A infertilidade, enquanto condição caracterizada pela inexistência de uma gravidez na presença de relações sexuais regulares, sem uso de contraceção durante um ano, tende a surgir como algo inesperado para a maioria das pessoas. Quando o desejo de ter um filho emerge de uma forma mais definida, habitualmente não estão à espera de encontrar dificuldades. De facto, a infertilidade corresponde a um acontecimento adverso a uma trajetória desejada por muitos, e que inclui a parentalidade biológica.

Face a um diagnóstico de infertilidade, respostas emocionais de ansiedade, stresse e depressão tendem a surgir como elementos reativos ao diagnóstico em si e às implicações do tratamento médico. Sentimentos de vulnerabilidade, medo e perda/luto são também frequentemente reportados. Tratando-se de uma situação muito desafiadora, é expetável que desencadeie reações emocionais, e não há problema nisso. As emoções fazem parte da condição humana e cumprem uma função. É natural experienciar emoções como a ansiedade, o medo, a raiva, a tristeza, de forma transitória. E é isto que acontece com a maioria das pessoas quando se vê confrontada com uma situação que envolve ameaça (ao desejo de se tornar mãe/pai), perda (da idealização de que ter um filho seria um processo simples), medo (do que o futuro reserva a este respeito). Há que estar atento é quando estes estados emocionais se intensificam e persistem por períodos de tempo mais longos. Com efeito, ainda que saibamos que, na generalidade, as pessoas acabam por se ajustar psicologicamente, cerca de 30% desenvolvem dificuldades psicológicas clinicamente relevantes e que interferem de forma significativa com as suas vidas, sendo as mais frequentes perturbações depressivas e de ansiedade.

Um aspeto também a realçar é que a infertilidade acaba por influenciar a vida das pessoas em diversas áreas como a da relação conjugal (caso exista), da relação com a família de origem (há pais que também gostariam de ser avós), com os amigos (sobretudo com os que vão brevemente ser pais ou já são pais), no trabalho (faltas para realizar exames médicos e tratamento).

Do ponto de vista psicológico, a mente não influencia propriamente um diagnóstico ou o resultado de um tratamento de infertilidade. Influencia sim o significado que a pessoa lhe atribui e o modo como lida com esse diagnóstico e com os diferentes momentos e exigências de um tratamento médico. Por exemplo, sabe-se que a “sobrecarga” emocional pode levar ao abandono precoce dos tratamentos, quando as pessoas se sentem incapazes de prosseguir por estarem exaustas psicologicamente.

As consultas de psicologia poderão fazer parte de todo o processo de tratamento, ainda que se possam revelar mais úteis em determinadas etapas ou fazer mais sentido para algumas pessoas. Neste contexto, e numa fase inicial, poderão promover a normalização de estados emocionais, a expressão de preocupações, dúvidas ou expectativas, a par com a receção de apoio e aceitação, constituindo um espaço privilegiado para esse efeito. Noutras fases do tratamento poderão focar-se na ajuda no processo de tomada de decisões ou na clarificação de valores, quando existe o confronto com a necessidade de fazer escolhas, como o recurso a gâmetas de dador ou o término do tratamento.

A Associação Portuguesa de Fertilidade tem à disposição dos seus associados, desde 2011, uma rede de psicólogos com formação e experiência específicas na área da infertilidade (https://apfertilidade.org/apoio-psicologico/).

Um artigo da psicóloga Ana Galhardo, doutorada em Psicologia Clínica, coordenadora da Rede de Apoio Psicológico da APFertilidade, docente no Instituto Superior Miguel Torga e investigadora do CINEICC da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

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