A Maria Isabel tem 46 anos e é, há nove anos, uma ex-fumadora de mais de 20 cigarros por dia durante cerca de 20 anos. Continua a marcar uma consulta por ano e, em cada consulta, eu continuo a felicitá-la, com grande entusiasmo, por ter deixado de fumar em definitivo.

Mas, em cada consulta, ela continua a contar-me que sente muito a falta do cigarro depois do café, depois das refeições, quando conversa com amigos ou familiares, quando se sente mais ansiosa ou pressionada: “E o prazer que sentia com o cigarro na mão, ao acendê-lo, o cheiro a tabaco queimado? Nada substituiu, nem me faz esquecer esse prazer.”

Qual destes gémeos é fumador, apanhou mais sol ou esteve sujeito a mais stress?
Qual destes gémeos é fumador, apanhou mais sol ou esteve sujeito a mais stress?
Ver artigo

Lembra ainda que quando fumava tinha menos apetite, se sentia mais excitada e bem-disposta e tem a sensação de que o seu intelecto funcionava melhor. Claro que concorda que estes efeitos do tabaco duravam pouco tempo e que precisava de continuar a fumar para que persistissem, e que sentia necessidade de fumar cada vez mais para obter os mesmos efeitos. Também nunca se esqueceu que a fase mais difícil, depois de abandonar o consumo, foram os primeiros dois meses, em que sentiu as consequências da dependência da nicotina motivada pelo hábito prolongado de fumar, praticamente todos os sintomas de abstinência: ânsia de fumar, irritabilidade, aumento do apetite, melancolia, alteração do sono, diminuição da capacidade de raciocínio e de concentração e ansiedade.

Em vários momentos sentiu uma enorme vontade de voltar a fumar. Com ajuda clínica resistiu e não quer voltar a passar por isso. Reconhece a nicotina como uma droga que provoca dependência física, provavelmente tão intensa como a dependência da heroína e da cocaína, o que torna muito difícil suspender o seu consumo, e concorda que se deve considerar a dependência da nicotina uma doença que precisa de ser diagnosticada e tratada.

Mas sabe também que as consequências do consumo do tabaco vão para além da dependência da nicotina e que os principais riscos do consumo do tabaco se manifestam a longo prazo. E lembra que, nove anos depois de deixar de fumar, além de sentir que respira melhor e de já não tossir, o risco de sofrer de enfarte agudo do miocárdio, de acidente vascular cerebral, de cancro da boca, de cancro da garganta, de cancro do esófago, de cancro do pâncreas e de cancro da bexiga já está próximo do risco de quem nunca fumou.

Sabe também que o seu risco de morte por cancro do pulmão é agora aproximadamente metade do risco que teria se continuasse a fumar. Sabe que deixou de ter um risco aumentado de infeção respiratória e pneumonia. Também não tem vontade de voltar a contribuir para que todos estes riscos aumentem e por isso não vai voltar a fumar.

Para reforçar as vantagens de não voltar a fumar, nesta altura da consulta voltamos a falar sobre as consequências do consumo do tabaco. O tabaco contribui significativamente para as principais causas de morte no mundo (doença isquémica cardíaca; doença vascular cerebral; doença pulmonar obstrutiva crónica; pneumonia; cancro do pulmão; diabetes mellitus; tuberculose), e mais de metade dos fumadores morrem por doença relacionada com o consumo do tabaco.

É conhecido que os fumadores vivem em média menos cerca de 11 anos que os não fumadores e que o seu risco de morrer até aos 60 anos é 6 por cento superior, até aos 70 anos é 15 por cento superior e até aos 80 anos 32 por cento superior ao dos não fumadores.

15 truques para deixar de fumar num ápice
15 truques para deixar de fumar num ápice
Ver artigo

Fumar aumenta a probabilidade de desenvolver doenças crónicas que prejudicam a qualidade de vida, como doença respiratória crónica (bronquite crónica; enfisema pulmonar; doença pulmonar obstrutiva crónica; bronquiectasias), doença cardiovascular crónica (insuficiência cardíaca; insuficiência arterial periférica), doença cerebral (acidente vascular cerebral; demência), doenças da boca (gengivites; periodontites; cáries; perda de dentes; alteração da coloração dos dentes), osteoporose, diminuição e perda de visão, envelhecimento precoce da pele, redução da fertilidade feminina e impotência.

O tabaco aumenta o risco de cancro respiratório (nariz; garganta; pulmão), digestivo (esófago; estômago; pâncreas; fígado; cólon), ginecológico (colo do útero; ovário), urinário (bexiga; próstata; rim; ureter) e da medula óssea.

A história da Maria Isabel e o conhecimento dos efeitos do consumo do tabaco explicam porque é que o tabaco é uma armadilha fatal, mas sobretudo obrigam a que se reconheça a dificuldade que é deixar de fumar, apesar do conhecimento das suas graves consequências, e se valorize a vitória dos ex-fumadores sobre a dependência da nicotina, a grande responsável pela dependência do tabaco.

Um artigo do médico Alfredo Martins, internista e coordenador do Núcleo de Estudos de Doenças Respiratórias da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.

Newsletter

Receba o melhor do SAPO Lifestyle diariamente no seu email.

Notificações

Os temas mais inspiradores e atuais estão nas notificações do SAPO Lifestyle.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.