O movimento O MAIOR SORRISO DO MUNDO nasce em 2013 para reforçar esta mensagem e representa alegria, amor, saúde e bem-estar.

Figuras públicas e empreendedores aderiram à causa e partilharam os seus testemunhos. Leia a história de Heitor Lourenço.

O que o faz sorrir?

Heitor Lourenço: Não há nada em particular que me faça sorrir. É uma maneira de estar, uma procura minha de há muito tempo, tentar estar bem, tentar ver as coisas de uma forma satisfatória. Mais do que a felicidade, que eu não sei o que é, prefiro ir arranjando um contentamento, estar contente, e isso pode transformar-se em felicidade um dia. Eu gosto muito de sorrir. A mim faz-me sorrir estar num caminho e ter escolhido o budismo, é uma investigação da vida e do que é o ser humano e isso faz-me sorrir porque me faz estar vivo. O sorriso é um conceito. Quando nasce uma folha verde, isso é um sorriso da árvore.

Acha que o sorriso é terapêutico?

Heitor Lourenço: Eu acho que sim. Não tenho a certeza se ao induzires um sorriso provoca bem-estar interior, mas eu acho que sim. O sorriso é a ponta de um iceberg. Eu sei rir sem ter um grande sorriso. Quando o sorriso é verdadeiro é porque há alguma coisa cá dentro que te faz ter esse sorriso. Gosto muito da comédia na minha profissão, entre os diversos estilos da representação muitas pessoas dentro da minha classe consideram que o drama, aquelas coisas muito intelectuais, muito literárias, herméticas, muito fechadas é que são as importantes e de repente chegas a uma peça em que a pessoa ri sem pensar e acho que o que provoca o sorriso é o que faz melhor às pessoas. As pessoas procuram sentir-se bem, é um estado natural, fundamental, e a que todas as pessoas têm o direito.

Gosta mais de comédia na sua profissão porque se sente bem nesse papel ou porque faz sorrir as pessoas?

Heitor Lourenço: Eu não escolhi, foi algo que foi acontecendo, não escolhi a comédia, sou uma pessoa bem-disposta, gosto muito de fazer comédia. Já fiz grandes personagens dramáticas. Eu gosto mesmo de estar bem e por causa disso é que se calhar me começaram a convidar para personagens de comédia. Quando consegues pôr uma sala inteira a rir, isso é muito gratificante, quase que é um poder, o humor é uma arma. Mais do que arma é muito gratificante e um poder que não é malévolo, é engraçado fazer sorrir. Uma das grandes funções do actor é fazer rir. A comédia é muito mal tratado no meio, mas eu acho que é cada vez mais importante e agora noto que há cada vez mais uma avidez de sorrisos nos espetáculos. As pessoas procuram aquilo que as faz sorrir.

Saiu um estudo em Portugal que refere que os portugueses estão a sorrir cada vez menos. Que conselho tem para os portugueses que perderam o sorriso?

Heitor Lourenço: Acho que há muitas razões para os portugueses não sorrirem. Há pessoas a passarem dificuldades graves, mas também tornámo-nos numa sociedade em que  o fundamental dos valores vão para outros sítios. O medo de queda em acções. O materialismo, o consumismo não são coisas fundamentais. Há mais vida para além da parte material e é complicado porque precisamos dessa parte para viver, mas a minha opção é não colocar o meu fundamentalismo nessa parte. espero um dia ser capaz de viver com muito pouco, ainda não tenho esse treino, mas acho que é possível, voltar ao fundamental como é o próprio sorriso, o sorriso não é uma coisa material. Já viajei muito e não me posso esquecer de um sítio muito pobre na Índia, em Varanasi e não notei aquele miserabilismo que noto na parte Ocidental quando não existe a parte material. Estava a observar bastante pobreza, olhei para uma rapariga que estava num terraço ao lado de uma casa, ela de facto parecia muito pobre e estava tal como eu a olhar para o rio Ganges que é lindíssimo, e estava com um sorriso pequenino, mas um sorriso que nunca vi aqui numa pessoa que aparentemente seria pobre. Não tinha um olhar e um sorriso de quem passava por dificuldades.

Faço voluntariado em hospitais pediátricos através da Fundação do Gil e há uma história engraçada sobre o tipo de voluntariado que fazia. No IPO os miúdos estavam muito débeis e pensava muito se eu fazia alguma diferença estar ali enquanto voluntário. Um dia estava a contar uma história a um menino que estava ao colo da mãe, ele estava sem cabelo, com um ar debilitado e cabisbaixo e ao mesmo tempo que se ia desenrolando a história pensava na dúvida que tinha, que provavelmente o menino queria tudo menos estar ali comigo, e há uma parte da história em que havia um personagem que pregava um susto a outro e eu faço tipo “Bah” e nesse momento ele sorriu e eu vi uma luz, uma criança que até ali não tinha visto, com olhos brilhantes e com um sorriso. E lembrei-me de uma frase que eu adoro: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, de Fernando Pessoa.

Que história deixava escrita para inspirar as pessoas daqui a umas décadas?

Heitor Lourenço: Gostava muito de escrever sobre alguns sítios por onde passo, sobre a Índia, Nepal, gosto de me informar sobre coisas que fazem parte da cultura, como sou budista vou conhecendo a parte da cultura budista que é muito pouco conhecida na nossa cultura ocidental.

Qual é que foi o momento a nível profissional que lhe trouxe mais sorrisos?

Heitor Lourenço:  A minha profissão é complicada de sorrisos, trabalhamos com as emoções e com os egos. Não tenho uma coisa isolada, até porque sou de sorrisos fáceis. Não consigo identificar um momento. De 3 em 3 meses mudo de projectos. O que me traz mais sorrisos é quando sou abordado pelo público. Será sempre isso. Sorrio muito quando vêm ter comigo e falam sobre o meu trabalho. Eu já fiz mil e uma coisas, escolher um momento não sou capaz, mas talvez… “A tua cara não me é estranha“ gostei imenso, trouxe-me imensos sorrisos.

Lembro-me do início da carreira, há 27 anos, quando fui aceite no primeiro workshop profissional na Gulbenkian, eu fiquei num estado de êxtase. Lembro-me da primeira vez que ganhei um papel em televisão num elenco fixo: “Uma Casa em Fanicos”, com o Nicolau Breyner.

Todas as conquistas fizeram-me sorrir. Quando acabo um trabalho volto sempre à estaca zero. Nunca há nada adquirido.

Os meus grandes sorrisos são da minha vida maior para além daquilo que eu faço.

Acho que existe algo maior para além da vida. Há muita coisa que não sabemos. Tudo aquilo que conhecemos do mundo está sempre envolto nas nossas percepções e naquilo que nós interpretamos acerca delas. Aquilo que nós chamamos “vida” já existia antes de a começarmos a viver. Nós vivemos prisioneiros dos conceitos que nós é que fabricamos: vida, nascer, morrer. O princípio e o fim. Em observação e na ciência eu nunca vi o fim, nunca percebi o fim e o princípio. O fim do dia é só porque o sol se esconde. O morrer é definitivo? Não sei.

Entrevista: Mafalda Agante

Mafalda Agante

Associação Sorrir

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