Qual foi a sua reação quando soube que tinha cancro da mama?

Foi há oito anos, em 2011. O que me veio à cabeça é aquilo que todos nós pensamos quando ouvimos a palavra cancro. Pensei logo que ia morrer. Esse pensamento é inevitável… Mas eu fiz o meu processo e afinal estava errado. Hoje digo que quero chegar aos 90 anos.

Na generalidade, nós, homens, fechamo-nos e escondemo-nos o mais possível. Tendem a achar-se mais fortes do que as senhoras e que são intocáveis. Por ser cancro da mama, o homem considera que é uma doença exclusiva de mulheres e por isso acha que não pode divulgar a sua doença. Isso é um grande equívoco. Os homens têm mamas, portanto também podem ter cancro da mama e devem estar atentos, sobretudo porque não existe um rastreio dirigido à população masculina.

Só há um órgão que não pode ter cancro: o coração. De resto podemos ter dezenas de tipos de cancro
Sobreviventes de cancro da mama mostram as suas cicatrizes em sessão de fotos intimista
Sobreviventes de cancro da mama mostram as suas cicatrizes em sessão de fotos intimista
Ver artigo

Todos os anos são diagnosticados seis mil casos de cancro da mama e 45 a 50 casos são em homens. A incidência é tão pequena que não justifica um rastreio dirigido ao homem à escala nacional.

No seu caso, como detetou a doença?

Estava na cama, deitado, e tive comichão no mamilo. Foi nesse momento que detetei um nódulo. Cocei e senti uma protuberância. Apalpei a outra mama e não tinha nada. Sabia que o homem poderia ter cancro... Procurei a médica de família três dias depois. Fui visto e foi-me pedido uma ecografia mamária e uma mamografia. Foi aí que foi detetado o nódulo.

Hoje, pelo que sei, teria logo sabido que tinha cancro da mama. Há várias formas de descobrir que temos cancro da mama, como por exemplo detetar um nódulo, ter o mamilo repuxado, eczema ou corrimento mamário. As pessoas têm de estar atentas. Podemos ter cancro, sim. Ninguém está a salvo.

Só há um órgão que não pode ter cancro: o coração. De resto podemos ter dezenas de tipos de cancro.

Agostinho Branco
Agostinho Branco créditos: Pedaço de Mim, fotografia de Ana Paula Lopes (Ana Bee)

Qual foi o passo seguinte?

Foi-me feita uma biópsia e ao fim de poucos dias já tinha o resultado. Na altura trabalhava em Paços de Ferreira, apesar de já estar reformado. Deixei de trabalhar… Entrei no IPO do Porto cinco dias depois de ter a confirmação de que tinha cancro.

Eu tinha fobia ao IPO, porque perdi vários amigos com cancro. Fui submetido a uma série de consultas e exames. Ao final de um mês houve a chamada consulta de grupo, com os médicos das várias especialidades, e foi-me dada a sentença. Eu costumo dizer que é a roda sorte. E calhou-me o menu completo.

Estes são os sintomas de cancro mais ignorados pelos portugueses
Estes são os sintomas de cancro mais ignorados pelos portugueses
Ver artigo

O que é o menu completo?

O menu completo, na nossa linguagem, a linguagem do doente oncológico, é o tratamento completo, com a conjugação de várias terapias. Fiz uma mastectomia radical, ou seja, tiraram-me a mama esquerda, fiz o esvaziamento axilar de quatro gânglios. Após essa operação, fiz quatro sessões de quimioterapia e depois 25 sessões de radioterapia. Depois disso ainda fiz cinco anos de hormonoterapia.

Atualmente faz algum tipo de tratamento?

Não, já não. Hoje em dia faço a consulta de vigilância uma vez por ano.

Mas mantém-se ativo na luta contra a doença…

Sim, sou voluntário da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) e faço serviço no IPO porque é lá que estão os doentes. Sou voluntário há sete anos. Sou o único homem que teve o cancro da mama que é voluntário em todo o mundo.

Eu sei o que é entrar no IPO. Só o nome assusta e assusta a toda a gente. A palavra cancro está associada a morte
Qual destes gémeos é o fumador?
Qual destes gémeos é o fumador?
Ver artigo

Como é que um homem reage à sua presença?

A primeira reação é de admiração por verem um homem a dar a cara por esta doença. Dão-me os parabéns, mas eu não quero os parabéns. Eu quero é ajudar. Depois ficam curiosos e fazem-me muitas perguntas, mas nós queremos é que eles desabafem connosco.

No IPO do Porto, nós temos um gabinete e geralmente é lá que conversamos. Se estivermos na sala de espera, os homens não falam, não se sentem à vontade, mostram-se mais duros do que realmente são... Quando entram na sala, choram e desabafam. Mas chorar faz bem.

O que lhe dizem?

Os homens sentem-se desesperados, têm medo de não ter tempo para educar os filhos e de morrer. Eu sei o que é entrar no IPO. Só o nome assusta e assusta a toda a gente. A palavra cancro está associada a morte.

Agostinho Branco
Agostinho Branco créditos: Sweet October, Reflexões de Empatia sobre as Marcas de uma Batalha, fotografia de Ana Paula Lopes (Ana Bee)

Tem alguma sequela da doença?

Não fiquei com nenhuma sequela. Tinham-me dito que poderia ficar com o braço preso por causa do esvaziamento axilar. Mas não fiquei. Tenho menos força, maior sensibilidade no braço, e devo evitar fazer movimentos perigosos com esse braço. Não tiro sangue neste braço (o esquerdo), por exemplo. Como me tiraram os gânglios linfáticos, que são importantes para o sistema imunitário, tenho de evitar ao máximo complicações nesse membro porque estou mais suscitável a contrair e desenvolver infeções.

E relativamente ao tratamento?

O pior efeito secundário aconteceu durante a hormonoterapia que durou cinco anos. A hormonoterapia afeta a parte sexual. Comecei a ter dificuldades na ereção e o sexo deixou de ser na mesma quantidade e qualidade.

Em relação à quimioterapia, não devo dizer se é má ou se é boa. Cada caso é um caso. Se eu tive um sintoma, não quer dizer que o outro também o tenha. A quimioterapia é um cocktail de medicamentos que é adequado a cada pessoa de forma individual.

Eu costumo mesmo dizer aos doentes que não ouçam muito o que se diz na sala de espera. Porque cada caso é um caso. Algumas pessoas reagem muito bem, outras têm vómitos, cãibras ou dores terríveis.

Mulher descobre cancro em câmara térmica de atração turística
Mulher descobre cancro em câmara térmica de atração turística
Ver artigo

Há doentes que dizem coisas a mais, mas a troca de informações por outro lado também pode ser boa, porque as pessoas em alguns casos podem motivar-se umas às outras.

Qualquer coisa, qualquer sintoma, estou logo a bater à porta do médico. Não quero saber se sou chato

E que mensagem gostaria de deixar a alguém com cancro?

Há uma coisa que as pessoas tem de perceber: 50% do sucesso da nossa sobrevivência está na nossa mente; os outros 50% estão nos médicos que nos assistem. Temos de ter força, não nos podemos deixar ir abaixo. Se isso acontecer é muito pior para a sobrevivência. Não falo em cura, porque não há cura para o cancro. As pessoas devem procurar ajuda, falar, chorar e acreditar no seu tratamento.

A ameaça de cancro ainda paira pela sua cabeça?

Sim, claro. Não estou curado. Sou um sobrevivente. Por outro lado, por ter ultrapassado esta situação, não quer dizer que tenha esquecido a doença. Não, não esqueço. Nós, doentes oncológicos, temos um maior risco de contrair outro cancro do que qualquer outra pessoa que nunca teve cancro. Por isso mantenho-me vigilante.

Qualquer sintoma que tenha, não paro e vou à procura de um médico. O cancro, quanto mais precocemente for diagnosticado, mais fácil é o seu tratamento. Não é tão agressivo. Qualquer coisa, qualquer sintoma, estou logo a bater à porta do médico. Não quero saber se sou chato.

Artigo originalmente publicado a 30 de outubro de 2019.

Newsletter

Receba o melhor do SAPO Lifestyle diariamente no seu email.

Notificações

Os temas mais inspiradores e atuais estão nas notificações do SAPO Lifestyle.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.