À nota de excelência atribuída ao trabalho acrescente-se que foi realizado por quem nasceu com retignite pigmentar, uma doença degenerativa que, gradualmente, e desde a infância, tirou à autora do estudo quase toda a visão. Mas os atuais cinco por cento de visão num olho e um por cento no outro foram mais do que suficientes para concluir com excelência o Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde. Para trás fica um percurso académico onde a Ana foi “para além do impossível”.

A Ana Sofia perdeu grande parte da visão, principalmente durante a adolescência, a esforçar a vista com os estudos. Queria ir para a Universidade, queria ter sucesso. Por isso teve sempre como horizonte o lema “se os outros conseguem, eu também vou conseguir”. E conseguiu mesmo. Chegou à UA em 2008 para estudar Psicologia. A instituição, que faz da inclusão uma palavra levada à letra, garante soluções adaptadas a cada estudante, em conformidade com as suas caraterísticas e necessidades. Só neste ano letivo estão matriculados na UA, entre os programas de graduação, pós-graduação e Cursos Técnicos Superiores Profissionais, seis dezenas de alunos com necessidades educativas especiais.

“À medida que fui crescendo, que me fui conhecendo melhor, aprendi a aceitar a minha limitação visual, a aprender a lidar com as dificuldades e a olhar-me como um ser muito especial”, lembra a Ana Sofia. Contudo, reconhece, “não foi muito fácil aprender a lidar com a minha deficiência”. Mas “com a força de Deus, com o apoio incansável das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, com as quais cresci desde os meus quatro anos de idade na Casa da Sagrada Família da Guarda, e com a grande vontade que desde tenra idade tinha em crescer nos bons valores, em me tornar uma mulher forte e corajosa, fui conseguindo ultrapassar aos poucos os obstáculos que a vida me apresentava e ainda a fazer dos problemas oportunidades”, lembra.

“Fazer uma dissertação de mestrado após um ano exaustivo de estágio curricular [realizada entre agosto e novembro de 2014], foi quase como que ir para além do impossível”. O esforço valeu-lhe um 20 no trabalho e um 17 como nota final do mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde. “Tive de abdicar de muitas coisas e ter mesmo muita força de vontade. Mas o atingir de tal objetivo só foi possível devido ao apoio incansável de todas as pessoas que tanto me ajudaram, a quem mais uma vez agradeço a força e a colaboração incansável”, recorda a Ana Sofia.

Às Irmãs Dominicanas da Guarda que sempre nela apostaram, e com quem cresceu sem nunca ter perdido a ligação umbilical à família, ficará para sempre um especial abraço da alma da Ana. Mas também ao Gabinete Pedagógico e ao Serviço de Apoio aos Utilizadores com Necessidades Especiais da Biblioteca da academia. Se no primeiro serviço da UA, através da coordenadora Gracinda Martins, a Ana Sofia encontrou soluções adaptadas às suas necessidades educativas, no segundo a estudante teve todo o apoio e orientação no acesso à informação existente na Biblioteca e de que precisou para estudar. A Ana Sofia não esquece também os amigos, professores e colegas que com ela estiveram “nos bons e maus momentos” e lhe transmitiram “palavras de incentivo e de conforto” quando mais precisou.

Em Portugal são escassas as investigações que estudam o sofrimento emocional na população adulta com deficiência visual. Um cenário que a Ana Sofia quis contrair para fazer a diferença entrevistando para a dissertação de mestrado 208 pessoas com deficiência visual de todo o país.

“Sem dúvida que a literatura centrada no estudo do sofrimento emocional das pessoas com deficiência visual é muito escassa em Portugal, panorama que também se alarga a nível internacional”, lamenta. Tal “pode dever-se à emergência do conceito de sofrimento emocional e ainda à pouca sensibilização da comunidade científica” para se dedicar a esta área de investigação.

“O estudo mostrou essencialmente que as pessoas que apresentam mais sofrimento emocional são as que têm deficiência adquirida, as solteiras e as que percecionam que a deficiência visual interfere negativamente na sua vida”, aponta a estudante. Na conclusão do trabalho que lhe valeu nota máxima ficou surpreendida com o facto de “não se ter encontrado nenhuma associação entre o sofrimento emocional e diversas variáveis sociodemográficas, tais como a idade, o sexo, e o nível de escolaridade, pois muitos estudos mostram que as pessoas mais velhas, as mulheres e as pessoas com menor nível de escolaridade são as que apresentam mais sofrimento emocional”.

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