SAPO Lifestyle: É médico pediatra, mas também tem veia de escritor e historiador... Como surgiu o interesse em reunir esta informação em livro?

Mário Cordeiro: Comecei a escrever antes de seguir medicina. Desde criança que escrevi poemas e contos, e até um jornal "de família". O gosto pela História vem do facto de ter tido bons professores, mas antes mesmo disso, ter tido um pai e um avô que me entusiasmavam para a compreensão dos fenómenos históricos como passaporte para compreender o presente e gizar o futuro, e desde cedo habituei-me a ler livros de História e biografias. Quando, há 3 anos, escrevi o livro "Júlio Gonçalves - de Goa a Lisboa", que é um livro biográfico sobre o meu avô materno, achei que, sendo ele também médico, valeria a pena investigar a vida de outros colegas que "foram mais do que médicos" - o resultado foi este, mesmo que com lacunas, claro.

O médico
"Príncipes da Medicina", de Mário Cordeiro, Editora Saída de Emergência créditos: DR

SAPO Lifestyle: Porque decidiu chamar-lhes "Príncipes"? É o estilo eclético? Ou é também o brio e sabedoria profissional?

Mário Cordeiro: Príncipe no sentido do carácter nobre, honrado, elegante e empenhado nas coisas, com elevado sentido ético. O ecletismo também, dado que um verdadeiro príncipe o deve ter. Depois, como os príncipes encantados das histórias infantis, a nobreza de carácter. Finalmente, e nada tem a ver com os atuais príncipes que enxameiam as revistas cor-de-rosa, a elevada estatura moral e ética.

Hoje, infelizmente, perdeu-se em muitos casos o sentido do doente, da pessoa, que deverá ser o primeiro objetivo da profissão, e olha-se para ela como quase um estorvo

SAPO Lifestyle: Para além da paixão pela medicina e sucesso profissional, encontra características comuns na personalidade destes médicos?

Mário Cordeiro: Sim. Sentido do dever, da dádiva, do profissionalismo, rigor e entrega. Foram, na maioria dos casos, vidas sofridas, difíceis, mas entusiasmantes, em que cada conquista era custosa e exigia que se transcendessem.

SAPO Lifestyle: Qual é para si o príncipe "mais príncipe da medicina"? Consegue destacar algum?

Mário Cordeiro: Será difícil. Todos eles o foram. Claro que o meu avô terá sempre um lugar especial, pelo seu ecletismo e idealismo, mas será injusto dizer que uns foram melhores do que os outros. Para, contudo, dar um exemplo do que é abnegação e persistência, refiro Semmelweiss, que foi demitido, expulso, ostracizado e acabou num manicómio, sendo morto na sequência de tareias dadas pelos guardas do asilo psiquiátrico, por ter defendido que os médicos lavassem as mãos antes de observarem um doente.

SAPO Lifestyle: Como vê a evolução da profissão ao longo dos anos? De Imhotep, ao barbeiro-cirurgião e ao médico tal como o conhecemos hoje.

Mário Cordeiro: Muito se evoluiu em termos técnicos - será impossível comparar os tempos dos faraós com o século XXI. Todavia, o que esses homens conseguiram fazer, descobrir, inventar, com os recursos escassos que tinham e a falta de apoio dos poderes vigentes, é absolutamente extraordinário. Hoje, infelizmente, perdeu-se em muitos casos o sentido do doente, da pessoa, que deverá ser o primeiro objetivo da profissão, e olha-se para ela como quase um estorvo ao exercício da profissão, um pouco ao estilo de "que bem funcionariam os serviços se não houvesse doentes". É pena, mas os valores materiais e a cupidez tendem a esmagar o humanismo e o iluminismo.

SAPO Lifestyle: Acha que houve uma alteração na forma como a sociedade olha para a classe médica? Como classifica hoje essa perceção?

Mário Cordeiro: Num bom sentido, houve a mudança de se pensar que um médico não é um Deus, um sabe-tudo, ou a frase "o médico mandou isto e aquilo", mas também se passa de vez em quando para o oposto, que é a Dr.ª Internet ou o Dr. Google, somados aos enfermeiros facebook e blogues de mães saberem mais do que os médicos.

SAPO Lifestyle: O que é para si um bom médico?

Mário Cordeiro: Alguém que estuda, se atualiza, gasta tempo em ler revistas e a procurar conhecimento, que usa o bom-senso, que vê a pessoa e as suas circunstâncias para lá da doença, e que é humilde, que propõe, que negoceia, que gasta tempo com os seus pacientes e não os vê como uns maçadores. Por outro lado, no que toca à pediatria, que é a minha especialidade, acho difícil conseguir exercê-la bem sem conhecimentos de psicologia, antropologia, sociologia ou ciências da educação. E até filosofia e ética.

SAPO Lifestyle: É difícil e ingrato generalizar. Mas os valores que regem e guiam hoje os clínicos mudaram? Ou alguns mantêm-se desde a antiguidade?

Mário Cordeiro: Não se pode generalizar e a minha costela de epidemiologista, resultante de ter sido professor de Saúde Pública durante mais de 20 anos, obriga-me a não fazer afirmações do estilo "os portugueses isto e aquilo". Mas, na minha fantasia, diria que muitos médicos dão o seu melhor e fazem muito bem o seu caminho, sendo excelentes profissionais, a outros falta a dimensão mais humanista e holística, finalmente, como em todas as profissões, haverá os que estão no lugar errado... Mas, no geral, estou convicto de que temos uma boa Medicina, em Portugal, e que se as condições dadas aos médicos fossem mais e melhores, eles desempenhariam ainda melhor a sua função.

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