Para onde caminha a moda? Sabemos que vai em passo acelerado. A prova? O pronto a vestir parece ter sido suplantado pelo fast fashion. A tendência ganha terreno à criação, que fica deixada para trás. A saída de cena de Raf Simons e de Alber Elbaz da Dior e da Lanvin são a prova disso. A moda e nós. Uma reflexão sobre o estado da moda.

Em outubro de 2015, Raf Simons, depois de três anos e meio como diretor criativo da Dior, disse adeus à casa francesa. Segundo a notícia divulgada pelo site WWD, tomou essa decisão por razões pessoais e a coleção de primavera-verão 2016, apresentada no Louvre ainda no início desse mês, foi a sua última. Menos de uma semana depois, Alber Elbaz deixa a Lanvin.

Diretor criativo da maison francesa durante 14 anos, de acordo com o WWD, ter-se-ia desentendido com a dona da marca, Shaw-Lan Wang, bem como com o seu diretor executivo, Michèle Huiban. O seu estúdio na famosa Rue Faubourg Saint-Honoré, em Paris, estava vazio no dia seguinte.

Começou logo a correr o rumor que Alber Elbaz podia ser o substituto de Raf Simons na Dior. O certo é que as tensões entre o criador e Shaw-Lan Wang teriam começado meses atrás, com a insistência do designer para que a proprietária tailandesa vendesse a sua parte da empresa a um novo dono que conseguisse capitalizar o potencial de desenvolvimento da Lanvin.

As implicações da saída de Raf Simons

Raf Simons, na declaração que oficializou a sua saída da Dior, disse que «após uma longa e cuidadosa reflexão, decidi deixar a minha posição como diretor criativo das coleções femininas. É uma decisão baseada inteiramente no meu desejo de me focar em outros interesses da minha vida, inclusive na minha marca, e nas paixões que me movem além do trabalho».

Segundo Cathy Horyn do The Cut, o CEO da Dior, Sidney Toledano, tal como Bernard Arnault, presidente do grupo LVMH, do qual a Dior faz parte, já sabiam da decisão do estilista há meses, mas estavam a tentar dissuadi-lo da ideia. Raf Simons imprimiu um novo olhar à maison, totalmente diferente do estilo do seu antecessor, John Galliano, o que, segundo o site The Cut, resultou num aumento de 60 por cento das vendas.

Mas antes de se unir à Dior, Raf Simons foi professor na Universidade de Viena, trabalhou como designer de sportwear na Gysemans e liderou a Jil Sander, de 2006 a 2011. Pouco depois de se tornar o diretor criativo de uma das casas mais antigas do grupo LVMH, refletiu numa entrevista ao jornal El País sobre os ossos do ofício «Quando ocupamos esta posição, estamos expostos a muitas opiniões», disse.

«Pouco a pouco comecei a entender os jornalistas. A moda é comunicação e é imprescindível o seu trabalho. Mas há que ter cuidado com as críticas. Com a internet não temos ideia de quem é a fórmula», assegura.

Veja na página seguinte: Os ininterruptos ciclos da moda

Os ininterruptos ciclos da moda

Conhecemo-lo melhor há uns meses com o filme «Dior e Eu», de Frédéric Tcheng, onde Raf Simons revelou ter tido apenas oito semanas para criar a sua coleção de estreia dentro da casa. Suzi Menkes, editora internacional da Vogue e uma das jornalistas de moda mais reputadas no meio, escreveu e bem sobre a situação. «O anúncio de que Raf Simons está a deixar a sua posição de diretor criativo na Christian Dior pode parecer uma continuação do filme Dior e Eu», referiu.

Mais à frente explicou. «Mas, para qualquer estilista de uma maison de luxo, um desfile bem-sucedido nunca é suficiente. O filme tem de se repetir várias e várias vezes. Janeiro é alta-costura, março é prêt-à-porter, maio é cruise, julho traz alta-costura novamente, Setembro o prêt-à-porter novamente e novembro, resort ou cruise de novo? Adicione a isto as campanhas publicitárias, aparições pessoais, inaugurações de lojas, visitas globais, trunk shows, exposições em museus, entrevistas, Instagram…», exemplificou.

«Como é que qualquer estilista está preparado ou capacitado para manter o ritmo?», questiona. Ao que concluiu que «as pessoas que mais sofrem com a moda em alta velocidade são, sem dúvida, as criativas, a alma e o coração do nosso setor». «Sem elas, não há moda. Apenas uma câmara de eco de ideias. Nada verdadeiramente novo, apenas uma repetição disfarçada de invenção», sublinha.

A lição de Alber Elbaz

Alber Elbaz, ao ser questionado sobre a rapidez do negócio da moda, com a apresentação de tantas coleções num ano, respondeu antes de receber o prémio de revolucionário do Fashion Group International’s Night of Stars 2015. «Não tem a ver com pressão, mas com o sistema. E o sistema tem pressão e a pressão tem um sistema, e é sobre isso mesmo que vou discursar daqui a pouco», disse.

E foi. Fez um discurso de 16 minutos onde emitiu algumas opiniões sobre a indústria da moda. «Nós, designers, começámos como couturiers, com sonhos, com intuição, com sentimentos. Pensávamos no que é que as mulheres querem. O que é que as mulheres querem? O que é que posso fazer pela mulher para tornar a sua vida melhor e mais fácil? Como posso tornar a mulher mais bonita? Era isto que costumávamos fazer», relembrou na ocasião.

«Depois tornámo-nos diretores criativos, por isso temos de criar, mas, acima de tudo, de dirigir. E, agora, tornámo-nos fazedores de imagens, criando um buzz e assegurando que tudo fica bem nas fotografi as. E o ruído é o que está a dar. O ruído é cool não só na moda. Eu prefiro o suspiro, o murmúrio», referiu. «Acho que é mais profundo, permanece mais tempo», acrescentou no fim.

Entre palmas e sorrisos, Alber Elbaz terminou o seu discurso emotivo com uma conclusão que dá que pensar. «Não sou contra a tecnologia. Adoro a tecnologia. Adoro tudo o que é novo. Respeito o smart design. Adoro pessoas inteligentes, pessoas boas, pessoas com coração. Acredito que a maior mudança na moda virá com e devido à tecnologia. Mas a verdadeira evolução, não revolução, acontecerá quando o conhecimento tradicional, o toque humano, a beleza, a novidade e a tecnologia se tornarem um só», considera.

Veja na página seguinte: Os (novos) desafios da moda na idade da tecnologia

Manifesto antimoda?

A conhecida pesquisadora de tendências Li Edelkoort, considerada pela revista Time como uma das pessoas mais influentes do mundo da moda, acredita que a ascensão do fast-fashion, que seduz o consumidor com roupas baratas e de qualidade inferior, é um retrato do valor que a moda tem na sociedade actual. Algo descartável. Li Edelkoort revela no seu «Anti-Fashion Manifesto», um famoso manifesto antimoda, que a rápida reestruturação da indústria nos últimos anos fez com que a capacidade criativa dos designers fosse posta de lado.

Por isso, os novos profissionais são educados e treinados de maneira individualista, não para criar novidades, mas para serem descobertos por marcas de luxo. Para ela, os grandes nomes de antigamente propunham mudanças sociais em diferentes silhuetas, posturas e movimentos, mas, hoje em dia, tudo que se vê é a reutilização de tendências passadas. Nos dez tópicos do seu manifesto, revela por que a moda, como a conhecemos hoje, está obsoleta.

A justificação está na exploração da mão de obra, nos produtos tóxicos, no ambiente e no ritmo desenfreado de produção sem pensar nas consequências ambientais e sociais, entre outros. Argumentando que a indústria atingiu um ponto de fuga da moda, Li Edelkoort prevê que a alta-costura faça um regresso em força, ocupando o vazio deixado pelo pronto-a-vestir. Veremos.

Manus x Machina no Met Gala

A próxima edição do Baile de Gala do Costume Institute do The Metropolitan Museum of Art (MET), já tem data marcada para dia 2 de maio de 2016, em Nova Iorque. Além das stars que se unirão à responsável pelo evento anual, Anna Wintour, estão confirmados nomes como Taylor Swift e o ator Idris Elba, além do diretor de design da Apple, empresa que vai patrocinar a exibição, Jonathan Ive.

O tema abordado não poderia ser mais apropriado para o momento que a moda está a viver, a era da rapidez e do fast fashion. «Manus x Machina: Fashion in an age of technology», «Mãos x Máquina: A moda na idade da tecnologia» em tradução livre, irá focar-se, segundo o MET, na dicotomia entre a moda artesanal da alta-costura com a moda produzida por máquinas.

«Tradicionalmente, a distinção entre a alta-costura e a moda pronta-a-vestir baseava-se nas peças feitas à mão e nas feitas por máquinas», explicou Andrew Bolton, curador do Costume Institute em entrevista à edição norte-americana da revista Vogue. «Mas, recentemente, esta distinção tornou-se cada vez mais ténue, já que ambas adotaram as práticas e técnicas uma da outra», acrescentou.

A exibição contará com mais de 100 peças de moda, tanto de alta-costura quanto de prêt-à-porter. Vários items da alta-costura artesanal, caracterizando técnicas como bordados, pregas e rendas, serão contrapostos com desenhos feitos à máquina, demonstrando as novas tecnologias.

Texto: Joana Brito

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