Sofisticação, linhas clean e materiais robustos, como o neopreno, assumem o novo olhar da moda sob o surf. Para trás ficam os Beachboys, as flores havaianas, os chinelos e as cangas. É a tropicalização da moda como jamais a vimos. «Hello sunny California, thanks for us! It's a beautiful day, the sun is shining and not a single cloud in the sky. And what a perfect day to go surfing. So grab your board, get in the car and drive to the shore».

«And on your way, check out this new band from Rio de Janeiro. Enjoy this endless summer»… A acompanhar a voz, imagens num ecrã gigante situado na boca de entrada dos manequins, acusam quilómetros de praias, palmeiras e ondas, criando a imagem idílica do sonho californiano. A música, algures entre o house e o electro (já nada de Beachboys) começa e vemos surgir a primeira modelo.

O casting não podia ser mais perfeito. Aline Weber, a top brasileira loira platinada com ar de surfista, too cool for school, entra na sala de desfile da semana da moda de São Paulo, no Brasil. O seu corpo de sonho enfiado num fato completo de neopreno, material que acabaria por se consagrar nas estações seguintes, complementados com os óculos redondos dourados em metal que lançavam o mote daquilo que viria a ser a coleção primavera/verão 2013 da brasileira Osklen: Endless Summer.

Equilíbrio perfeito

Como já nos vem habituando, estava patente na colecção da marca o equilíbrio perfeito entre o dinamismo da metrópole e a exuberância da natureza brasileira. A griffe de Oskar Metsavaht, mentor e criador da marca, que desde a primavera/verão de 2013 passou também a apresentar as suas coleções à sociedade nova-iorquina na Mercedes Benz Fashion Week, representa o estilo de vida contemporâneo.

Um conceito de lifestyle moderno num mundo onde o urbano e a natureza global e local, assim como o orgânico e o tecnológico, convivem entre si. Flores havaianas e folhagens verdes, per si, perdem o protagonismo que detinham até então, graças à óbvia associação ao Havai, o berço do surf, dando lugar a uma nova forma de abordar a cultura do surf, muito mais sofisticada e 100% blasé.

Da crista da onda para as passerelles de topo

Cingirmos esta vertente high fashion do surf aos designers brasileiros seria um erro tremendo. No resto do mundo, criadores sem berço aquático, recorrem ao universo do surf na idealização das suas coleções, principalmente no que diz respeito às temporadas resort. Na mesma estação primavera/verão 2013 em que a Osklen apresentou Endless Summer, o criador nascido na Índia e sediado em Nova Iorque, Naeem Khan, apresentava uma coleção original.

Uma coleção que surgia, nada mais nada menos, de uma fotografia tirada no Havai com o seu smartphone, posteriormente enviada para Itália com instruções para ser transformada num estampado. Ainda nesse ano, a americana Jenni Kayne, que defende a sua linguagem como um misto de sportswear americano clássico e um twist da sua educação californiana, apresentou peças assumidamente inspiradas no surf.

Veja na página seguinte: As fortes paletas de cor que marcam as tendências

As fortes paletas de cor que marcam as tendências

Ao contrário do que aconteceu (e que acontece por sistema) na casa Osklen, fortes paletas de cor marcaram o statement da sua coleção. Já em 2014, o grupo americano J Crew ou Hervé Léger by Max Azria, foram algumas das casas que não dispensaram fortes referências ao surf. Na segunda, a associação é óbvia. A presença de um zipper na parte frontal de um vestido body-con em neopreno, verde água e amarelo pastel (menos canário e mais clean) tornam claro como a água cristalina que os inspira, que o surf chegou à cidade.

Ainda que criadas com vista para o mar, a verdade é que se tratam de peças que mais depressa idealizamos numa rua de Paris, do que em qualquer passeio havaiano. Mas a história de amor entre o surf e a moda não se enterra na areia com o final do verão. Para o outono/inverno 2014/2015, por exemplo, o designer australiano Dion Lee, na sua segunda aparição na passerelle nova-iorquina, voltou a explorar as suas raízes sob o conceito Nostalgic Australiana.

E, já com um pé em 2015, a presença do elemento surf mantém a constância, como se pode ver nas  coleções Resort de House of Holland, Sea de Nicole Miller ou a primavera/verão 2015 da italiana Missoni na sua linha para homem. Em 2016, as coleções apresentadas pela maioria das marcas apresentam cores fortes com padrões diversificados e materiais inovadores, com apontamentos originais.

Mais Austrália e menos Havai

É realmente notória a sofisticação da moda surf. Mais do que isso, é um facto. As flores havaianas tiveram os seus tempos áureos mas, como afirma Sara Sanz Pinto, jornalista e repórter, no canal brasileiro WooHoo, «a não ser nas árvores ou nas camisas dos velhotes no Havai», o seu tempo já lá vai. Por seu turno, o lifestyle australiano vai ganhando terreno e influenciando o mundo da moda ferozmente.

A estética minimalista e clean que o continente defende de forma exímia, coloca de parte a onda chinelo no pé havaiano, fazendo subir o nível da moda surf, tornando-a chique, citadina e cosmopolita. It girls como Christine Centenera, editora de moda sénior da Vogue Austrália, a par de designers como Josh Goot, são apenas alguns nomes na ribalta do mundo fashion, que colocam a Austrália, até então paraíso do surf, como o novo éden da moda.

Um excelente exemplo visual desta nova abordagem ultra-chique do surf é o editorial levado a cabo pela edição australiana da revista Harper’s Bazaar intitulado Wave Rider. Fotografado nas ilhas Maldivas, à volta do famoso hotel Six Semses Laamu, vemos a top model neozelandesa Annabella Barber desfilar uma prancha Chanel de design moderno, produzida com o que há de mais avançado no desporto e avaliada em aproximadamente 3.000€.

Pintada com as cores tradicionais da casa francesa (o preto e o branco) e perfeitamente combinada com fatos de banho chiques e elegantes (fugindo ao habitual colorido da moda praia), é a aclamação irrefutável da influência do surf sob a moda. Marcas como a Billabong, a Roxy, a O'Neill, a Volcom, a Hive, a Gypsea, a Makara e a Super Aloha também apresentam modelos de praia com influências de moda.

Veja na página seguinte: A tentativa constante de tropicalizar a moda

De volta às raízes

Por outro lado, a atual obsessão por um novo estilo de vida mais saudável, completamente focado no bem-estar, nas coisas simples, no contacto com a natureza (muito através de desportos como o surf) e na aparência descontraída que este emana, empurram criadores de todo o mundo para a nova onda do desenvolto e do descontraído, sporty, cool e (aparentemente) simples. Não é também por acaso que a modelo frágil, esquelética e deslavada começa a ser posta de parte, para dar lugar a modelos como Gisele Bündchen ou Daria Werbovy, famosas pelo seu estilo de vida regrado e saudável. 

Até na beleza, a moda surf vê, mais do que nunca, as luzes da ribalta. As famosas madeixas californianas (que apesar de relativamente recentes em Portugal já brilham nos Estados Unidos da América há algumas temporadas) e, mais recentemente, as beach waves. Tudo na busca do look surfista do momento. Despreocupado mas chique, tranquilo mas cuidado e, acima de tudo, hiper-feliz.

Tropicalizar a moda

A expressão é de Fred d'Orey, surrfista, escritor e criador da marca de surfwear brasileira Totem. «Eu estava debaixo de uma barraca de praia na Guarda do Embaú, nos anos 90, olhei em volta e vi os caras todos de calção preto e cinza, e as meninas de shortinho jeans, enroladas numas cangas feias», recorda. «Pô, neguinho, tá no lugar mais lindo do mundo, as pessoas são lindas, a música é agradável, a comida é bacana e estão se vestindo como se estivessem num velório? Cadê a moda balneário interessante?», pensou.

«A surfwear não está atendendo, hoje faz roupa pra office boy. Então criei a Totem», esclareceu o brasileiro numa entrevista à revista Trip. «Elegante é andar de sandália, de bermuda, de camiseta ou de camisa de botão, mas de acordo com o entorno. Vivemos num país de calor senegalês e neguinho acha que está em Paris e Londres. Nós temos de celebrar a vida, não de preto, não de couro, mas com estampas bonitas. É um trabalho que a gente vem fazendo, nós e outras pessoas, de nacionalizar a moda e de tropicalizar a moda», sublinha.

10 marcas a decorar:

1. The Critical Slide Society (fundada por Jim Mitchell e Sam Coombies em 2009 em Sidney)

2. Battenwear (criada por Shinya Hasegawa em 2011 em Brooklyn, Nova Iorque, nos EUA)

3. Cuisse de Grenouille (fundada pelos irmãos Lucas e Séverin Bonnichon em 2011 em Paris, em França)

4. TwoThirds (projeto idealizado por Lutz Schwenke em 2009 em San Sebastián em Espanha)

5. Insight (fundada por Drew Down em 1992 em Sidney na Austrália)

6. Saturdays (concebida por Morgan Collett, Josh Rosen e Colin Tunstall em 2009 em Nova Iorque)

7. M.Nii (fundada por Minoru Nii em 1951 e reavivada por Randy Hild e John Moore em 2012)

8. +351 (marca portuguesa criada por Ana Penha e Costa em Lisboa em 2014)

9. La Paz (fundada por José M. Abreu e André Teixeira em 2011 no Porto)

10. Outer Known (fundada por Kelly Slater em 2014 nos EUA)

Texto: Pureza Fleming

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