Há seis anos, a Direcção Geral de Saúde reconheceu a dor como o quinto sinal vital, equiparando-a assim à frequência respiratória, frequência cardíaca, pressão arterial e temperatura corporal.

Relegada para segundo plano durante muito tempo, a dor é hoje reconhecida como uma peça-chave do bem-estar, à qual devemos estar atentos e dar respostas, no intuito de melhorar a qualidade de vida de quem é assaltado por ela. A verdade é que seja aguda ou crónica, de origem oncológica, pós-operatória ou simples reflexo do estilo de vida que adoptamos, a dor é das experiências humanas mais partilhadas.

Curiosamente, nenhum ser humano reage da mesma forma perante ela. O nosso limiar de sensibilidade não é o mesmo e a atitude em
relação à dor também não. A reacção que cada um de nós tem revela, na maioria dos casos, resistências imprevisíveis ou, pelo contrário, fraquezas inesperadas. Vamos ensinar-lhe a lidar com ela.

Dor aguda

Será certamente com alguma estranheza que aceita a ideia de olhar com simpatia para a dor aguda, mas a verdade é que esta pode ser considerada uma boa aliada. De curta duração, a dor aguda pode ter efeitos benéficos para o organismo ao funcionar como um sinal de alarme face à ocorrência de situações mais graves como um traumatismo, uma queimadura, um derrame articular ou uma úlcera gástrica. Assim deve ficar atenta a este tipo de dor, uma vez que acaba por ser um sintoma muito importante para o diagnóstico de várias doenças, sendo actualmente a principal causa da procura de cuidados de saúde pela população em geral.

Em casos mais simples, a dor aguda pode ser a resposta do nosso organismo a um estímulo negativo como uma queimadura, um corte ou mesmo níveis elevados de stress. Pode também ser ocasionada por procedimentos de diagnóstico ou terapêuticas cirúrgicas. Ainda assim, e embora útil em muitas circunstâncias,
a dor aguda deve ser controlada, sob pena de se perpetuar e transformar numa
dor crónica.

A sua persistência pode, inclusivamente, provocar sintomas de ansiedade e
levar ao aparecimento de sintomas depressivos como alteração do padrão do sono, perda de apetite, falta de concentração e diminuição da libido.

Dor crónica

Longe vai o tempo em que sofrer de dor crónica – isto é, de uma dor que pode persistir pelo menos três a seis meses e que, muitas vezes, se prolonga para além da cura da lesão que esteve na sua origem – era apenas mais uma fatalidade. Hoje em dia, existem formas de ultrapassar este problema que vão desde a toma de medicamentos analgésicos anti-inflamatórios até aos opióides fortes, como
a morfina.

A dor crónica não oferece qualquer vantagem. Pelo contrário, pode mesmo ter repercussões negativas ao nível da saúde física e mental, levando a alterações do sistema imunitário com uma consequente diminuição das defesas do organismo e o aumento da susceptibilidade às infecções. No campo da saúde mental, a dor crónica provoca frequentemente insónias, ansiedade e até depressão.

De acordo com dados da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor, a dor crónica mais frequente é a lombalgia, as vulgares dores de costas. Se sentir uma dor crónica, lembre-se que esta poderá ter na sua origem um trauma, uma doença ou qualquer tipo de situação que conduza a uma lesão no sistema nervoso, fazendo com que as células nervosas continuem a enviar sinais que criam uma sensação
de dor mesmo após a cura da causa.


Veja na página seguinte: A resistência aos analgésicos

Atitude positiva

Dados de um estudo europeu referem que cerca de 19 por cento dos cidadãos residentes no Velho Continente convivem frequentemente com a dor sem usar analgésicos adequados.

Um terço dessas pessoas afirma sentir sempre
dor e um quinto assume senti-la há mais de duas décadas.

Existem, contudo, estratégias que podemos adoptar para evitar ou, pelo menos, minimizar os efeitos da dor, nomeadamente a nível comportamental.

Por exemplo, estar na vida de forma positiva torna-nos mais resistentes, pelo que não será de espantar que os optimistas sejam muito mais eficazes na gestão da dor. Ainda assim, apesar das vantagens de se encarar a vida sempre pelo lado mais positivo, lembre-se. Há que ser um optimista consciente e não minimizar as situações graves.

Por outro lado, também as pessoas equilibradas do ponto de vista afectivo têm uma maior capacidade para lidar com a dor e para se adaptarem às diferentes realidades. Ao contrário, situações como a ansiedade podem estar ligadas não só ao desencadear da dor, como também à sua manutenção e agudização.

Aliados farmacológicos

O controlo da dor pode envolver o recurso a dois tipos de fármacos: os analgésicos opiáceos e os não opiáceos. No primeiro grupo inclui-se, por exemplo, a morfina, enquanto a segunda classe engloba os
anti-inflamatórios
não esteróides e o paracetamol. A toma destes medicamentos exige, contudo,
algum cuidado e supervisão médica. Conforme explica António Hipólito de
Aguiar, farmacêutico e docente universitário, «os analgésicos opiáceos causam dependência física e, com o tempo, as pessoas que os utilizam podem necessitar de doses maiores» para que o resultado continue a ser o pretendido.

Náuseas, vómitos ou sonolência são outros efeitos secundários que este tipo de medicamentos pode causar. Para além disso, como alerta António Hipólito de Aguiar, a toma excessiva de opiáceos resulta em «reacções graves, como uma perigosa depressão respiratória ou o coma». No caso dos analgésicos não opiáceos, o especialista sublinha que os anti-inflamatórios não esteróides devem ser tomados logo a seguir às refeições e nunca «por mais de cinco
dias», uma vez que podem «irritar o estômago, causando úlceras pépticas».

Já os medicamentos cujo principio activo é o paracetemol devem obedecer a uma toma máxima diária de 4000 mg, uma vez que doses excessivas «podem provocar efeitos adversos como a insuficiência renal», adverte.


Psicologia da dor
Três ideias que a podem ajudar a controlar a dor

Verbalizações positivas
Quando a dor a assaltar diga ou pense «sou capaz de ultrapassar esta situação». Está provado que quanto mais positivo for aquilo que «ordenarmos» a nós próprios mais controlo e resistência temos sobre a dor.

Actividades

Envolva-se e focalize a sua atenção em actividades que lhe dêem prazer, de forma a relegar para segundo plano a importância que a dor assume na sua vida.

Técnicas de relaxamento
A ansiedade e a tensão são terrenos férteis para a dor. Recorra a técnicas de
relaxamento muscular (respire de forma lenta e ritmada, relaxando sequencialmente
cada grupo muscular até se sentir completamente descontraída) ou imagéticas –
imagine uma situação em que se sente mais tensa e vá reduzindo progressivamente a tensão e consequentemente o nível de dor.


Texto: Claudia Marina com António Hipólito de Aguiar (farmacêutico)

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