Dia 20 de um mês que parece não querer terminar. Ligo o carro e preparo-me para percorrer sessenta quilómetros de estrada vazia, que se multiplicam por dois, ao regresso. Eu, o barulho do motor e aquele vento, que teima em assobiar para se fazer sentir já que, ultimamente, poucos saem de casa para o experienciar. Os poucos transeuntes com quem me cruzo olham-me com desdém como se, deliberadamente, estivesse a furar a quarentena, colocando-os em risco. Os semáforos continuam a cumprir horários e a fazer de conta que são essenciais para lidar com o trânsito de uma hora de ponta com dois carros.

Ligo a rádio. Oiço risos forçados de quem quer aparentar que tudo está bem, apelando a uma normalidade que já foi. Emissões feitas a partir de casa (porque o mundo não pode parar!), com vozes entrecortadas e um delay que nos relembra o quão fisicamente afastados andamos.

O pequeno vírus trouxe o medo, que faz questão de nos avivar a memória de que somos primatas, espoletando um instinto animal de sobrevivência. O mundo tornou-se, momentaneamente, numa selva onde cada um tenta proteger-se, usando argumentos que me forço a não ouvir. Tentam auto convidar-se a não pertencerem a equipas de risco, como se apelassem a não quererem fazer parte da solução. Talvez exista a imaturidade dos meus 31 anos que, aliada ao factor de risco de ser do sexo masculino (que ainda me agudiza a infantilidade), faz com que só queira contribuir para devolver aquele passado em que éramos felizes, mas não tínhamos tempo para nos lembrarmos disso.

É o mundo a banalizar o conceito do jogador de futebol que fecha a Gucci para estar à vontade a fazer compras, tornando os legumes e o leite que trago debaixo do braço, numa pochete da Louis Vuitton

Restam-nos as equipas de trabalho que são, agora, família. Os turnos rotativos ajudam a dar resposta à exigência dos tempos e o trabalho ao fim-de-semana faz parte da normalidade. É certo que perdemos a conta aos dias mas, convenhamos, o fim-de-semana tornou-se apenas em mais dois.

A prática clínica rege-se entre os possíveis infectados e os infectados, sem esquecer quem também adoece por outras coisas – como se o fizesse em má altura.

Os supermercados fazem-nos sentir estrelas à escala mundial. Só pode entrar um número limitado de pessoas, como se de uma loja de luxo se tratasse. De certa forma, é o mundo a banalizar o conceito do jogador de futebol que fecha a Gucci para estar à vontade a fazer compras, tornando os legumes e o leite que trago debaixo do braço, numa pochete da Louis Vuitton.

Começamos a entrar na ressaca da presença, na ressaca do abraço, do beijo e do apertar de duas mãos apaixonadas

As pessoas estão estranhas e estranham-se. Talvez seja o pânico a apoderar-se, misturado com os efeitos de uma quarentena que nos torna cada vez mais solitários. A distância faz com que nos sintamos cada vez mais obscuros, com uma inadaptação que tende a deixar marcas. O toque de que nos privam, era o mesmo que nos mantinha unidos e era parte integrante uns dos outros.

O afecto físico faz-nos falta. Pior do que ser obrigado a viver enclausurado entre quatro paredes é viver enclausurado num corpo, com a barreira física de não nos podermos sentir. Resta-nos verbalizar o afecto que apenas parece ser suficiente, numa fase inicial. Começamos a entrar na ressaca da presença, na ressaca do abraço, do beijo e do apertar de duas mãos apaixonadas. A única coisa que nos liga é a voz e aquele olhar que, entre estranhos, tem também o poder de nos afastar mais do que os dois metros obrigatórios.

Toda esta azáfama e incerteza é pautada por pequenos momentos de humor, que não são mais do que grandes provas de que estamos a reagir e que vamos sabendo lidar com isto. Há, no entanto, quem caia no erro de apelar a não brincarmos com coisas sérias. É importante que não esqueçamos nunca que o riso é aquilo que nos distingue dos animais. E de Deus, também. Essa sumidade que este ano, ao que tudo indica, meteu as férias todas de uma só vez.

Carlos Vidal é médico e humorista e escreve no SAPO Lifestyle às sextas-feiras.

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