Nasceu Maria de Fátima Gomes Nogueira mas é como Joanna que muitos a conhecem. A cantora brasileira, filha de um português da região de Castro Daire, está de regresso a Portugal para dois espectáculos, após um interregno de 10 anos. Em entrevista ao Modern Life/SAPO Lifestyle, explica as razões da ausência, fala da fé inabalável que tem e ainda revela quais são as especialidades portuguesas de que tem mais saudades.

Regressa agora a Portugal para dois concertos depois de 10 anos sem pisar os palcos portugueses. O que é que podemos esperar destes espetáculos?

Eu nunca fiz um espetáculo em Portugal que não fosse especialmente desenvolvido para o vosso país. É uma regra que sigo sempre. Em todos os meus espetáculos, dedico-me ao desenvolvimento de todo o conceito, desde a montagem das luzes, ao som, ao cenário… Estes espetáculos não são exceção e vão compor-se de grandes sucessos conhecidos, quer no Brasil quer em Portugal.

Tenho também alguns temas em que homenageio grandes nomes da música brasileira, como é o caso do Chico Buarque. Acredito que será um espetáculo inesperado e cativante, com momentos muito românticos. Também vai ter canções portuguesas, que eu adoro cantar e que, desde sempre, incluí no meu repertório.

Pode, desde já, adiantar-nos quais serão?

Uma das eleitas deste ano é do Jorge Palma. Tenho uma verdadeira admiração pelo trabalho dele e escolhi uma canção dele para incluir na segunda parte do espetáculo. As outras serão uma surpresa. Haverá mais duas de que eu, particularmente, gosto muito, que são de diferentes estilos musicais.

Esteve 10 anos sem atuar em Portugal. Os mais saudosistas vão querer ouvir os seus maiores êxitos, como o "Amanhã talvez", que não pode faltar…

O espetáculo vai ser composto por duas partes. Uma primeira que combina os meus grandes sucessos com algumas canções inéditas e uma segunda parte que será constituída pelas homenagens que faço a grandes nomes da música brasileira e da música portuguesa.

É um espetáculo muito bonito. Muito forte, muito vibrante… Eu ausentei-me de Portugal por uma necessidade de amadurecimento. Achei que não estava pronta para voltar com outros projetos e para ter novos voos. Fiquei muito tempo burilando as minhas novas formas de cantar e aprofundando o meu jeito de compor.

Por que é que sentiu essa necessidade nesta fase da sua vida e da sua carreira?

Porque eu quis fazer outras coisas na minha vida privada que nunca tinha tido tempo de fazer até aí. Tirei esse tempo e reservei esse espaço temporal para mim por uma questão de necessidade, uma opção de absoluto prazer. Mas isso não me deixou tão longe de Portugal como parece.

Joanna regressa aos palcos portugueses 10 anos depois.
Fotografia de Beti Niemeyer

O trabalho que desenvolvi ao longo deste ano, que vai sair brevemente em disco e em DVD, foi pensado e acompanhado de perto por um dos grandes nomes da poesia portuguesa, que é o Tiago Flores da Silva, meu parceiro de composição, que está muito presente neste álbum novo. Levar este espetáculo para Portugal agora é bom para vos mostrar que estou revigorada e para vos dar conta desta nova fase da minha carreira.

Nestes 10 anos de interregno, veio alguma vez a Portugal ou foram mesmo 10 anos de ausência física do país?

Estive aí várias vezes durante este período. Estive no Algarve e, depois, no Alentejo. Amo Lisboa. Adoro o Porto. Fiz uma pequena volta por Portugal, fiquei algum tempo, abasteci-me de todas as energias de que necessitava e, como adoro frio, fiz questão de ir aí no auge do inverno e voltei revigorada.

E foi a Fátima durante o passeio que deu por Portugal?

Sim, vou sempre. Gosto muito de lá estar porque o ambiente sagrado daquele espaço dá-me muita paz e muita serenidade. E, como eu tenho devoção pela Nossa Senhora de Fátima, emociona-me muito estar lá. Para mim, é quase como uma obrigação nas minhas idas a Portugal, para poder agradecer pelas coisas maravilhosas que me têm acontecido.

Não só as maravilhosas como aquelas que me dão força para continuar a fazer a minha caminhada neste mundo. Gosto de ir lá para agradecer e para estar em paz com a fé inabalável que tenho na Nossa Senhora, uma fé que tenho em mim e que me acompanha desde os tempos em que ainda vivia com a minha família.

Nasceu Maria de Fátima Gomes Nogueira. No início da sua carreira, esteve, curiosamente, para se chamar Fátima Nogueira ou até Nina de Fátima. Alguma vez se arrependeu de não ter ficado com um desses nomes?

Na realidade, o que aconteceu em 1979 foi uma coisa interessante. Haviam 32 cantoras novas prontas para serem lançadas no mercado e, nessa lista, haviam seis Fátimas. Era muita Fátima para o mercado! Então, o meu produtor sugeriu que me apresentasse como Joanna. Graças a Deus, deu certo, mas apenas por essa razão! Se não tivesse sido isso, seria certamente Maria de Fátima…

Passados estes anos todos, quase 40, continua a gostar do nome? Nunca se cansou dele? Acha que foi uma boa opção?

Não, nunca. Gosto muito! Hoje, é o nome que uso no meu bilhete de identidade. Não vale a pena chamarem-me Maria de Fátima. Se o fizerem, é que eu que vou estranhar!

Ainda há alguém que hoje lhe chame Maria de Fátima?

Eu tenho uma alcunha familiar, que é Nina. Como nasci muito pequena e com pouco peso, começaram a chamar-me Pequenina e, depois, com o passar dos anos, passei a Nina. Mas sou Joanna para todos, de uma maneira em geral. A minha família chama-me de Nina mas o resto das pessoas, habitualmente, chamam-me Joanna.

A Joanna tem ascendência portuguesa…

Sim, sou filha de um português, do norte. E tenho familiares portugueses ainda vivos, primos de primeiro e de segundo grau, além de uma tia, que é a única que tenho, que mora no bairro da Graça, em Lisboa. Vou sempre visitá-la quando vou a Portugal.

Dada essa ascendência, qual é a relação que a Joanna tem hoje com Portugal?

É uma relação de raízes profundas porque tudo aquilo que sou e sei é o resultado de uma aprendizagem familiar muito grande. O meu pai sempre foi uma pessoa muito austera mas eu acho que foi muito benéfico para a nossa educação. Somos cinco irmãos e toda essa educação, sempre marcada por uma grande firmeza, foi muito boa e muito proveitosa para a nossa vida enquanto seres humanos.

Joanna regressa aos palcos portugueses 10 anos depois. «Ausentei-me por uma necessidade de amadurecimento»
Fotografia de Beti Niemeyer

Tenho muito orgulho em fazer parte de uma família com muita dignidade, que teve muito amor por nós. Portugal é a minha segunda casa por todos os motivos e mais alguns. Voltar a Portugal é dar mais um mergulho nas minhas raízes e não o digo à toa.

Em 1998, há precisamente 20 anos, lançou "Intimidad", um disco no qual canta em espanhol canções bastante diferentes das que tinha feito até aí. O que é que a levou, na altura, a fazer um disco tão disruptivo em relação ao que tinha apresentado até então?

Foi quase uma exigência do mercado. Tinha muitas propostas de editoras discográficas de países da América Latina para fazer um disco em espanhol. Na altura, procurei um dos produtores mais emblemáticos desse mercado para que ele pudesse compor para aquele que também era um sonho meu.

Gravámos o disco fora do Brasil, em Nova Iorque e em Los Angeles, durante dois meses e foi surpreendente o sucesso que teve, na altura, fora do Brasil. Foi esse disco que me abriu as portas a esse mercado e que me permitiu começar uma carreira internacional na América Latina. É, aliás, o meu álbum de eleição. Gosto muitíssimo desse disco!

Nos últimos anos, gravou também muitas canções religiosas. Para além de ser devota de Nossa Senhora de Fátima, é também devota de Nossa Senhora da Aparecida desde pequena, como já assumiu publicamente em diferentes ocasiões. Qual é o papel que a fé ocupa na sua vida?

A fé é uma mola [impulsionadora] muito importante para a nossa caminhada neste mundo de hoje, que é bastante conturbado. É um parâmetro, é um norte… A nossa vida espiritual tem de estar muito alinhada para que possamos viver com tranquilidade e transmitir também essa tranquilidade às pessoas que nos rodeiam. Para mim, a fé é uma trave-mestra, na qual me posso apoiar todos os dias para seguir em frente.

Joanna regressa aos palcos portugueses 10 anos depois. «Ausentei-me por uma necessidade de amadurecimento»
Fotografia de Beti Niemeyer

Esses projetos, no fundo, foram apenas dois, um deles para a novela "A padroeira", que foi uma canção que se transformou praticamente numa prece. Antes, já tinha tido vontade de compilar as grandes obras religiosas que foram feitas em nome de Nossa Senhora, canções que foram cantadas nas missas brasileiras. Eu fui criada num ambiente religioso e ouço muito esse tipo de canções desde a minha infância.

Na altura, fiz uma retrospetiva. Foi um trabalho muito árduo. Não foi fácil recuperar todas as canções com as suas letras originais mas, do resultado desse trabalho, nasceu o disco "Joanna em oração", que fiz só com canções dedicadas a Nossa Senhora. Foi uma homenagem que eu quis fazer e um trabalho de investigação que quis que fizesse parte da minha discografia e que fosse conhecido pelo grande público.

Mas não se ficou por essa homenagem…

Doze anos depois, fiz um disco de homenagem a um padre por quem eu tenho uma grande admiração, que é o Padre Zezinho [José Fernandes de Oliveira, padre dehoniano, escritor e músico brasileiro]. Fiz-lhe uma homenagem na altura em que ele estava a celebrar os seus 25 anos de carreira musical. É um homem conhecido no mundo todo pela sua fé inabalável. Ficou uma homenagem muito bonita.

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Ele adorou e ficou um disco para a posteridade…. Foram dois álbuns que ficaram na minha discografia mas o meu trabalho é totalmente dedicado à música brasileira.

Acabei agora de gravar um disco, que será lançado no final deste ano ou no início do próximo, que tem muitas canções inéditas.

Voltei a compor desbragadamente e também fiz parcerias com o poeta português Tiago Flores da Silva. Ele está muito presente neste CD.

Nesta fase da sua carreira, há outras parcerias, com outros compositores e letristas, que ainda gostava de concretizar?

Eu encetei agora esta nova colaboração com o Tiago mas também retomei a parceria vencedora com a [compositora brasileira] Sarah Benchimol. Fizemos, sem fugir muito daquilo que já tínhamos composto há 20 anos, um trabalho muito diferenciado. Compusemos canções muito emblemáticas. Este regresso da parceria com a Sarah é muito salutar.

Mas nós, artistas, temos sempre vontade de fazer trabalhos com outras pessoas. Deixa ver o que é que o tempo nos traz... Esta parceria com o Tiago era uma coisa que eu nem sequer imaginava que seria possível mas a nossa relação foi amadurecendo. Esta nossa amizade foi-se tornando numa grande amizade… Eu tenho muitos amigos em Portugal, cantores e artistas. Estas coisas depois acabam por fluir com o tempo...

Ao contrário de muitos brasileiros, que tendem a ser muito agitados e exuberantes, a Joanna é muito calma e muito discreta quanto à sua vida pessoal e amorosa e até em relação ao seu quotidiano, ao invés de muitas celebridades que expõem a sua intimidade nas redes sociais. Por que é que é assim?

Eu costumo dizer que sou muito clássica. Acho que a nossa vida particular deve ser só nossa. A minha vida profissional está exposta ao mundo. Eu sempre procurei preservar a minha vida privada porque acho que não deve ser pública. Mas é claro que nem todos temos de ter a mesma postura perante a vida. Esta necessidade de preservação faz parte da minha índole. Sinto-me mais tranquila desta forma…

Está entusiasmada com este regresso a Lisboa e ao Porto. O que é que pensa fazer por cá?

Estou hiper feliz por estar de regresso a Portugal. Tenho A certeza que serão dois espetáculos inesquecíveis. Vou querer ir à terra do meu pai, uma aldeia que fica perto de Castro Daire. Vou aproveitar o outono e tentar apanhar a época de que mais gosto em Portugal, que é o inverno. Vou dar uma volta pelo país para aproveitar o frio maravilhoso que, por vezes, já se faz sentir nesta altura.

Muitos estrangeiros elogiam a nossa comida. Gosta de alguma especialidade típica portuguesa? Há assim alguma coisa de que tenha mais saudades?

Nem me fale da comida de Portugal! Não a mim, que estou a fazer dieta, imagine-se... Adoro as amêijoas à Bulhão Pato, os percebes… O peixe é maravilhoso mas o meu prato de eleição é o bacalhau com natas, que só se consegue fazer bem e que só sabe bem em Portugal. Tenho a certeza que vou regressar mais gorda ao Brasil…

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