Os últimos dados estão longe de serem tranquilizadores. De acordo com estudos norte-americanos recentes, a incidência de doenças pediátricas do espectro do autismo tem vindo a aumentar sensivelmente nos últimos anos e se há uma década afectavam, em média, uma em cada 500 crianças, hoje atingem uma em cada 110.

 

Alguns especialistas apontam este acréscimo à evolução dos métodos de diagnóstico, que permitem reconhecer sintomas cada vez mais cedo e até levar em linha de conta comportamentos que eram anteriormente descartados e que hoje são tidos como sinais de transtorno autista.

 

 

Mecanismos complexos

 

Para além disso, a comunidade científica tem procurado investigar as possíveis razões destas patologias. Questões genéticas, hormonais, tóxicas e até medicamentosas estão em cima da mesa e surgem regularmente trabalhos que procuram estabelecer relações de causa-efeito.

 

No entanto, ainda não foi possível conhecer de forma definitiva os complexos mecanismos que resultam neste tipo de alterações de comportamento.

 

Até porque as manifestações do espectro autista são inúmeras e os sinais podem variar de dificuldades moderadas de interacção social à profunda incapacidade de funcionamento que remete a criança para um mundo absolutamente solitário e a impede de viver de forma autónoma.

 

 

Detecção precoce

 

Num ponto os médicos e investigadores estão de acordo: quanto mais cedo forem levantadas suspeitas e feito um diagnóstico mais hipóteses tem o paciente de ser ajudado.

 

Os primeiros sinais de alarme são, habitualmente, levantados pelos pais e não devem ser menorizados pelos profissionais de saúde. Quem melhor conhece a criança é o pai e a mãe, que sabem determinar, por exemplo, se ela está a regredir na sua evolução ou se apresenta comportamentos incomuns ou diferentes de irmãos e primos.

 

A boa notícia é que, na esmagadora maioria dos casos, nada de errado se passa com a criança e os motivos de preocupação são eliminados através de uma observação e análise clínica.

 

 

Vários fatores

 

Ou seja, habitualmente o que se passa é que a criança pode até ainda não dominar uma qualquer capacidade – como falar ou andar – apenas porque ainda não chegou lá e não por incapacidade de o fazer. Ou então, manifesta traços de personalidade que inquietam os adultos mas que são isso mesmo: formas de actuar e desvendar o mundo.

 

Se o médico de família ou pediatra encontrar motivos que levem a pedir uma segunda opinião, existem especialistas que podem esclarecer a situação. Em Portugal, existem vários serviços públicos de saúde mental infantil que possuem equipas de pedopsiquiatras, terapeutas e outros técnicos que diagnosticam e abordam estes casos.

 

É possível às famílias solicitarem este tipo de abordagem. Basta pedir os contactos ao médico assistente ou dirigirem-se às unidades hospitalares da sua área de residência.

 

 

Processo longo e complexo

 

A confirmação de uma patologia do espectro autista numa criança nunca é um processo rápido ou fácil, já que não existem exames definitivos cujo resultado indique a doença. Chegar a resultados implica a profunda observação do quotidiano e comportamentos e a sua evolução ao longo de um determinado período de tempo.

 

Os médicos procuram também contar com a colaboração em empenho das pessoas que lhe são mais próximas. O testemunho da família, dos amigos e educadores é fundamental para procurar obter um diagnóstico. E mesmo com todo este esforço, nem sempre esse diagnóstico é claro. O número e variedade de transtornos do espectro autista é tal forma alto que quase chega a ser único de caso para caso. Este é um ramo da medicina em mutação constante e que coloca desafios muito especiais a todos os envolvidos.

 

De qualquer forma, o desenvolvimento de conhecimentos e abordagens clínicas tem permitido avançar na terapêutica e ajudar cada vez mais as crianças autistas e as suas famílias.

 

 

Maria C Rodrigues

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