Sabem aquela sensação de meter a chave na porta de uma casa que não nos pertence e ela abrir? Pois, nem eu. Certo é que os meus vizinhos estão todos diferentes e isso criou-me algum desnorte. Não me importaria que a quarentena os tivesse tornado irreconhecíveis, se não fosse eu a sofrer directamente com isso.

A primeira vergonha que passei esta semana, foi com os vizinhos do 1º esquerdo. Sabem aquela teoria de que casais apaixonados, com relacionamentos duradouros, ficam com muitas parecenças entre si? Talvez tenha deixado que essa premissa se tenha apoderado do meu discernimento. Dei por mim a cumprimentar a dona Antónia tendo ouvido um “olá” com uma voz mais grossa do que a minha. Credo. Como é que eu podia adivinhar que o cabelo do senhor João, seu marido, cresceria tanto num mês?

O vexame prosseguiu com a Madalena, do 3º direito, que não se acomodou com as interdições desta fase. Possuidora de um metro e oitenta de um tremendo bom aspecto, aliado a umas dimensões voluptuosas em zonas faseadas do corpo e detentora de um cabelo loiro de nascença – julguei eu. Gabei-lhe a cabeleira e os cuidados com a peruca em tempos de privação e não tardei a receber um olhar reprovador. Julguei que a Madalena tivesse ido contra todas as tendências de moda e, ao invés de ir pelo caminho fácil de mudar a cor do cabelo, tivesse pintado apenas as raízes de preto. Se me parece um trabalho difícil para profissionais realizarem em terceiros, imagino para a Madalena realizar a si própria. A minha vénia.

A humilhação continuou com a Joana, filha do casal do 2º direito. Ao vê-la sair com roupa de desporto, elogiei o facto de se manter activa, quanto mais não seja pelas aulas de zumba disponíveis online. Percebi que, afinal, só tinha ido abrir a porta ao irmão, que tinha ficado sem chave e que a roupa que julguei ser de desporto não era mais do que umas leggings de pêlo e uma sweat de penugem. Estava de calções e t-shirt. É o que dá a esteticista não constar nos serviços mínimos do plano de emergência. Ainda bem que não lhe perguntei nada sobre a nova moda de só se pintarem as unhas do meio para a frente.

No meio de tudo isto, houve coisas boas. O Rui e a Diana, que têm o apartamento mesmo por cima do nosso, trouxeram-nos comida que confecionaram. Agradeci o cogumelo recheado, claro. Como é que ia adivinhar que aquilo era um molotof? O problema desta quarentena é que toda a gente se julga pasteleiro ou padeiro. É que fazer receitas da internet pela primeira vez e oferecê-las sem as testar, não os torna bons anfitriões e, muito menos, bons cozinheiros. Se é para se entreterem, nada contra. Mas quando isto terminar, alguém tem de os alertar para isto não se tornar na próxima epidemia.

No prédio onde moro, a única pessoa que se safa é a Tânia, do rés-do-chão direito. Se calhar é por ser do teatro que tem outra visão do mundo. Ah, esperem. Disseram-me agora que, afinal, não é nada ligada às artes. Está é com as sobrancelhas tão desorientadas, de não as fazer há um mês, que quase fazem crer que têm uma personalidade tão vincada que conseguem dominar as expressões daquela cara que habitam.

Assim como quem não quer a coisa, alguém sabe se o país abre portas antes da próxima reunião de condomínio? É para um amigo.

Carlos Vidal é médico e humorista e escreve no SAPO Lifestyle às sextas-feiras.

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