O problema já não era novo: em 2017 a Organização Mundial de Saúde (OMS) estimava que entre 10 a 20% das crianças e jovens teriam problemas de saúde mental. No contexto atual, assumimos que esta percentagem tenha aumentado, não diminuído.

Naturalmente que face a estes números, estejamos motivados a desenvolver estratégias que possam ter um papel protetor da saúde mental nas crianças (e também nos adultos). E é aqui que entra o conceito de resiliência.

O que a ciência nos diz é que a resiliência não é uma simples determinação ou “força de caráter” que nos faz ultrapassar obstáculos. E não é algo inato, mas algo que se aprende, que prospera com relações significativas seguras e se conquista.

O que é a resiliência?

Do ponto de vista fisiológico, pode ser descrita como a capacidade do nosso cérebro alternar entre momentos de resposta ao stress e momentos de calma. Quando em stress, ativamos o sistema límbico, classicamente responsável pelo estabelecimento de uma resposta de fuga ou luta.

Com o desencadear desta resposta, o nosso corpo mobiliza recursos através da síntese de hormonas como o cortisol e a adrenalina, que, no imediato, nos protegem do desgaste e nos dão aquele empurrão que precisamos para enfrentar as dificuldades. No entanto, quando esta preocupação imediata subsiste, precisamos de reequilibrar estratégias, sair do modo combate e evoluir positivamente face à situação. É aqui que se materializa a resiliência.

Assim sendo, como podemos ajudar os nossos filhos a serem mais resilientes? (Sim, porque embora queiramos protegê-los de todo o mal, a verdade é que é humanamente impossível retirarmos todos os obstáculos do caminho dos nossos filhos).

A resiliência cresce com as relações significativas

Sim, a resiliência só pode crescer se a criança sente que não está sozinha, que partilha a jornada pela dificuldade com um adulto empático e disponível. E aqui a qualidade vale mesmo muito mais que a quantidade.

Dito desta forma parece um pouco estranho, mas para fazermos crescer a resiliência nos nossos miúdos, temos que lhes prestar atenção, uma atenção simples, à antiga, sem notificações das redes sociais, sem tablets, sem ecrãs à mistura. Uma atenção que se sente enquanto lhes damos banho, enquanto os ajudamos com os trabalhos de casa ou enquanto jantamos com eles. Nem sempre as crianças sabem que as amamos incondicionalmente e isso, sim, merece ser reforçado sempre.

E nem só de relações parentais se faz a resiliência: a família e amigos têm um papel importantíssimo, reforçando os laços de afeto que rodeiam a criança. Quanto mais estáveis e de confiança foram essas relações, melhor. A criança cresce na convicção que existe de facto uma rede de suporte que se preocupa com ela e sobretudo que torce por ela.

Dormir, comer e exercitar

Não existe estratégia de saúde mental que não passe por uma abordagem mais alargada do bem-estar. Naturalmente que isto inclui o sono, a alimentação e o exercício físico.

Somos o que comemos e naturalmente que escolhas alimentares mais saudáveis influenciam e muito a forma como lidamos com o stress.

Sabemos que nos últimos anos o sono tem sido muito maltratado, fruto da ausência de uma cultura de higiene do sono. Assim, promover a restrição de uso de ecrãs nas duas horas que antecedem a hora de dormir tem certamente um efeito benéfico, ao permitir uma normal síntese da hormona do sono, a melatonina. Para saber mais sobre as regras básicas de higiene do sono, veja este artigo no meu site.

Por outro lado, a atividade física regular tem a capacidade de ensinar o nosso corpo a gerir melhor a libertação e a metabolização das hormonas de stress.

Ensinar a recompensa adiada

Mais uma vez, numa época em que tudo é imediato, ousar sugerir que esperar por algo que se quer é de facto necessário para modelar a nossa resiliência natural é quase um ultraje. Aceitar que nem tudo acontece como e, especialmente, quando nós queremos é uma aprendizagem absolutamente vital. Mas como podemos ensiná-los a aceitar estes aspetos sem sermos naturalmente cruéis com os nossos filhos? Sem deixar de os proteger?

Simples. Através de um bom e velho jogo de tabuleiro, sobretudo aqueles com regras complexas, que exijam uma espera considerável pela vez de jogar, que tenham múltiplos revezes possíveis, que motivem a criança a ter um pensamento estratégico mais elaborado e sobretudo, que estejam feitos para que a criança possa de facto perder. Porque aprender a perder e mesmo assim, jogar o jogo seguinte, é uma ótima forma de aprender a ser resiliente.

Outros exemplos de recompensa adiada é a aprendizagem de um instrumento musical ou ouvir atentamente um álbum de música completo, ao invés de ouvir apenas as músicas que gostamos no Spotify ou mesmo ver uma série em família, mantendo inalterado o ritmo de um episódio por semana, ao invés de consumir episódios sucessivos numa maratona.

Gratidão, mesmo pelo inesperado

Provavelmente o tópico mais difícil de ensinar de forma teórica, mas fácil de modelar. A forma como diariamente somos capazes de encontrar as nossas bênçãos acaba por ter um efeito modelador da forma como enfrentamos as dificuldades. E mesmo as dificuldades, podem ser sempre recontextualizadas de forma a tornar mais evidentes eventuais pontos positivos.

Como disse no início deste texto, é importante usar a pandemia de SARS-CoV-2, com tudo o que trouxe de negativo, como uma alavanca para a discussão de um tema tão importante para adultos e crianças – a saúde mental.

Um artigo da médica pediatra Joana Martins.

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