As teorias são tantas. Por um lado, existem os optimistas absolutos: os animais de estimação são uma fonte inesgotável de benefícios (emocionais, cognitivos, sociais) e inclusivamente funcionam muito bem como agentes protetores de alergia, uma vez que o contacto precoce funciona como indutor de tolerância.

Por outro lado, temos os pessimistas: existe um risco real de alergia ao pelo dos animais, pelo que o convívio de animais e crianças vai ter um efeito sensibilizador, desencadeando crises de alergia. Adicionalmente, o convívio de bebés, crianças e animais pode ser um fator de risco para acidentes, mordidas e mesmo infestação e infeções dos animais.

O que nos diz a ciência sobre o risco alérgico das crianças com contacto regular com animais?

Devo dizer-vos que não há um real consenso. Parece que o impacto dos animais na saúde respiratória e no risco alérgico das crianças vai depender do tipo de animal, da duração e intensidade da exposição, do contexto genético do bebé e da sua família.

Ainda assim, gosto de resumir as recomendações existentes até ao momento: na ausência de risco familiar de alergia ou sensibilização aos epitélios de animais (identificado e confirmado, uma vez suspeitas baseadas numa comichão no nariz quando, há três meses, se foi visitar uma tia com um gato não contam), não há evidência que o contacto precoce com animais de estimação aumente ou reduza o risco de asma na infância. Sim, tanta conversa sobre um assunto que parece ter muito pouco impacto na saúde respiratória da criança.

E o que nos diz a ciência sobre os benefícios para o desenvolvimento infantil de ter animais de estimação?

Neste tema parece haver um enorme consenso! O facto de uma criança ter um animal gera uma vinculação com o mesmo. Esta vinculação gera benefícios claros na socialização, com sensação de companhia, combate à solidão e aumento da auto-estima. Esta auto-estima reforçada advém não só das expressões de carinho e apreço do animal para a criança, mas também pelo desenvolvimento de um auto-conceito mais aprofundado: a criança passa a ver-se como responsável pelo animal, pelo seu bem-estar, pelo seu cuidado. Esta experiência é muito estruturante. Daí que mais importante do que oferecer um animal de estimação, é oferecer um exemplo de integração de cuidado e respeito pelo animal. A criança, desde muito pequenina, deve ser integrada nos cuidados ao animal. Sem medos!

Cão e gato

Tendo em conta o longo processo de domesticação, a verdade é que cães e gatos são relativamente seguros. Claro que tudo irá depender das dimensões da casa, das características do animal, da sua raça, mas sobretudo dos comportamentos de vigilância dos adultos. A verdade é que, por muito calmo que seja um animal, as suas reações têm sempre um certo nível de imprevisibilidade, pelo que, o denominador comum a toda a qualquer recomendação é a vigilância permanente dos adultos.

No entanto, nunca se deve deixar um bebé pequeno sozinho e acessível ao animal.

Existem formas adequadas para introduzir um bebé recém chegado da maternidade a um animal de estimação (gato ou cão), bem como existem especialistas em comportamento animal que vos podem ajudar na caracterização do comportamento do animal e os riscos que podem significar para a criança.

Por outro lado, quando as crianças são mais crescidas, é importante serem educadas para terem uma certa “etiqueta” ao lidarem com animais.  O facto das crianças aprenderem que não podem mexer nas orelhas, focinho ou comida de um animal, é um fator protetor de acidentes.

Outros animais

Nada do que aqui está escrito será passível de ser aplicado a uma situação concreta. Temos apenas uma espécie de revisão de alguns problemas de segurança de animais tido como mais exóticos. Estes animais poderão não constituir um problema se permanecerem exclusivamente dentro de um espaço que não é partilhado com a criança. Ainda assim, se são manipulados pelo adulto, há um certo risco de transmissão de doenças.

Aves

Os pássaros e papagaios têm obviamente necessidades específicas, mas têm um riso elevado de transmissão de agentes patogénicos respiratórios. Deveriam idealmente estar no exterior. No caso concreto dos bebés, é mesmo desaconselhada a sua convivência em proximidade e em espaço fechado.

Roedores

No caso dos roedores (murganhos, hamsters, chinchilas, porquinhos da índia, ratazanas e esquilos), a grande maioria tem risco de mordeduras acidentais, caso não estejam confinados às gaiolas. Adicionalmente poderão estar infestados por pulgas e isso ser um fator de risco para picadas.

Coelhos

Em relação aos coelhos, é importante tê-los vacinados contra a mixomatose e doença hemorrágica. Os furões podem constituir um risco acrescido de mordeduras. Globalmente os roedores podem transmitir pulgas e infeções zoonóticas como a leptospirose e a salmonelose. São sobretudo desaconselhados no primeiro ano de vida.

Répteis

No caso dos cágados, tartarugas, iguanas, camaleões e cobras, há um risco real de transmissão de salmonela. Não são animais recomendados para agregados familiares com grávidas e lactentes com menos de um ano. Pela mesma lógica de ideias, os artrópodes (no caso das aranhas) também não são recomendados e devem ser manejados por pessoas especializadas.

Um artigo da médica Joana Martins, especialista em Pediatria.

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