Por que motivo é o cancro do colo do útero ainda tão prevalente em Portugal?

O cancro do colo do útero continua a ser prevalente em Portugal, porque não tem havido uma política de saúde pública com vista à organização de um rastreio populacional de âmbito nacional, deixando de fora muitas mulheres em idade de rastreio que, por múltiplos e variados motivos, nunca vão ao médico.

Cancro do Colo do Útero: a doença e os sintomas

O Cancro do Colo do Útero está associado a uma infeção persistente por um tipo de Papilomavírus Humano (HPV) de alto risco, que não foi detetada e tratada precocemente.

A forma mais eficaz de combater este tipo de cancro continua a ser a prevenção. A estratégia primária consiste na vacinação contra o HPV, que confere uma proteção estimada em 90% para este tipo de cancro.

Em Portugal, morre uma mulher por dia com Cancro do Colo do Útero. Num estadio mais avançado, quando a doença já está instalada, podem surgir sintomas como perdas de sangue fora do período menstrual ou após a relação sexual, corrimento vaginal anormal e com mau odor e dor pélvica.

As mulheres entre os 25 e os 65 anos representam o grupo de maior risco.

HPV, sabe o que é?

Existem mais de 120 tipos de HPV, dos quais 40 afetam preferencialmente os órgãos genitais – vulva, vagina, colo do útero, pénis e ânus.

Nos HPV de alto risco, incluem-se os tipos 16 e 18, que são responsáveis por 75% das lesões mais graves (carcinomas). Nos HPV de baixo risco, estão incluídos os tipos 6 e 11, responsáveis pela maioria das doenças benignas provocas pelo HPV, sendo as mais frequentes os condilomas ou verrugas genitais.

Estima-se que 75 a 80% das pessoas sexualmente ativas tenham contacto com o vírus em alguma altura das suas vidas. A infeção pelo HPV é assintomática por isso o rastreio é essencial. Assim, qualquer pessoa sexualmente ativa pode estar infetada e infetar o seu parceiro sem saber. Transmite-se muito facilmente durante o contacto sexual, genital ou oral.

Portugal não se tem "portado bem" na deteção, tratamento e prevenção desta doença?

Portugal fez uma aposta forte na prevenção primária, ao introduzir a vacinação no PNV, em 2008. A publicação do Consenso Nacional sobre vacinas contra o HPV, da Sociedade Portuguesa de Colposcopia, que trouxe recomendações para a vacinação das mulheres com lesões pré-malignas, do sexo masculino e outras situações fora do PNV, foi também um avanço positivo na prevenção desta doença.

Por outro lado, o rastreio organizado que está a ser implementado e o tratamento atempado das lesões pré-malignas fazem com que a progressão para cancro seja cada vez mais rara. Mesmo quando o diagnóstico ocorre em fases mais tardias, Portugal tem das melhores taxas de sucesso da Europa.

De qualquer forma, corrimentos fora do comum e hemorragias sem calendário ou após a atividade sexual são sinais de alarme

A vacinação é a única forma de prevenção?

A vacinação é a única forma de prevenção primária, uma vez que impede a infeção pelos tipos de HPV contidos na vacina. Depois, temos a prevenção secundária, com o rastreio, que permite identificar as mulheres com alterações cervicais ou lesões pré-malignas e que devem ser referenciadas para colposcopia. Este exame, executado por Ginecologistas com diferenciação nesta área, vai permitir o diagnóstico e o tratamento destas lesões e impedir a progressão para cancro.

Quais são os grupos de risco desta doença?

Não existem propriamente grupos de risco. O principal fator de risco para o desenvolvimento do cancro do colo do útero é a infeção persistente por tipos de HPV chamados de alto risco ou oncogénicos.

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Existem 12 tipos de HPV de alto risco, sendo o HPV16 e o HPV18 os mais perigosos e os que estão implicados em 70% dos casos de cancro do colo do útero. Sendo esta a infeção viral transmitida por via sexual mais comum a nível mundial, outros fatores de risco incluem o início precoce da atividade sexual, os múltiplos parceiros sexuais, a imunossupressão, algumas infeções sexualmente transmissíveis (VIH, clamídia, herpes), o tabagismo e a contraceção hormonal.

A que sinais e sintomas devem as mulheres prestar atenção?

Numa fase precoce, as lesões precursoras e o cancro do colo do útero não apresentam sintomas. De qualquer forma, corrimentos fora do comum e hemorragias sem calendário ou após a atividade sexual são sinais de alarme. Há determinados sinais e sintomas que devem levar as mulheres a procurar um médico. (Veja caixa informativa)

O que pensa sobre a inclusão da vacina contra o HPV para rapazes no PNV?

Sou a favor da vacinação neutra de género por várias razões. Primeiro, a doença atribuída ao HPV nos homens tem tido um aumento significativo nos últimos anos, nomeadamente condilomas genitais, cancros do ânus, do pénis, da cabeça e pescoço e lesões pré-malignas do pénis e ânus. Acresce ainda que não existe rastreio implementado para a prevenção de cancro associado ao HPV no género masculino, pelo que a única forma de prevenção é a vacinação.

Em segundo lugar, se é certo que os homens beneficiam da imunidade de grupo se a taxa de cobertura nas raparigas for muito elevada, a realidade é que, numa era de globalização em que existe circulação frequente entre países, o contacto sexual com raparigas de zonas de baixa cobertura vacinal ou onde a vacina não é utilizada pode colocar em risco os não vacinados.

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As Sociedades Portuguesas de Pediatria e de Colposcopia recomendam a vacinação dos rapazes até aos 14 anos com 2 doses e, depois dos 15 anos, com 3 doses.

Quem deve fazer o rastreio desta doença e como?

O rastreio é um direito da mulher e está regulamentado em sede de Diário da República n.º 183/2017, Série II de 2017-09-21. Todas as mulheres, dos 25 aos 60 anos, podem realizar o rastreio através de um teste de HPV, que deve ser repetido de 5 em 5 anos. O teste HPV também é o teste preferencial de rastreio na população vacinada e, quando negativo, garante um risco muito baixo de doença a 5 anos. 

É pertinente reforçar que é preciso ter calma e não esquecer que ter uma infeção por HPV não significa que se tenha ou que se venha a ter um cancro, uma vez que, em muitos casos, o próprio corpo elimina o vírus.

Amélia Oliveira Pedro é médica especialista em Ginecologia/Obstetrícia e  Presidente da Secção Portuguesa de Colposcopia e Patologia do Tracto Genital Inferior (SPCPTGI) da Sociedade Portuguesa de Ginecologia. É ainda Diretora Clínica do Hospital CUF Sintra.

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