Escrevo-vos diretamente do Hospital Santo António, no Porto, para vos contar uma parte da nossa história. Nos serviços farmacêuticos começaram a faltar vários produtos essenciais, como máscaras, luvas e desinfetante, à semelhança do que está a acontecer noutros hospitais.

Um cenário preocupante que se agravou quando nos deparamos que os laboratórios não tinham desinfetantes para nos entregar como é habitual, para posteriormente procedermos à sua distribuição. Quando os questionamos, os laboratórios declararam que não tinham produto para entrega, pois estavam esgotados dada a tamanha a solicitação por outros hospitais, farmácias ou outro tipo de empresas.

Isto não podia estar a acontecer. Um hospital não sobrevive sem coisas básicas como álcool para desinfetar as mãos. Tínhamos que rapidamente contornar a situação.

Um hospital não sobrevive sem desinfetante… Se não há, vamos produzi-lo
Equipa do Hospital Santo António créditos: Arquivo Pessoal Nuno Malafaia

Como solução para substituir o produto em falta, e não deixar que nenhum dos profissionais de saúde ficasse sem solução desinfetante para trabalhar, os Técnicos de Farmácia começaram a produzir solução alcoólica desinfetante. Estamos neste momento a produzir cerca 200 frascos por dia. Mas, para tal, tivemos que aumentar o consumo de determinadas matérias primas como o peróxido de hidrogénio, mais conhecido como água oxigenada, que é utilizado para produzir a solução alcoólica. Mais uma vez, nos deparamos com uma dificuldade.

O laboratório que usualmente nos fornece este produto, devido à escassez de recursos humanos e ao número elevado de encomendas que têm atualmente, não conseguem dar resposta à nossa solicitação. Portanto ficamos com a falha de uma matéria-prima que é essencial para a produção da dita solução alcoólica.

Quando souberam desta nossa problemática, os nossos colegas, Técnicos de Anatomia Patológica, propuseram-se a produzir eles próprios o peróxido hidrogénio, a matéria-prima em falta.

Confesso que nem eu sabia que era possível fazerem semelhante. E assim a produção não parou um único dia dado o trabalho de equipa, entre as várias equipas do hospital, e as várias áreas dos técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica.

Atualmente, o Centro Hospitalar e Universitário do Porto está a produzir no Hospital de Santo António solução desinfetante graças à mão de obra talentosa dos Técnicos de Farmácia com a contribuição muito especial dos Técnicos da Anatomia Patológica.

Para nós, esta é a nossa missão e é uma luta que nos recusamos a perder.

Um artigo escrito na primeira pessoa por Nuno Malafaia, Técnico Superior de Diagnóstico e Terapêutica no Hospital Santo António, no Porto.

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