A narrativa de Manias leva-nos por uma viagem ao passado de Ana Vasconcelos, a autora, desde a sua infância até a vida adulta. Um caminho que leva o leitor à descoberta dos segredos e as rotinas peculiares que moldaram a existência da autora de forma singular. A doença do pai (e consequentemente as suas “manias”) evoluíram de tal forma que aprisionaram toda a família, levando a uma espiral de destruição inadvertida.

Marcada toda a vida pela convivência com um pai obsessivo-compulsivo, Ana Vasconcelos escreveu Manias aos 43 anos de idade e já mãe de três filhos para alertar para uma doença mental pouco debatida e socialmente camuflada, para a falta de acompanhamento aos familiares, e para o impacto na vida de todos os que convivem com a doença. “O nome do livro reflete isso mesmo, o quão esta doença é muitas vezes confundida socialmente com meras ‘manias’ de alguém arrumado e organizado, uma confusão que por vezes esconde a dura realidade existente entre quatro paredes”, refere a autora.

Depois de ter chegado a despedir-se do pai que agonizava no hospital com uma infeção por Covid-19, Ana toma a decisão de o levar para sua casa, convicta de que um lar feliz ajudaria à sua recuperação. A realidade foi implacável e trouxe consigo as mágoas contidas desde a infância, colocando a autora numa difícil encruzilhada que a levaria ao limite até expulsar o pai de casa. O reviver, na fase adulta, dos seus traumas de criança, levou Ana a querer escrever este livro.

Manias
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De acordo com a autora, Manias “é uma catarse na primeira pessoa, um retrato emocionante da luta de uma jovem para se libertar das amarras do passado e encontrar uma nova perspetiva sobre toda a sua vida”.

Ana Vasconcelos nasceu em Lisboa em 1981. Passou a maior parte da sua infância e juventude em Cascais, onde vive atualmente com a família. É casada e tem três filhos, todos rapazes. Licenciada em arquitetura pela Universidade Lusíada de Lisboa, trabalhou como arquiteta, durante seis anos. No ano de 2010, interrompeu a sua carreira profissional para viajar para Nova Iorque, com o marido e o filho Pedro, o mais velho. Também por opção familiar, desde 2011, tem dedicado o seu bem mais valioso – o seu tempo – à educação dos filhos, Pedro, Nuno e Francisco. Manias é o seu primeiro projeto literário.

Do livro publicamos o excerto abaixo:

– Entra devagarinho. Achas que o vento do corpo dela fez mexer as cortinas do duche?

  – Não... – respondia a minha mãe cansada, deixando o olhar cair naquelas cortinas outrora brancas, agora manchadas e ressequidas por falta de limpeza.

  – As argolas das cortinas estão todas à mesma distância umas das outras? Confirma.

  – Sim, as argolas estão penduradas no varão todas à mesma distância.

  – Confirma outra vez, olha com mais atenção!

  – Senta-te devagarinho sem tocar na cortina do duche. Ela tocou na cortina do duche? Confirma.

  – Não tocou. – respondia contrariada.

Fiquei ali sentada e quieta, sabendo que todos preferiam estar na cama em vez de estar ali. A culpa era minha. Não devia ter tido aquela vontade, não devia ter bebido aquele último copo de água ao jantar.