A doença renal crónica (DRC) é um problema grave de saúde pública no mundo inteiro. Em Portugal, o seu impacto é muito significativo, tendo em conta que a sua prevalência ultrapassa a média mundial e europeia.

A DRC altera profundamente o metabolismo nutricional e a desnutrição é uma das complicações mais frequentes. A sua expressão é bastante significativa nos graus mais avançados da doença renal, sendo apontadas prevalências que rondam os 20 a 40% nos estádios 3 e 4 e que podem atingir os 75% no estádio 5 que antecede a diálise. São várias as razões que explicam a deterioração do estado nutricional que comumente acompanha a progressão da DRC. A acidose, a inflamação crónica, o stress oxidativo e a resistência periférica à insulina, são alguns dos fatores que promovem o catabolismo muscular e o sobrepõem à síntese proteica. A uremia característica da doença renal inibe o apetite e reduz a ingestão alimentar, que por sua vez também é comprometida pelas restrições alimentares inerentes à gestão nutricional da DRC. A prevalência elevada de desnutrição na doença renal pré-diálise resulta assim de um sinergismo entre a anorexia e diminuição da ingestão alimentar e o aumento do catabolismo proteico, potenciado pela acidose e estado inflamatório latente que caracteriza estes doentes.

Tal como noutras patologias, as consequências da desnutrição na doença renal são devastadoras, em termos de qualidade de vida, autonomia funcional, morbilidade, hospitalização e mortalidade. Adicionalmente e na situação específica da doença renal, o estado nutricional no início da diálise é determinante para o sucesso da terapêutica dialítica e pode mesmo condicionar a elegibilidade do doente para transplante renal. É por isso fundamental prevenir e intervir na deterioração nutricional associada à progressão da doença renal. E isso assenta em dois pilares essenciais da intervenção nutricional pré-dialítica: individualizar as restrições alimentares a cada doente e suplementar com o que faz falta, sem causar dano.

O aconselhamento alimentar e a intervenção nutricional são componentes essenciais na gestão dos doentes com DRC. No entanto, um número significativo de restrições alimentares é imposto de forma tradicional e uniforme a todos os doentes renais, sem que sejam efetivamente necessárias, adaptadas e benéficas. É por isso imperioso, disponibilizar a cada doente uma intervenção nutricional personalizada, que respeite as suas preferências alimentares e que esteja devidamente adaptada à sua função renal.

Por outro lado, algumas recomendações alimentares, por vezes altamente restritivas, são efetivamente necessárias, uma vez que permitem atrasar a progressão da doença renal, controlar a hipertensão arterial e corrigir a hipercaliémia e a hiperfosfatémia. Alimentos ricos em proteínas e fósforo, como carne, peixe e produtos lácteos têm de ser limitados; alimentos “saudáveis” como frutos e produtos hortícolas são também restritos face ao seu conteúdo em potássio. Encontrar alimentos “permitidos” para satisfazer as necessidades energéticas e nutricionais diárias não é uma tarefa fácil. E nesse contexto, as alternativas seguras e adequadas passam frequentemente pela suplementação nutricional oral, com fórmulas renais específicas, enriquecidas em energia e com baixo teor de sódio, potássio e fosfato. Os benefícios da suplementação nutricional oral nas situações que a ingestão alimentar não é suficiente, está mais do que advogada em estudos realizados e documentos de consenso. Está nas nossas mãos agir. E modificar a trajetória nutricional do doente renal, de forma a atenuar as consequências deletérias da desnutrição em todo o seu percurso.

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