São de regiões diferentes e propõem soluções alimentares igualmente distintas. Durante um congresso europeu de cardiologia, realizado em Barcelona, o mundo ficou a conhecer a Dieta Nórdica, um plano alimentar criado por docentes do Departamento de Nutrição, Exercício e Desporto da Universidade de Copenhaga em conjunto com os chefs do Noma, aquele que é considerado um dos melhores restaurantes do mundo.

Um plano que está a fazer os seguidores da Dieta Mediterrânica ponderarem uma mudança de paradigma, direcionando-se para uma ideologia ecologicamente sustentável. A Dieta Nórdica é um inovador conceito de dieta que assume um perfil saudável, saboroso e assenta em pilares como a regionalidade, a sustentabilidade e a sazonalidade, muito na linha do que também já preconiza a outra, substancialmente mais antiga.

O que distingue uma da outra

A Dieta Nórdica aposta em ingredientes como os cogumelos, as raízes, a batata, os grãos integrais, o salmão e o pregado e, quanto às carnes, apenas se recomenda veado, uma carne saudável que os povos da região do mar Mediterrâneo consomem pouco. A ideia é traçar uma alimentação que se traduza naquilo que cada estação do ano oferece, o que torna esta dieta independente da importação de géneros alimentícios.

Pretende-se premiar o organismo com alimentos mais saudáveis, de preferência de origem caseira, já que os mesmos possuem, por norma, um número maior de vitaminas e minerais. Segundo Thomas Meinart Larsen, professor da Universidade de Copenhaga, a Dieta Nórdica "surge como uma resposta à dificuldade que os povos no norte da Europa têm ao tentar adaptar-se à também saudável Dieta Mediterrânica".

"É clara a disparidade entre os hábitos alimentares dos povos mediterrânicos e os nórdicos", refere ainda. No entanto, a sua simbiose não está definitivamente colocada de parte, tal como refere o docente. "Penso que existem alguns princípios da Dieta Nórdica que podem ser partilhados com outros planos alimentares tais como as ideias de saúde, gastronomia, regionalidade e sustentabilidade", opina o especialista.

A importância do prazer à mesa

O paladar à mesa, uma questão que os apreciadores de comida tanto valorizam, também não foi esquecido. "Quando realizámos o estudo, quisemos tornar a dieta o mais agradável possível ao palato e, para isso, contámos com alguns dos melhores chefs do mundo que inventaram uma série de novas receitas cujos ingredientes foram produzidos através de métodos de manufatura orgânica", explica o especialista.

A complementaridade entre dietas e a sua eventual relação é um assunto também caro a Diana Baião, nutricionista do Instituto Prof. Teresa Branco. "Existem vários pontos comuns entre estas dietas", admitiu em declarações à Saber Viver. "A Dieta Mediterrânica, tradicionalmente consumida pelas populações do sul da Europa, é igualmente caraterizada pela abundância de alimentos de origem vegetal", refere.

A lista inclui "legumes, frutas frescas, alimentos integrais, peixes e o consumo moderado de frutos oleaginosos como as nozes, assim como um reduzido consumo de carnes vermelhas", esclarece. Para além disso, utiliza o azeite como principal fonte de gordura. "No entanto, nos países nórdicos, o azeite é de difícil acesso, pelo que utilizam o óleo de colza como gordura preferencial", afirma ainda a nutricionista.

Os fatores na origem das diferenças

Para além do tipo de gordura ser diferente, nos países nórdicos utilizam-se alguns alimentos distintos, nomeadamente algumas plantas ou ervas que não são produzidas nem se encontram disponíveis noutros países. "Assim sendo, considero que estas duas abordagens poderão complementar-se, substituindo os alimentos que são específicos de certas regiões por outros mais disponíveis e igualmente saudáveis", diz Diana Baião.

A opinião dos especialistas tende a ser unânime. No fundo, tanto a Dieta Mediterrânica como a Nórdica assumem-se como evidentes mais-valias no que toca à saúde. Sobre isso, Thomas Meinart Larsen é peremptório. "Não tenho dúvidas em afirmar que ambos os planos alimentares são profundamente saudáveis e culturalmente bem aceites pelas pessoas", garante o professor da Universidade de Copenhaga.

"Também em termos de características nutricionais ambas apostam em ingredientes frescos, em muitíssimos vegetais, fibras e legumes e dispensam gorduras saturadas e açúcares", acrescenta ainda o docente. Ao evitar alimentos nocivos para a saúde, a Dieta Nórdica teve como uma das principais metas combater alguns dos principais problemas crónicos no que toca à saúde e ao bem-estar dos povos do norte da Europa.

Problemas de coração na mira dos especialistas

Os que vivem nessa região do continente europeu possuem uma das mais altas taxas de incidências de doenças de origem cardíaca, ainda que essa tenha vindo a diminuir nos últimos 10 anos, depois da tomada de consciência da inclusão de gorduras e ácidos diversos nos produtos alimentares de origem industrial, o que levou, por exemplo, os dinamarqueses, um dos povos mais preocupados, a boicotá-los gradualmente.

Thomas Meinart Larsen não tem quaisquer dúvidas quanto aos benefícios, a todos os níveis, de um regime alimentar como estas características. "Recomendo vivamente a todos, sem exceção, um tipo de plano alimentar como a Dieta Nórdica", aconselha o especialista da Universidade de Copenhaga. "Para além do espetro de saúde, apelo ao seu uso por questões económicas e ecológicas", justifica Thomas Meinart Larsen.

O estudo revelador que suporta a teoria

Thomas Meinart Larsen é um dos maiores impulsionadores da Dieta Nórdica, tendo assumido a liderança de um estudo que durante 26 semanas envolveu 181 indivíduos adultos com excesso de peso, dos quais 68 respeitaram a alimentação normalmente seguida na Dinamarca, que incluía alguns dos géneros alimentícios mais usuais no país e outros importados, enquanto os restantes 113 tiveram outra abordagem.

Ingeriram apenas alimentos de caraterísticas integrais cujos ingredientes tinham origem local e sazonal, com a particularidade acrescida de serem fornecidos gratuitamente por um estabelecimento criado especialmente para tal. Entre outras indicações, foi recomendado aos elementos que integraram o estudo para comerem até atingirem a satisfação plena tendo sempre em conta a quantidade e não a matemática calórica.

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No cardápio figuravam, acima de tudo, legumes, cereais integrais, fruta fresca, plantas, ervas e algumas algas, bastante peixe (principalmente salmão) e pouca carne. Mas uma das mais peculiares e distintivas caraterísticas da Dieta Nórdica é a obrigatoriedade de ingestão de alimentos da estação vigente.

"Se todos explorarmos a nossa região vamos, com certeza, encontrar ingredientes que componham refeições mais deliciosas e saudáveis estando muitas vezes esses produtos bem ao alcance e perto de nós", considera Thomas Meinart Larsen.

Diana Baião considera essa questão determinante. "Um aspeto que diferencia a Dieta Nórdica de outras abordagens nutricionais é o facto de dar muita importância à questão da sazonalidade e disponibilidade dos alimentos e que estes sejam o mais naturais possível. Nutricionalmente, este conceito é equilibrado, pois privilegia o consumo de alimentos ricos em fibra, vitaminas e minerais", refere a nutricionista.

A lista de alimentos a privilegiar no dia a dia inclui ainda os ácidos gordos essenciais como o ómega-3. "Este é um regime alimentar pobre em gorduras nefastas para a saúde associando-se a melhorias da tensão arterial, à prevenção da aterosclerose, à redução dos níveis de colesterol LDL (mau colesterol), ao aumento do colesterol HDL (bom colesterol) e à perda de peso", garante ainda a especialista portuguesa.

Menos calorias e menos peso para mais saúde

O resultado do estudo foi sintomático e os participantes que seguiram a Dieta Nórdica perderam três vezes mais peso que os restantes, tendo baseado a sua dieta num livro com 180 receitas e um menu que contemplava três planos distintos para cada dia. Os restantes participantes receberam um livro com 99 receitas baseadas na dieta vulgar praticada na Dinamarca e sem cuidados quanto à variação sazonal dos ingredientes.

Comparativamente, cada utilizador da Dieta Nórdica monitorizado consumiu menos calorias do que os praticantes da dieta tradicional. Na prática, em média, os primeiros perderam cerca de 4,7 quilos contra os 1,5 quilos dos segundos. Para além disso, registaram uma diminuição significativa em termos de pressão arterial sistólica (reduzida em 5.1 mm Hg) e pressão arterial diastólica (reduzida em 3.2 mm Hg).

Este último dado revela-se particularmente importante e foi uma das maiores vitórias da Dieta Nórdica de acordo com Thomas Meinart Larsen. "O estudo demonstra que a Dieta Nórdica proporciona uma série de benefícios para a saúde como a perda de peso e gordura corporal, assim como uma redução significativa da diabetes e riscos relacionados com problemas cardiovasculares", defende o especialista.

"Conseguimos resultados muito semelhantes como o que acontece com outras dietas como a Dieta Mediterrânica", afiança ainda. "Para além disso, os elementos que participaram no estudo ficaram, na generalidade, muito satisfeitos com a Dieta Nórdica, a qual descrevem como muito agradável ao palato" revela Thomas Meinart Larsen, lembrando que essa era uma das pretensões dos autores deste regime alimentar.

O imperativo de seguir um plano alimentar adequado

Muitas das vezes, o ritmo desenfreado e o stresse diário a que somos sujeitos leva-nos a consumir produtos que aumentam o risco de contrair uma série de doenças. É, por isso, cada vez mais urgente seguir um plano alimentar adequado como as já referidas dietas, como alerta Thomas Meinart Larsen, professor da Universidade de Copenhaga, nas muitas comunicações públicas que tem vindo a fazer ao longo do tempo.

"Independentemente de falarmos de uma dieta nórdica ou mediterrânica, apelo aos seus utilizadores que nunca as descurem e que evitem sempre produtos pouco saudáveis ricos em gorduras, açúcares, com poucas fibras e processados industrialmente. Tal como aconteceu no nosso estudo, sugiro que as organizações que apoiam a Dieta Mediterrânica a inovem através da invenção de outras e mais atraentes receitas", diz.

Além de ovos cozidos e de gorduras provenientes do óleo de girassol, do óleo de colza e da margarina vegetal líquida, o feijão e a ervilha fazem parte dos ingredientes a privilegiar. A lista inclui ainda chás, sumos naturais de fruta, salsa, rábano, molho vinagrete, molho de soja, fécula de batata, sal de baixo teor de sódio e produtos hortícolas. A batata também deve ser consumida, de preferência cozida.

A lista de frutas e vegetais, inclui variedades como a maçã, a pera, a ameixa, o repolho, a couve-flor, as couves-de-bruxelas, os brócolos, os espinafres, a cebola, a couve, o nabo, a cenoura e a beterraba, a par dos frutos secos, essencialmente a amêndoa. Em termos de produtos diários, além do leite magro e do leite fermentado, também entra o queijo fresco e o requeijão, também muito apreciados pelos portugueses.

Os seguidores da Dieta Nórdica devem ainda procurar ingerir quotidianamente cereais e sementes. Os especialistas na sua génese sugerem o recurso ao centeio, ao trigo, à aveia, aos flocos de cevada, à massa, aos grãos integrais, à linhaça e ao girassol. Por fim, em termos de peixe, essencial a esta dieta, o salmão, o arenque e a cavala são as espécies que os autores deste regime alimentar que se pretende alternativo mais recomendam.

Texto: Carlos Eugénio Augusto

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