No dia em que se celebra o Dia do Pai, 19 de março, partilhamos uma conversa com o ator e comediante Pedro Alves. Um pai muito orgulhoso que abriu o coração para partilhar a sua experiência no mundo da paternidade, sem se esquecer da relação que mantém com o progenitor.

Nesta entrevista fala ainda dos novos projetos, fazendo parte do elenco da nova novela da TVI, 'Festa é Festa', onde vai dar vida a Albino.

Mas não fica por aqui e confidencia ao Fama ao Minuto a sua visão em relação às dificuldades por que o setor da cultura tem passado, especialmente as pessoas do mundo do espetáculo que estão paradas. Motivo que leva Pedro Alves a sentir-se um felizardo por estar com projetos em andamento.

Mas primeiro falemos deste dia especial...

Ser pai é?

A melhor experiência do mundo. No meu caso, como tenho dois filhos, abres dois ficheiros no teu cérebro que nunca, em situação alguma, os consegues desligar ou apagar. Tudo o que fazes, a partir do momento em que és pai, passa a ser em função desse ficheiro que tens na cabeça. Passa a fazer parte, sempre, de todas as decisões, alegrias, tristezas… Só quando se é pai é que se consegue passar por essa experiência única. A primeira vez que tens nos braços a tua filha ou o teu filho, ligas ali um ficheiro que nunca mais apagas.

Sou muito relaxado, não sou aquele pai muito chato. Gosto dos bons momentos com os meus filhos, de me divertir com eles

O que sentiu durante a gravidez da sua mulher e nos minutos depois de os seus filhos nascerem?

É um processo que é tão gradual… A parte fixe é que imaginas como é que irá ser – se vai ser loiro de olhos azuis ou com o cabelo encaracolado e olhos castanhos, cara esguia ou cara redonda. Fazes milhentas conjeturas sobre isso e depois, no momento que o parto acontece e tens o teu filho na mão, pensas em tudo menos nestas coisas. Nem reparas se é loiro ou moreno… Só queres curtir o momento, tens ali nos braços pela primeira vez o teu filho. E foi isso que aconteceu e acho que acontece a todos pais.

Por mais que tentes dizer isso a algum amigo teu que vai ser pai, ele nunca consegue ver as coisas por este prisma, só quando as sentir. Por isso é que digo que a experiência de ser pai é única – porque há coisas que só nós próprios é que conseguimos sentir na hora, e todas as sensações que isso transmite. Como é que algo tão pequenino, tão frágil, te deixa – por muito forte que sejas - a pessoa mais melosa do mundo... E depois durante os primeiros meses de vida acontece exatamente o mesmo: ‘Estou contente por estar a mudar as fraldas’.

São processos giros e é muito fixe ser pai, em todas as idades, não é só quando são pequenos. O meu filho mais velho tem 17 anos e a mais nova tem 10, e é uma diferença brutal dos 10 anos do meu filho para os 10 anos da minha filha. E vou sentir o mesmo quando a minha filha tiver 17 anos, vai ser completamente diferente do que estou a viver agora com o meu filho. Está sempre em constante evolução. É uma experiência fantástica.

E que tipo de pai é o Pedro Alves?

Sou muito relaxado, não sou aquele pai muito chato. Gosto dos bons momentos com os meus filhos, de me divertir com eles – embora o meu filho seja completamente diferente da minha filha. Tento aproveitar o melhor dos dois aos fins de semana quando tenho tempo livre. Nunca dei nenhuma palmada. Por acaso tenho sorte porque os meus filhos nesse aspeto não exigem muito de mim e quando estou com eles é sinónimo de diversão. É óbvio que há alturas chatas, mas mesmo quando é na parte de estudar nunca é comigo [risos]. Sou aquele pai que, felizmente, consegue espremer o sumo todo bom de estar com os filhos. Sou um felizardo nesse aspeto.

O que nunca deixaria os seus filhos fazer e o que já o deixou muito orgulhoso?

Deixam-me orgulhoso todos os dias, isto é a sério, estou a dizer a verdade. Todos os dias sinto um orgulho enorme dos meus filhos porque são meigos, ternos, educados, sabem estar, são muito divertidos… São atributos que gosto de ver na canalha. São miúdos com vida, mas quando se tem de dizer para parar eles acatam e é tranquilo. Sou um pai com muito orgulho, mesmo quando tiram uma nota menos boa [na escola] - porque na maneira como me transmitem que tiveram uma má nota, denunciam que não foi algo que fizeram de propósito, não estão ali com tangas para me esconder as coisas, vão diretos ao assunto. Serem verdadeiros também é um motivo de grande orgulho. O que não admito é a mentira. Para mim, foi daquelas coisas que os meus pais me transmitiram e eu transmito aos meus filhos. Mentira nunca! É a coisa mais feia que pode existir.

E o que nunca os deixaria fazer – ou acha que nunca vai deixar fazer?

Não posso fazer suposições sobre isso. Olhando para a personalidade de um e do outro, posso dizer que a visão que tenho é uma coisa tão ampla que não consigo dizer nada em concreto em relação a isso. Também sou aquele pai que não faz previsões do género: gostava que fosses isto ou aquilo. Quero que eles sejam aquilo que quiserem ser, que sejam felizes acima de tudo, e que tenham sempre os princípios que lhes tentei transmitir.

Dia feliz é aquele dia que acaba e tens um beijo, dizerem-te que gostam muito de ti

Costuma assinalar o Dia do Pai? Como é que passa este dia?

Antigamente, quando eles eram mais novos, por causa das atividades dos infantários e da pré-escola, era uma coisa mais presente, mais vincada. Agora o mais velho já está naquela fase que já não faz desses trabalhos, a mais nova também já vai nesse caminho. Hoje em dia, é um dia normal, falo com os meus filhos e tudo, mas ter aquelas prendas que eles me davam, não ligo muito a isso. Mesmo com o meu pai também nunca fui muito dessas lamechices. É um telefonema normal, saber se está tudo bem para mim chega. É como o Natal, ser pai somos todos os dias, sempre [risos].

Além do nascimento deles, qual foi o dia mais feliz que viveu com os seus filhos?

São tantos… Para mim qualquer dia é feliz. Por exemplo, no domingo pode ser o dia mais feliz da minha vida se for andar com eles de bicicleta a manhã toda. Isso para mim é um dia muito feliz, ir curtir com os meus tesouros… Quando fazia corridas de automóveis, por exemplo, era sempre um dia feliz eles estarem a vibrar com a corrida e tê-los depois ao meu lado a ir receber a taça… Dia feliz é aquele dia que acaba e tens um beijo, dizerem-te que gostam muito de ti. O meu filho não sente tanto, mas a minha filha sente, chegares a casa depois de teres passado uma semana fora e sentires um abraço é um dia sempre muito feliz.

Há alguns anos o seu filho foi diagnosticado com leucemia, batalha que conseguiu vencer. Qual é o papel do pai nestas lutas e o que se sente quando se passa por uma fase como esta?

Primeiro senti a estranha sensação de ficar sem chão, quase idêntica a de seres pai pela primeira vez, que é algo que por mais que tentes explicar nunca vais perceber o que senti. Tive uma sorte imensa – hoje em dia consigo perceber isso – de ter recebido a notícia minutos antes de entrar para o palco. Acho que aquela hora e meia de espetáculo que tive a seguir à notícia foi boa porque acabei por estar um bocado desligado da situação, não entrei em conflito. Numa altura dessas sentes uma revolta enorme, do género, podia acontecer a toda a gente e porque é que aconteceu ao meu filho, porque é que não aconteceu antes a mim… Acho que aquele momento em que estive em palco com o João Paulo Rodrigues ajudou um bocadinho, de tal forma que quando sai dali – obviamente que quis ir logo estar com ele e saber do que se tratava -, cheguei ao IPO do Porto muito mais calmo e consciente em absoluto de que o meu filho ia ficar bem.

Foi importante, tanto da minha parte como da parte da mãe, ele sentir que nós tínhamos a certeza que ia ficar bem. Acho que o principal papel dos pais e dos familiares mais próximos nestas alturas é as pessoas sentirem que vai ficar tudo bem. Porque se não tiverem algo a que se agarrar, a coisa fica muito mais difícil.

Agarrei-me a isso na altura e fiz com que isso fosse transmitido para ele, e também aconteceu isso por parte da mãe. Felizmente correu tudo bem e já passaram uns anos largos. É uma experiência inesquecível, tem momentos terríveis, maus, mas consegue-se tirar coisas muito boas mesmo para o futuro. A maneira como comecei a ver certas coisas... Comecei a relativizar muita coisa que antes dava muita importância. E fez com que a minha vida ficasse muito mais simples e melhor.

Enquanto filho, como é que vê o seu pai?

O meu pai é o meu melhor amigo mais velho.

Aquela pessoa com quem partilha tudo?

À vontade, estás completamente à vontade. Não temos aquela relação lamechas. Temos uma relação de perfeitos e grandes amigos, é um amigo com quem posso falar descomplexadamente de qualquer assunto e que posso pegar nele e levá-lo a fazer o que eu tiver a fazer, seja em que situação for. Se tiver com um grupo de amigos e me convidam para ir para a noite beber uns copos, o meu pai está perfeitamente na boa para ir connosco. Às vezes são os meus amigos que dizem para eu perguntar ao meu pai se ele quer ir. Ele acaba por ser uma pessoa da nossa idade…

Que características dele que mais destaca e com quais é que se identifica menos?

A que mais destaco é ser uma pessoa correta que se dá ao respeito e com carácter. É muito importante teres e manteres sempre o teu carácter, e não mentir – mas isso está dentro da parte do carácter. O meu pai passou este legado para mim e tento passá-lo para os meus filhos porque acho que quem não se dá ao respeito e não tem carácter hoje em dia, e sempre, são pessoas que a nossa sociedade não precisa, muito menos de amigos assim. Na minha própria seleção de amigos procuro pessoas exatamente com as mesmas características.

A parte do meu pai que menos gosto, ele é uma pessoa muito resiliente. Quando mete na cabeça que vai aprender a tocar acordeão – isto é verdade -, só pára quando já comprou quatro acordeões e já não consegue tocar mais, e depois passa para outra coisa. Irrita-me um bocado porque, por exemplo, se ele está com algo, se lhe pergunto se quer ir comigo ver o Rali de Portugal, ele diz-me que não pode porque tem uma coisa com o rancho ou com o pessoal das guitarras. E quando eu lhe pergunto se ele não pode deixar isso para outro fim de semana, ele diz que não [risos]. Irrita-me só nisso, de resto, o meu pai é a pessoa mais dócil do mundo.

Comigo não há pressão absolutamente nenhuma. A única pressão que tenho é a minha, porque quando agarro algo é para levar ao máximo e fazer as coisas o melhor que posso

Agora faz parte da nova novela da TVI, ‘Festa é Festa’, como foi anunciado na semana passada. O convite chegou por parte da Plural ou pela própria Cristina Ferreira?

Foi por parte da Plural. Ligaram-me a perguntar como é que eu estava de disponibilidade…

E o que podemos saber sobre este projeto?

Uns chamam novela, outros série, outros sitcom… Para mim é um projeto que me aliciou porque tem a ver com comédia bem feita. Não é palhaçada, é um formato de comédia em que todas as situações envolvidas na história têm piada mas estamos a fazer aquilo de maneira séria. Tem sido um desafio enorme para mim, o bom acting de todos… Comédia feita de forma séria em formato de novela é a primeira vez que isso vai acontecer no nosso país, e está a desafiar-me a todos os níveis porque eu dizia sempre que não ia fazer novelas e dava tanga ao João Paulo Rodrigues por causa dele fazer novelas. Hoje em dia vejo-me envolvido num projeto que é uma novela. O que é que podemos aprender com isto? Não dizer desta água nunca beberei.

Também aceitei porque tinha este formato. Se fosse uma novela normal ou típica não sei se embarcaria no jogo. Mas quando me falaram e disseram que o personagem era a minha cara, e depois de ter vistos as coisas, gostei muito e estou a adorar a experiência.

Já fiz filmes, séries de televisão, já fiz tantos trabalhos, mas uma novela, ter direção de atores, ter ensaios e o que estou a ter nestas últimas três semanas é tudo novo para mim. E estou ali a absorver tudo porque quero agarrar e estar focado naquilo. Tenho a certeza de que vou fazer o melhor de mim e que vai ser uma cena do caraças.

Sobre a sua personagem, há alguma coisa que nos possa adiantar?

O Albino é presidente da junta de freguesia, presidente do clube de hóquei e coveiro… Todas as personagens são personagens reais, que pode acontecer em qualquer aldeia, e há também o Bino. Depois há aquelas coisas típicas, há o café onde vai toda a gente e onde se sabe tudo, há o carteiro que é o maior troca tintas que pode existir e que ao baralhar-se com as cartas arranja sempre confusão… Está muito bem feito, é um produto leve e muito fresco para se consumir sem estar com aquele ambiente pesado. Muito fixe.

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Especialmente nos últimos tempos, a TVI e a SIC estão cada vez mais a ‘lutar’ pelas melhores audiências. Obviamente que está a fazer uma novela e não um programa, mas sente algum tipo de pressão nesse sentido?

Comigo não há pressão absolutamente nenhuma. A única pressão que tenho é a minha, a mim próprio porque – estava a falar do meu pai e também sou um bocado assim em trabalho - quando agarro algo é para levar ao máximo e fazer as coisas o melhor que posso. Estou completamente alheio a tudo isso, nem passa pelo meu filtro de preocupações.

Podemo-nos dar por muito felizes numa época que não anda nada fácil para a malta do meio - falo agora da parte dos espetáculos que não estão a acontecer. Nós felizmente temos trabalho e projetos novos para fazer

E agora que está de regresso à TVI, o João Paulo Rodrigues está na RTP… Andam um bocado desencontrados…

Lá há-de acontecer um dia, a gente encontrar-se os dois [risos]. Mas acho que é muito fixe porque o João está com um percurso de televisão muito bom. Ele traçou o caminho dele, tenho muito orgulho naquilo que tem feito ao longo destes anos. Acho que estar na RTP (que é a nossa casa mãe), é um sítio excelente para ele, com estes projetos todos novos que tem e que o tratam da maneira que merece ser tratado. Ele está bem e eu emigrei, ando aí a ganhar dinheiro e experiência em novas aventuras, noutros sítios. Quem sabe um dia nos encontremos novamente na casa mãe. Isso pode acontecer ou não, o que interessa é que nós podemo-nos dar por muito felizes numa época que não anda nada fácil para a malta do meio - falo agora da parte dos espetáculos que não estão a acontecer. Nós felizmente temos trabalho e projetos novos para fazer, e não temos grandes preocupações como tem muita gente do nosso meio do espetáculo que não tem nada para fazer agora.

Preocupa-nos muito essas pessoas que trabalham connosco nos espetáculos, mas também nos preocupa uma coisa muito importante que é o nosso público passar tanto tempo sem estar connosco. Acho que as pessoas também precisam disso. Ao domingo à noite temos mantido os nossos diretos através do Instagram, às 23h, em que descomprometidamente falamos de qualquer assunto. Não queremos quebrar o elo de ligação que temos com o nosso público, visto que não sabemos quando é que vamos voltar à normalidade com os espetáculos - nós temos seis ou sete espetáculos esgotados que estão constantemente a serem adiados, isto provoca uma ansiedade enorme em nós e também nas pessoas. Se as pessoas compraram o bilhete e não querem a devolução é sinal que querem ver o espetáculo…

No mês de abril vamos fazer três streamings, em direto, no dia 1 de abril – que se vai chamar ‘Parece Mentira’ –, depois no dia 15 e outro a 29. Completamente livres, qualquer pessoa pode assistir, e vamos fazer com a banda. A nossa preocupação foi conseguir fazer para termos essa ligação com o público e também arranjar patrocínios para que o pessoal que trabalha connosco pudesse ganhar dinheiro com essas três atuações. E depois é esperar que as coisas em maio comecem a animar e a gente possa fazer espetáculos novamente. Tenho muitas saudades...

Não é de agora que a cultura tem vindo a lutar pelos seus direitos, mas com a pandemia são cada vez mais os movimentos feitos nesse sentido. Sente que com esta nova força vão conseguir chegar a um patamar que ainda não tinham conseguido até aqui?

Sou muito pouco otimista em relação a esse assunto. Imagina uma pirâmide alimentar, o pessoal do palco, dos espetáculos ao vivo – tanto seja em salas de espetáculo, discotecas, bares ou festas populares -, nós e o pessoal das discotecas e bares vamos ser os últimos elementos desta cadeia a funcionar. Tenho a certeza que quando começarmos a funcionar vamos ter trabalho como nunca, o problema é como é que se vai chegar até lá. Não vejo grandes iniciativas, atividades ou medidas a serem tomadas para muitas pessoas que estão aí sem trabalho.

Por exemplo, eu e o João fazemos estrada há vinte anos e cruzamo-nos com muitas pessoas de bandas populares, de rock, de baile, que têm camiões palco que custam muito dinheiro, que fazem sempre de um ano para o outro para fazerem o maior espetáculo possível, para serem os melhores, para serem contratados e fazerem 100 espetáculos por ano… Os investimentos que provoca isto de um ano para o outro... Quem fez esse investimento de 2019 para 2020, o buraco que provocou... Não vejo grande ajuda para essa malta, que é muita no nosso país. Isto é um exemplo no meio de tantos outros que há, como as companhias de teatro fechadas, tudo…

O que peço sempre é que as pessoas se aguentem até lá porque, se conseguirem, quando as coisas arrancarem não tenho dúvidas que vão ganhar dinheiro e vão trabalhar como nunca, que vão ser tempos muito bons. O que me preocupa é o tempo que vai demorar até chegarmos lá. Deixa-me muito triste este assunto.

O que gostavas de dizer no final de 2021?

F*** Covid! Tenho saudades de coisas tão básicas… Dar uma volta de mota e poder parar num sítio sozinho, numa esplanada, a beber um café e ir para casa. Agora faço isso, mas a diferença é que não tenho onde parar. A minha volta começa e acaba em casa… Fora a parte de ir para os amigos a algum sítio, isso nem se fala.

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