Atualmente, estão em casa mais de um milhão de alunos, do 1.º ao 12.º ano, depois da suspensão das aulas presenciais em 16 de março, devido à pandemia da covid-19, uma medida que o Governo vai manter até ao final do ano letivo para todo o ensino básico e 10.º ano. Mas para muitas crianças e jovens, estudar sem ir à escola já é normal.

Segundo os dados mais recentes do Ministério da Educação, no ano letivo passado (2018/2019) estiveram inscritos em regime de ensino doméstico 859 alunos.

É o caso dos filhos de Alexandra Nascimento, Susana Pinto e Laura Ramos, três mães ouvidas pela Lusa que viram no ensino doméstica uma alternativa à educação formal, e que concordam que uma das grandes vantagens deste modelo é permitir o maior acompanhamento da educação das crianças e o reforço dos laços familiares.

“O ensino doméstico é muito diferente daquilo que as famílias estão a viver neste momento porque o projeto pedagógico é desenvolvido por nós, ou seja, apesar de estamos todos obrigados a um currículo nacional único, não seguimos a programação da escola”, explica Alexandra Nascimento, que é também vice-presidente da Associação Nacional de Pais em Ensino Doméstico (ANPED).

Alexandra tem quatro filhos, o mais velho com 10 anos, e nunca nenhum andou na escola. Esta foi uma decisão que acompanhou uma série de outras escolhas tomadas em função daquilo que tinha pensado para a sua vida familiar e, no caso da educação dos seus filhos, queria uma opção que “permitisse respeitar o ritmo de cada um”.

“Uma das coisas mais aliciantes do ensino doméstico é a possibilidade de fazer um percurso mais individualizado, ao ritmo e de acordo com os interesses deles”, afirma, considerando que este modelo permite ter acesso a um maior leque de opções de aprendizagem.

O filho mais velho de Laura Ramos tem 7 anos e iniciou em 2019 o ensino primário, também fora da escola, mas não tem uma rotina de estudo, uma vez que, nesta fase, os pais preferiram incentivar “aprendizagens a outros níveis”.

“É uma educação global, que se insere em toda a comunidade, como ir ao supermercado e comparar preços, ou contar dinheiro, ou conversar com a senhora da peixaria. São aprendizagens que não estão nos livros, mas que são muito importantes em termos de vivência”, explica, sublinhando que os pais tentam que todas as atividades sejam instrutivas, até as viagens de carro, que a família aproveita para fazer jogos de matemática.

Antes da pandemia da covid-19, os filhos de Laura frequentavam duas vezes por semana uma associação para crianças em ‘open learning’, onde recebiam acompanhamento de tutoras, mas o resto do tempo é livre, para visitar museus, ler livros, ver filmes e documentários, jogar jogos em família, como xadrez ou monopólio, e, no caso de Miguel, de 7 anos, jogar Minecraft, um jogo de computador que o incentivou a fazer já dois cursos de programação e que lhe permitiu aprender sozinho coisas como a numeração romana.

A maioria das crianças e jovens inscritos em regime de ensino doméstico no ano letivo de 2018/2019 frequentava o 1.º e 2.º ciclos de escolaridade (659) e apenas 200 estudavam entre o 7.º e o 12.º ano, 32 dos quais no secundário.

O filho mais velho de Susana Pinto é um dos poucos jovens que optou por fazer o ensino secundário fora da escola e, com 16 anos, está agora a concluir o 10.º ano. Foi também por Gustavo que a família descobriu o ensino doméstico.

“Nós encontramos o ensino doméstico quando procurámos algo diferente, uma alternativa ao ensino formal, porque o meu filho mais velho, que na altura estava a começar o 6.º ano, não se adaptava muito bem à escola”, recorda, contanto que quando as filhas mais novas souberam que esta seria uma possibilidade também quiseram ficar em casa.

A adaptação da família na transição do ensino formal para o ensino doméstico foi muito boa, afirma Susana Pinto, para quem a mudança foi uma mais valia. “Deixámos de andar sempre na correria, em função dos horários da escola, e passámos a ter os nossos horários”.

Os dias destas três famílias são semelhantes em apenas um aspeto: são sempre diferentes. Na família de Laura Ramos, o planeamento das atividades é decidido entre todos, e no caso de Alexandra Nascimento, em que os filhos já começam a ter alguns hábitos de estudo, os temas a trabalhar em cada dia vão sendo definidos conforme as suas vontades e as suas propostas. Com filhos mais velhos, Susana Pinto já estabelece alguns horários de estudo, mas o resto do tempo, sublinha, é “livre para eles explorarem aquilo que não vem no currículo”.

Os estudantes em regime de ensino doméstico não frequentam a escola e, apesar de uma portaria publicada em fevereiro de 2019 estabelecer a obrigatoriedade de estarem matriculados e de os encarregados de educação assinarem um protocolo de colaboração com a escola, a gestão do ensino e do cumprimento dos objetivos curriculares, avaliados no final de cada ciclo, cabe sobretudo às famílias.

Apesar das diferenças entre o ensino doméstico e o ensino à distância, em que os alunos continuam a ser acompanhados pelos professores, a maioria das famílias está a acompanhar mais do que nunca a educação dos seus filhos que, devido à pandemia da covid-19, estudam agora a partir de casa. E o conselho para estas famílias das três mães que contaram à Lusa as suas experiências é o mesmo: aproveitar o tempo com os filhos.

“Cada família é diferente, mas se algum pai ou alguma mãe me pedisse algum conselho, aquilo que eu poderia dizer era mesmo para aproveitarem este tempo para desfrutar da qualidade de tempo com os filhos. Se há coisa que eles podem fortalecer neste momento é a relação com os seus”, considera Alexandra Nascimento.

Laura Ramos acrescenta que este é também um bom momento para explorar outras aprendizagens e Susana Pinto, que viu uma das suas filhas regressar este ano letivo à escola, por iniciativa própria, diz que é uma oportunidade para “voltar a descobri coisas com eles”.

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