Afonso II de Portugal reinou no século XIII. A obesidade mórbida valeu-lhe para a posteridade o cognome de “O Gordo”. Não havendo a certeza, também lhe terão valido os quilos em excesso o acesso à eternidade. Afonso II morreu em 1223, com 37 anos.

Em Lisboa, o monarca é recordado na Rua de Santo António da Sé, em edifício de feição pombalina e num restaurante que celebra a portugalidade, juntando no mesmo espaço, de dimensão generosa, a cozinha de matriz portuguesa e a canção nacional. D. Afonso O Gordo é, a dois tempos, uma casa para nos deleitarmos com um Leitão da Bairrada, ou um Polvo à Lagareiro (aqui chamado Navegador); adicionando-lhe o bónus de, ao vivo e com acompanhamento à guitarra portuguesa, viola de fado e contrabaixo, os apreciadores se deleitarem com o nosso Fado.

Nas cavalariças que foram do Marquês a homenagem à mesa faz-se a Afonso,
O espaço interior do restaurante. Casa que recupera o edifício onde estavam instaladas as antigas cavalariças do Marquês de Pombal.

A casa, aberta desde 2015, ocupa aquelas que foram as cavalariças privadas do Marquês de Pombal. Edifício datado do século XVIII que, a quem estreia a visita, impressiona pela largueza de espaço. São centenas de metros quadrados, ornados de dezenas de arcadas de tijolo cru, tetos abobadados e sala capaz de acomodar até 150 comensais, em ambiente de meia-luz. No que à arquitetura toca, o restaurante conta com uma atração. Ao fundo da sala, um poço, recorda-nos que, aqui mesmo, brota a água de uma das nascentes no subsolo lisboeta. Fonte de água que, no passado, mitigava a sede aos cavalos que recolhiam aos estábulos.

De pés postos neste século XXI, o ambiente no D. Afonso o Gordo, anima de terça-feira a domingo, às 9h30 (sem atrasos). As noites são de Fado nas vozes, entre outros interpretes, de Deolinda de Jesus, Tiago Simões e Cidália Moreira.

Nas cavalariças que foram do Marquês a homenagem à mesa faz-se a Afonso O Gordo
Polvo à lagareiro.

Interpretes na voz que têm, na cozinha, outro executante, de âmbito diferente, mas também empenhado em trazer para o restaurante a nossa identidade à mesa. Em 2017, o chefe de cozinha João Fragoeiro aceitou o convite de liderar a copa deste D. Afonso O Gordo.  Pegou, então na carta e, desde esse momento, dá-lhe nova vida. “O que procuro fazer é trazer para uma ementa que tem um público fiel, novas texturas. Quero ´brincar` com esta cozinha, sem mudar o conceito da casa”, sublinha.

Como sabemos, é difícil mudar a personalidade a pratos com um carisma muito seu. Por exemplo, o Leitão à moda da Bairrada – neste caso da raça Bísara -, no espeto e assado em forno a 350 ºC (neste caso, fornos elétricos) e pincelado no interior com um molho apimentado, aqui servido no ponto. No mesmo dia, no D. Afonso O Gordo, podem entrar no forno até seis leitões.

Nas cavalariças que foram do Marquês a homenagem à mesa faz-se a Afonso O Gordo
Tiborna de bacalhau.

Como também não é fácil dar uma volta de 180 graus a uma Tiborna de bacalhau, onde não pode faltar uma boa golpada de azeite. João Fragoeiro não o quer fazer, antes adicionar-lhe alguns apontamentos seus, “como a azeitona desidratada para se sentir um pouco mais o amargor”.

Um elenco à mesa onde dizem “presente” clássicos como o Ensopado de borrego, a Açorda de ovas de bacalhau, os bifes, as Filetes de pescada panados, acompanhados com arroz branco. Uma carta onde, não lhe desmerecendo nas estrelas, há que louvar a qualidade da batata apresentada.

Nas cavalariças que foram do Marquês a homenagem à mesa faz-se a Afonso O Gordo
Risotto de leitão.

Ainda do mar, a não desmerecer o “Atum do Império”, com o peixe a vir dos Açores e acompanhado com batata vittelote; ou a “Perca dos Távoras”, servida com funcho grelhado, puré de abóbora e emulsão de beterraba.

Com pendor mais petisqueiro, servindo de abertura às refeições, há enchidos, queijos, ovos com farinheira e os croquetes de leitão. Sobre estes há que sublinhar a confeção no ponto. Exterior estaladiço e com a textura de frito que se aprecia, estalando de calor. À dentada, tenrinhos, não se perdendo o sentido à carne, que desfia. Leitão que também vamos encontrar noutro prato que marca a assinatura de João Fragoeiro, um Risotto à portuguesa. Na prática o prato transalpino, aqui com a carne nacional.

Restaurante Dom Afonso O Gordo

Santo António da Sé nº 18, Lisboa

Horário: Todos os dias das 12h00 às 24h00

Contacto: Tel. 965 872 132

No que toca aos momentos da gula com açúcar, sublinhe-se o Pudim Abade de Priscos, da autoria de Miguel Oliveira, dono do Atelier do Pudim do Abade, em Campo de Ourique. No que respeita a colaborações com este D. Afonso o Gordo, a do mestre assador de leitões, Ricardo Nogueira, que trouxe para a casa junto à Sé de Lisboa a técnica e preceitos para a carne tenra e a pele estaladiça.

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