As halófitas são plantas comestíveis que nascem e vivem junto à água salgada, em sapais como a Ria Formosa, ambientes extremos cujas condições desencadeiam mecanismos de defesa que fazem com que as plantas concentrem uma elevada qualidade nutricional e outros benefícios para a saúde.

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“Por viverem em condições muito agressivas, acabam por desenvolver todo um conjunto de compostos químicos que são benéficos para a nossa saúde, compostos que são antioxidantes, como algumas vitaminas”, explica à Lusa a coordenadora científica do projeto “Xtreme Gourmet”, Luísa Barreira.

Analisar o perfil das plantas para perceber o seu potencial

No laboratório do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da UAlg, investigadores analisam o perfil nutricional das plantas em termos de proteínas e lípidos, mas também o perfil de ácidos gordos, de minerais, o tipo de fibras que contêm e fazem ensaios que permitem comparar a atividade antioxidante entre várias plantas.

A especialista em Biotecnologia Marinha revela que a equipa está a procurar a possibilidade de os extratos preparados destas plantas terem atividade antidiabética, ou seja, capacidade para inibir algumas enzimas que existem no organismo e que são o alvo das terapias antidiabéticas.

De acordo com a investigadora, devido ao sal estas plantas – entre as quais, a salicórnia (a mais conhecida), os “sea fingers” (dedos do mar) ou a ínula - possuem também minerais em quantidades elevadas, alguns deles essenciais ao organismo, como o ferro e o manganês.

Enquanto Luísa coordena o controlo das propriedades nutricionais e químicas, o engenheiro agrónomo Miguel Salazar desenvolve os métodos de cultura das plantas em estufa, testadas depois para consumo por um conjunto de dez ‘chefs’ de cozinha, coordenados por Leonel Pereira.

Há muitos anos que o ‘chef’ Leonel Pereira, coordenador do grupo de chefes que avalia as plantas, usa as halófitas nos seus pratos, com lugar de destaque nos menus que prepara no seu restaurante em Almancil, detentor de uma estrela Michelin.

Apesar de estas plantas terem como ponto forte salgar a comida, como uma alternativa mais saudável do que o sal, Leonel Pereira lamenta que as halófitas, muitas vezes, estejam apenas reduzidas a esse papel e enaltece as suas características cítricas, que dão subtileza aos pratos.

“Como crítico e como coordenador do projeto, estou sempre a pedir às pessoas e aos chefes para não olharem para elas como simples decoração ou porque sabem um bocadinho a sal, até porque o nosso manual de avaliação tem muitos outros pontos”, explica.

O essencial, defende, é “ser criativo” e “olhar para o produto”, tendo a sensibilidade de perceber que planta se deve usar em cada prato – Leonel Pereira recomenda que se use mais com peixe e marisco - já que por vezes pode haver combinações desastrosas.

Por seu turno, Miguel Salazar, proprietário da empresa que comercializa as plantas, espera conseguir que as halófitas sejam consumidas de uma forma mais frequente, trabalhando no desenvolvimento de técnicas de cultivo que as tornem mais saborosas e benéficas, em termos de saúde.

No que respeita à salicórnia, que é a planta mais conhecida, o engenheiro agrónomo acredita que é uma “questão de tempo” até que entre na rotina alimentar das pessoas, à semelhança da rúcula, “que era uma grande desconhecida e agora é habitual nas nossas mesas”.

O “Xtreme Gourmet” iniciou-se há um ano e meio e é um projeto de investigação e desenvolvimento apoiado pelo Algarve CRESC 2020.

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