  menor levando a menor rendimento escolar e laboral. Estes doentes têm dor associada nas lesões mais extensas e nas fases agudas ardência, que surge  de forma espontânea ou em contacto com substancias que possam ser irritativas (às vezes basta um tecido mais áspero).

Qual a causa da DA?

A causa da DA é multifactorial ou seja resulta da interação de vários fatores: quer do individuo quer do ambiente. Relativamente aos fatores individuais destacam-se alterações genéticas, (habitualmente em doentes com DA mais grave), e  tendência pessoal para ter um sistema imunológico de alguma forma desregulado por estar hiperativado . Dos fatores ambientais destacam-se o afastamento do meio rural, dieta ocidentalizada, stress, poluição.

Em paralelo com outras doenças alérgicas a quantidade de pessoas a sofrer com esta patologia nas sociedades desenvolvidas  tem vindo a aumentar-pensa-se que a melhoria dos cuidados de saúde no geral e diminuição do numero de infeções por exemplo por parasitas tem desviado a “atenção” do  nosso sistema imunológico das bactérias e vírus para proteínas inócuas do meio ambiente provocando as  doenças alérgica.

É o preço que pagamos por viver num mundo mais “industrializado”, em cidades, com pouco contacto com o solo, com espaços verdes que acarretam biodiversidade não só macro como micro e isso é bom para o nosso sistema imunológico.

É fácil tratar a DA?

As formas ligeiras sim, as formas moderadas a graves, não. A DA sendo uma doença multifactorial necessita também de uma abordagem global. Todos os vários factores devem ser contemplados: a questão da barreira cutânea e a sua hidratação com os cremes adequados, a maior propensão para infecções cutâneas e  a sua prevenção, todas as comorbilidades alérgicas devem ser investigadas e apropriadamente tratadas.A questão psicológica deve ser sempre avaliada e é habitual socorrermo-nos de profissionais desta área para ajudar a gerir o distress que não raramente é uma das causas de agravamento da DA. A escolha terapêutica é também um desafio : quando ou não escalar a terapêutica, por quanto tempo, qual o risco beneficio, quando começar um tratamento mais diferenciado e mais dispendioso de modo a que fazendo o melhor pelo nosso doente tenhamos em atenção a sustentabilidade do nosso sistema de saúde.

Na perspetiva do doente, o que é realmente incomodativo quando se vive com DA?

Da nossa experiência com sessões educativas que já fizemos na SPAIC, se perguntarmos a um grupo de doentes com Da se pudessem retirar apenas um sintoma da sua patologia qual escolheriam,  a maioria escolheria o prurido (a comichão) e a sensação de ardor que lhe está associada . Sendo algo que não se vê pode ser completamente perturbador e disruptivo. 

Qual o papel do imunoalergologista na identificação, diagnóstico e tratamento destes doentes?

É uma abordagem essencial porque consegue ver a DA como doença sistémica (geral) que é, não apenas confinada à pele. É um especialista que consegue tratar no mesmo individuo em todo o seu percurso de vida , todas as comorbilidades alérgicas que acompanham a DA.

 Que novidades têm surgido, nos últimos anos, no âmbito da abordagem desta doença?

Muitas novidades em termos de conhecimento da sua causa e do tratamento das formas mais graves. A DA sendo uma doença imunologicamente mediada veio beneficiar do aparecimento de medicamentos recentes, muito eficazes, porque atuam em alvos inflamatórios específicos, estando reservados aos doentes com formas mais graves-são medicamentos que neste momento existem apenas em meio hospitalar.

Um artigo da médica Cristina Lopes Abreu, Imunoalergologista, coordenadora do Grupo de Interesse de Alergia Cutânea da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica.

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