Conhecia o meu avô há trinta e dois anos e há trinta e dois anos que me avisava que ia falecer. Todos os anos eram definitivos. Todos os aniversários eram o último. A merda é que, desta vez, teimou em acertar. O meu avô foi ganhando tempo ao destino, com pequenos contratos que fazia com Deus. Ora queria ver os netos formados, ora os queria ver com emprego, ora queria ver um bisneto, ora queria ver dois. Nunca pedia coisas muito grandes, nem muita coisa ao mesmo tempo, sob pena de incomodar o Senhor. Ganhava-se nestas pequenas conquistas e conseguia ludibriar a sina. O problema é que, a certa altura, focou-se cada vez mais no que valia a pena, esquecendo-se de acertar as contas com o Criador, e Este levou-lhe a melhor.

O meu avô adorava a vida e a sua grande luta era vencer-lhe. Aos oitenta e muitos anos disse-lhe que, pelas minhas contas, ele ainda ia viver mais vinte. Olhou-me com desânimo, proferindo a frase “Pronto, já sabia. É pouco”.

Chorar a perda de um avô é dilacerante e a história perde-se em ciclos que se vão fechando, aos poucos. Ser avô é viver-se de números, como os noventa e um anos de vida ou os sessenta e nove anos de casado, como se de um hino ao amor se tratasse. As pessoas teimam em tornar a dor de perder um avô como expectável, como se se tornasse menos válida por isso. Tentam falar-nos ininterruptamente sobre a “lei da vida”, como se houvesse uma legitimidade na perda pela idade. Quando se falar no meu avô, vou sempre perder a racionalidade em prol da emoção. Porque é meu e esse sentimento de posse permite tudo.

Escrevo-te hoje, uma semana depois da ingratidão do mundo, onde me tento erguer por entre os cacos em que me encontro. Nunca pensei falar-te assim, mesmo sabendo da triste sina da vida. Um dos grandes problemas em ser-se médico é que, apesar de ganhar muitas batalhas, sei sempre que vou perder a última. Por comparação, saio vencedor. Por consagração, sou um derrotado anunciado.

Carlos Vidal com o avô
Carlos Vidal com o avô créditos: Arquivo pessoal Carlos Vidal

A sorte é que o mundo te foi deixando por cá, permitindo-me ver-te todos os dias nas mãos do meu sobrinho, no sorriso do meu pai, no olhar da minha avó, neste meu choro de despedida parecido com o que fazias à nossa chegada. No respeito, na honestidade, na hombridade.

Estas são algumas das palavras que não te consegui dizer na semana passada. E que me custam dizer-te hoje, por entre este desassossego e esta inquietação. Quis tanto fazer um texto perfeito e que te merecesse, que acabei perdido nas palavras, exausto de procurar as mais bonitas. E são tantas.

Apercebi-me que a morte não fala porque, convenhamos, não tem legitimidade para tal. Aparecer só no fim, resume-lhe o perfil e revela-lhe a cobardia. Vou falar sempre da vida do meu avô e nunca da sua morte, porque viveu noventa e um anos e só morreu numa fracção de segundo.

Há dias perguntavam-me o que é que achava que acontecia depois. Respondi que apenas sei o que aconteceu antes e agradeço-lhe tanto por isso.

Faz hoje sete dias que não te despediste de mim e isto não fica assim. E sei que não o fizeste porque só vais desaparecer quando eu quiser. Amo-te muito, meu querido avô Aires.

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