Já alguma vez recebeu um hóspede indesejado em casa? Alguém que se foi apoderando progressivamente do seu espaço sem que lhe tivesse dado autorização para isso? E que de alguma forma acaba por fazê-lo a si, e à sua família, sentir-se refém? É esta a forma que a Perturbação Obsessivo-Compulsiva pode assumir no núcleo familiar.

Uma casa onde vive uma família e um hóspede indesejado, é possivelmente uma casa onde se vivem muitos desafios. Tal como um hóspede desagradável, a POC incomoda e desagasta cada elemento da família. Existe um membro da família considerado como o anfitrião da POC, e por isso muitas vezes visto como o responsável que permite que o hóspede incómodo se mantenha lá por casa.

Intruso controlador angustiante que tenta envolver toda a família nas suas armadilhas. Assim sendo, cada elemento da família pode contribuir como agente de mudança, procurando um repertório de respostas afetivas e positivas de ajuda terapêutica.

A POC está entre as dez condições mais debilitantes em todo o mundo

A Perturbação Obsessivo Compulsiva caracteriza-se pensamentos intrusivos e persistentes (obsessões) geradores de ansiedade elevada que levam a comportamentos/rituais ou comportamentos mentais (compulsões) que ocupam uma significativa parte do tempo diário e podem causar significativa incapacidade.

Em Portugal, a taxa de prevalência ronda os 4,4%, e aproximadamente de 2% na população mundial, afetando cerca de 1 em cada 40 adultos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) a POC está entre as dez condições mais debilitantes em todo o mundo.

Com a chegada da pandemia a vida de todos mudou, mas aqueles que já viviam na sombra do medo, da incerteza, gerada por esta perturbação do pensamento chamada POC, viram este vírus como a confirmação e legitimação de muitas das suas inseguranças. Não é por isso estranho que nesta fase possa ter sentido um agravamento da situação.

A POC é descrita por alguns autores como fator de risco para separações e divórcios, como consequência dos frequentes conflitos que os sintomas provocam na família, comprometendo, portanto, de forma significativa a vida do indivíduo e a de sua família.

Os autores descrevem de forma geral dois tipos de reações dos familiares aos sintomas da POC, a hostilidade/critica e a acomodação familiar. Reações muito associadas ao desgaste emocional, mas também a algum desconhecimento sobre a natureza desta perturbação.

Este tipo de interações tem repercussões significativas na manutenção da POC. Por um lado as críticas contribuem para o aumento da ansiedade e dos sintomas, diminuindo a motivação para contrariar a POC. Por outro lado a “acomodação familiar” implica que algumas famílias se acomodam de tal forma aos sintomas da POC, que as dinâmicas da vida diária giram em torno das solicitações dos pacientes.

De uma forma prática parece-nos importante refletir sobre algumas atitudes, respostas, que podem promover o espírito de equipa numa família que tem como inimigo comum a POC.

Um paciente partilhava em consulta como por vezes sente que a família, de alguma forma, o responsabiliza pela POC, quase como se fosse uma escolha ter executar um determinado ritual, e como isso o faz sentir-se mais sozinho e ansioso… Por outro lado a sua companheira desabafa o quão frustrante e angustiante é ver o seu companheiro “alimentar” os rituais, os medos irracionais da sua POC, e como isso interfere na harmonia familiar. Muitas vezes assistimos a um ciclo familiar de culpa, vergonha, frustração e desespero.

A POC pode ser muito angustiante para quem tem a sintomatologia, e para quem vive ao seu lado. Ambos se sentem reféns deste labirinto. Aumentar a consciência das dificuldades comuns implica de forma prática assumir uma atitude empática com o outro “percebo que estás mesmo assustado e ansioso”, presente “estou aqui enquanto lidas com isso”, segura “vamos conseguir vencer isto juntos”, encorajadora “és capaz de lidar com isto, mesmo que agora te pareça muito difícil” mas também firme “isso é a POC a pedir-te que ritualizes, lembra-te que não és tu”.

Em conjunto podem ser pensadas algumas estratégias que ajudem alargar o leque de respostas promotoras da regulação de alguma da sintomatologia:

- Funcionar como equipa

- Ser estratega e ponderar “como posso ajudar sem estar a “alimentar” a sua POC?

- Nos rituais de verificação lembrar que estas são habitualmente excessivas. Incentivar a fazer verificações apenas uma vez, tal como responder a dúvidas. Contudo, ser paciente e ajudar a lembrar que é a POC que leva a sentir a necessidade de procurar certezas (absolutas) para gerir a ansiedade. É fundamental aprender conviver, tolerar, as com incertezas e dúvidas não oferecendo certezas mas apoio e encorajamento.

- Na iminência de fazer um ritual, ou evitamento, em relação qual sente dificuldade de resistir, o paciente com POC pode partilhar o que está a sentir, e por seu lado o familiar pode estar disponível para estimular a reagir, sem pressionar, até o impulso diminuir.

- Usar lembretes que aumentem a consciência “é a POC que te diz que nada é seguro”, “os riscos fazem parte da vida, sempre”, “e se… é a POC”, que podem ser usados pelos dois.

- Contra a acomodação familiar lembrar que dar garantias e reassegurar são atitudes que perduram a POC. Não contribuir para os evitamentos, por exemplo, deixar de ir a um sítio habitual porque gera rituais. Ou participar nos rituais, por exemplo, não falar durante as contagens para o outro poder chegar ao fim de forma “limpa”. Não assumir responsabilidades do outro como forma de o libertar dos rituais.

- Ficar atento a sinais de recaída podendo ser “guarda-costas” para que a POC não se volte a instalar na dinâmica familiar, podendo sinalizar isso ao paciente.

- Manter a terapia presente nos desafios do dia-a-dia “o que diria a tua psicóloga para fazeres?”

Em resumo, torna-se fundamental assumir, em sintonia, uma predisposição para aceitar as dificuldades comuns. Saber que cada elemento ocupa um lugar único de muitos desafios, e que esse reconhecimento e validação (mútuos), promovem um processo de cuidado recíproco.

Cada um, de forma individual, terá dificuldade em promover a mudança, mas numa comunhão de objetivos terapêuticos, ambos serão potenciais catalisadores de transformação.

Texto: Sancha Azevedo e Silva, Psicóloga Clínica e da Saúde

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