Se é daqueles pais que transformam a vida dos filhos numa novela mediática, com posts, fotografias e comentários constates nas redes sociais, saiba que, no futuro, pode vir a ser processado pela devassa da sua privacidade.

O tema está de novo em debate e foi o mais comentado pelos utilizadores do Mumsnet, o site sobre família mais popular do Reino Unido, nas últimas semanas. Pelo menos dois blogues e uma página de Instagram com milhares de seguidores acabaram por ser desactivados depois de serem alvo de vários comentários negativos e acusações de abuso.

Um estudo recente da London School of Economics (LSE), sobre o futuro digital, revela que três quartos dos adultos que usam a Internet todos os meses partilham fotografias ou vídeos dos filhos, sobretudo quando estes são mais pequenos.

Sabe-se que mais de metade divulga essas imagens entre familiares e amigos próximos, que um em cada 10 faz isso para uma comunidade com mais de 200 seguidores e que 3% exibe as fotografias em sites públicos, blogues ou em contas de Instagram.

Sonia Livingstone, professora de psicologia social no departamento de media e comunicações da LSE, e uma das investigadoras responsáveis por este projecto, disse ao The Guardian que é preciso ouvir os miúdos. “Entrevistámos várias famílias em que as crianças disseram preferir que os pais partilhassem menos fotos suas e que as consultassem antes de o fazer. Observámos mesmo que há casos em que são os mais pequenos a pedirem aos pais para pararem.”

A investigadora não entra, porém, em alarmismos. “Tendo em conta que essas partilhas também servem para unir as famílias, sobretudo quando estão geograficamente dispersas, também há vantagens, e as crianças apreciam esse lado. É uma questão de comunicação, de respeito e de consentimento”.

Será que esta nova geração está a crescer sem o direito à privacidade? “Eu não acho”, diz Sonia Livingstone. “As coisas estão a mudar. O que é importante é que as crianças se sintam respeitadas, dando o seu consentimento – esse é o cerne da privacidade.”

Genevieve von Lob, psicóloga clínica e autora de Five Deep Breaths: The Power of Mindful Parenting (Cinco Respirações Profundas: O Poder da Paternidade Plena), revela que cada vez mais pais questionam o direito de expor as rotinas dos filhos. “Provavelmente não é razoável esperar que os pais parem completamente de o fazer – as redes sociais já fazem parte do dia a dia e até têm alguns benefícios”, diz Von Lob. “Pode ser muito solitário passar dias seguidos só na companhia das crianças, e publicar fotografias dessa rotina acaba por ser uma forma destes pais contactarem com o mundo dos adultos. Mas eles devem tentar imaginar as consequência no futuro – se os miúdos se vão sentir envergonhados, aborrecidos, humilhados…”

“Será que chegaremos ao ponto em que as crianças processam os pais por exporem as suas infâncias na internet?”, questiona Claire Bessant, professora de direito da Northumbria University, Newcastle. E responde: “Tecnicamente, existem formas de impedir que os adultos exponham a privacidade das crianças. Mas a maioria não tem dinheiro para apresentar um processo judicial – e uma criança não é considerada apta a iniciar um processo judicial”, defende Bessant ao The Guardian. A mesma fonte lembra que as implicações deste tipo de conflito nas relações familiares podem ser desastrosas. “É fundamental educar pais e filhos para um diálogo em torno deste tema. Mas creio que já há um número significativo de adultos que só publica conteúdos sobre os mais novos depois de lhes pedir autorização. Isto já não é mau.”

Veronica Barassi, professora de comunicação e media da Goldsmith’s Universidade de Londres, que lidera o projeto Child Data Citizen, defende que “há um pânico moral” sobre a partilha de imagens on-line. No entanto, reconhece a existência de vários perigos. “Quando os pais publicam fotos os filhos em manifestações políticas, por exemplo, não percebem que estão a dar às crianças um perfil político que pode ser identificado no futuro. É importante recordar a forma como os nossos dados são comprados e usados ​​sem que façamos ideia”.

Bex Lewis, professor de marketing digital na Manchester Metropolitan University e autor de Raising Children in a Digital Age (Educar crianças na Era Digfital) deixa algumas dicas para poupar as famílias a aborrecimentos no futuro.

  1. Tente não pôr imagens da criança com a farda da escola.
  2. Não permita que se perceba quais são as rotinas da sua família.
  3. Não ponha imagens de bebés nus na praia.
  4. Não exponha as birras dos seus filhos: pode parecer divertido, mas é humilhante para eles.
  5. Não identifique o local das suas publicações.
  6. Mantenha a criança informada sobre a sua actividade digital no que a ela diz respeito.

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